Pesquisa mostra que 42% das mulheres apostam ou já apostaram, enquanto outras 12% sofrem os efeitos do jogo de parentes; vergonha, endividamento e violência dificultam a busca por ajuda
Da Redação
Mais da metade das mulheres brasileiras já foi diretamente alcançada pelas apostas online, seja por jogar, seja por conviver com as perdas de alguém próximo. Segundo o estudo Mulheres & Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias, 42% das mulheres apostam ou já apostaram, enquanto outras 12% nunca jogaram, mas são afetadas pelas apostas de parceiros, parentes ou amigos.
Divulgado em agosto de 2026, o relatório do Estúdio Clarice combina uma pesquisa quantitativa nacional, realizada pelo Instituto de Pesquisa IDEIA, com uma etapa qualitativa conduzida pela Estratégia Latina. Os resultados mostram que os prejuízos ultrapassam a perda de dinheiro. As bets interferem no orçamento doméstico, na saúde mental e nas relações de confiança, com efeitos que recaem de maneira particular sobre as mulheres.
O levantamento quantitativo ouviu 2.008 brasileiros de todas as regiões do país nos dias 8 e 9 de julho. A amostra seguiu parâmetros populacionais do Censo de 2022 e da PNAD de 2025. A margem de erro estimada é de 2,2 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%.
Na fase qualitativa, foram entrevistadas 60 pessoas, entre mulheres apostadoras, ex-apostadoras, familiares afetados e homens que jogam. As entrevistas ocorreram em junho e julho, com participantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe.
O jogo apresentado como forma de pagar contas
A pesquisa identifica uma diferença importante entre a publicidade associada às apostas e a experiência cotidiana das entrevistadas. Para muitas mulheres, a entrada nas plataformas não foi motivada pela expectativa de enriquecimento. O objetivo era pagar uma conta, comprar comida, quitar uma dívida ou atender a um pedido dos filhos.
Entre as apostadoras, 22% afirmaram jogar para obter renda extra. Outros 19% buscavam ganhar dinheiro rapidamente, enquanto 16% queriam complementar a renda e ajudar no pagamento de despesas básicas.
Uma mulher de 40 anos, ouvida em São Paulo, contou que apostou os únicos R$ 10 que possuía pouco antes do aniversário de um dos filhos.
“Ano passado, um dos meus filhos ia fazer aniversário e eu não tinha dinheiro para comprar bolo, eu tinha R$ 10. […] Eu coloquei os R$ 10, apostei e ganhei R$ 300. Salvou: comprei o bolo. Era meu único R$ 10 antes do pagamento”
Ganhos ocasionais como esse ajudam a consolidar a percepção de que apostar pode ser uma estratégia doméstica. O problema aparece quando uma vitória é usada para justificar novas rodadas e as perdas começam a consumir os recursos reservados às necessidades da família.
Uma entrevistada de 44 anos relatou que teve a energia elétrica cortada depois de usar em apostas o dinheiro destinado à conta de luz. Ao perceber a perda, continuou jogando para tentar recuperar o valor.
Mães apostam mais
O relatório aponta que mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que aquelas sem filhos. Entre as apostadoras atuais, 72% são mães. Entre as que já deixaram de apostar, o percentual é de 59%.
Para as pesquisadoras, essa diferença está relacionada à responsabilidade atribuída às mulheres pelo cuidado e pela administração da casa. Mais da metade das entrevistadas, 52%, declarou ser a principal responsável por organizar o dinheiro familiar.
A pressão financeira é expressiva. Entre as mulheres consultadas, 64% afirmaram que o custo de vida aumentou no último ano e 56% se consideravam endividadas. Entre as endividadas, outras 56% disseram que a situação havia piorado em comparação com o ano anterior.
O quadro é mais grave entre as mulheres pretas, das quais 69% se declararam endividadas. Entre as pardas, o percentual chegou a 62%.
A aposta entra nesse cotidiano como uma possibilidade de aliviar despesas que já não cabem na renda. Uma participante de 43 anos resumiu o peso que sentia ao não conseguir atender aos filhos:
“A parte mais triste de você estar sem dinheiro é quando você tem filhos, é quando seu filho pede uma coisa que você não pode comprar”
O estudo sustenta que as plataformas exploram uma expectativa de autonomia vinculada ao dever de cuidar. A promessa não se limita à obtenção de dinheiro. Ela oferece, de forma aparente, a possibilidade de restaurar a capacidade da mulher de prover para a família.
Confiança transformada em publicidade
A entrada nas apostas frequentemente ocorre por indicação de pessoas próximas. Entre as mulheres que jogam, 24% disseram ter conhecido as plataformas pelas redes sociais, 23% por grupos de amigos e 18% por influenciadores digitais. Familiares e parceiros também aparecem como fontes importantes de recomendação.
Entre jovens de 18 a 24 anos, influenciadores e amigos têm o mesmo peso: cada grupo foi citado por 25% das entrevistadas.
O relatório descreve uma cadeia de divulgação que começa com celebridades, passa por influenciadores locais e alcança grupos de família, vizinhança, trabalho e igreja. Nesse processo, a proximidade funciona como garantia de credibilidade.
Uma apostadora de 47 anos, moradora da Bahia, contou que ouviu mulheres compartilharem links de plataformas durante uma atividade religiosa. A recomendação permaneceu em sua memória até que ela decidiu fazer um depósito.
“Todo mundo comentando que ganha, que ganha. Será que eu vou ganhar também? […] Fui lá e botei meu dinheiro”
A pesquisa também encontrou casos de remuneração pela divulgação. Entre as apostadoras, 37% disseram já ter recebido bônus, vantagens, promoções ou dinheiro para recomendar alguma plataforma.
Nos depoimentos qualitativos, participantes relataram propostas de comissão calculada sobre as perdas de pessoas cadastradas por meio de seus links. Uma mulher afirmou ter recebido a oferta de ficar com 50% do dinheiro perdido pelos usuários que atraísse.
Essa prática cria um conflito particular. A indicação circula como recomendação de alguém conhecido, mas pode esconder um interesse financeiro que depende do prejuízo de quem entra.
As vitórias aparecem, as perdas ficam escondidas
Um terço das mulheres acredita que muitas pessoas ganham dinheiro com apostas online. Essa percepção é alimentada por comprovantes de Pix, vídeos de influenciadores e relatos de conhecidos que exibem uma rodada vencedora sem informar quanto perderam antes ou depois.
“Fala do lucro, mas não fala do gasto”
A observação de uma das participantes sintetiza uma assimetria destacada pela pesquisa. Os ganhos são publicados. As perdas permanecem escondidas, junto com as dívidas e os conflitos.
Após o primeiro acesso às plataformas, 79% das mulheres disseram ter percebido um aumento na quantidade de conteúdos sobre apostas mostrados pelas redes sociais. Além disso, 72% consideram que a publicidade estimula as pessoas a jogar mais do que deveriam.
A crença de que habilidade e disciplina podem controlar os resultados também contribui para a permanência. Uma em cada quatro mulheres concorda que é preciso ser habilidosa para vencer. Entre aquelas que apostam com frequência, o percentual sobe para 40,5%.
Grupos pagos prometem ensinar horários, sequências e supostas estratégias. Quando o resultado é negativo, a plataforma desaparece da explicação e a responsabilidade é atribuída à jogadora.
“Se eu perdi meu dinheiro, errada sou eu. Não é o jogo, não é a propaganda, não é quem falou que ganha. […] A culpa é sua”, afirmou uma ex-apostadora de 38 anos
Violência e perda de confiança dentro de casa
Para 63% dos brasileiros, as apostas estão acabando com as famílias. Entre as mulheres, o percentual chega a 67%. O diagnóstico está relacionado a situações concretas observadas pelos participantes: 23% dos entrevistados disseram conhecer ou ter presenciado algum caso em que as apostas contribuíram para agressões ou violência familiar.
O índice chega a 46% entre pessoas que apostam com frequência. No recorte regional, a maior proporção foi registrada no Norte, com 32%, seguido do Centro-Oeste, com 25%, e do Nordeste, com 24%.
Entre as mulheres afetadas pelo jogo de alguém próximo, 24% relataram conflitos familiares e a mesma proporção apontou perda de confiança. O desgaste emocional foi mencionado por 21%.
Os depoimentos incluem companheiros que escondem apostas, filhas que contraem dívidas e familiares que passam a controlar contas bancárias para tentar impedir novos depósitos. Também aparecem empréstimos feitos com agiotas. Entre as apostadoras, 7% declararam ter recorrido a esse tipo de crédito. Entre as mulheres afetadas pelas apostas de terceiros, 8% afirmaram que elas próprias ou alguém próximo fizeram o mesmo.
Uma mãe relatou ter sido ameaçada por um agiota procurado pela filha. A família conseguiu R$ 2 mil para pagar a dívida depois que o credor obteve nomes e endereços de parentes.
Crianças e adolescentes conseguem acessar plataformas
A etapa qualitativa identificou relatos de crianças e adolescentes que apostaram utilizando o CPF de adultos. Embora a pesquisa ressalte que seria necessária uma amostra maior para medir a extensão do problema, as entrevistas mostram menores de idade acessando jogos sem encontrar barreiras efetivas.
Uma mãe disse que a filha começou aos 13 anos. Outra contou que incentivou a adolescente a apostar R$ 10 para tentar comprar um objeto mais caro. Há ainda relatos de automutilação, mudanças de humor e acompanhamento psicológico.
Em julho, o governo federal ampliou as regras para publicidade no setor. A nova norma considera abusivos os anúncios direcionados a crianças e adolescentes, determina a verificação dos operadores anunciantes e exige que redes sociais impeçam a exibição de publicidade de apostas para contas de menores. Lojas de aplicativos também devem restringir programas que não possuam verificação de idade, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Os depoimentos reunidos pelo estudo indicam, porém, que a presença de um CPF adulto dentro de casa continua sendo uma forma de contornar as restrições.
Vergonha impede pedido de ajuda
A saúde mental ocupa uma parte central do levantamento. Entre as apostadoras atuais, 20% relataram ansiedade desde que começaram a jogar, 11% citaram crises de pânico, insônia ou coração acelerado e 10% reconheceram algum nível de dependência.
A vergonha dificulta o acesso aos serviços. Entre as mulheres que quiseram pedir ajuda, mas desistiram, 65% disseram que não buscaram atendimento por esse motivo. Outras 23% afirmaram não ter a quem recorrer.
Uma entrevistada de 27 anos contou que recorreu ao ChatGPT durante uma crise de ansiedade, após apostar o dinheiro que pretendia usar no aniversário da filha. Mesmo orientada a procurar atendimento, não buscou ajuda por vergonha.
O Ministério da Saúde passou a oferecer pelo aplicativo Meu SUS Digital teleatendimento sigiloso para pessoas com problemas relacionados a jogos e seus familiares. O serviço tem capacidade para até 100 mil consultas mensais e funciona como acesso à Rede de Atenção Psicossocial, que inclui UBS e CAPS. Segundo o Ministério da Saúde, a equipe reúne profissionais de psicologia, enfermagem e outras áreas de saúde.
Alterações no sono, irritabilidade, dificuldade de interromper as apostas, comprometimento do orçamento e sentimentos de culpa estão entre os sinais de alerta apontados pelo serviço.
Mulheres lideram apoio à proibição
A rejeição às casas de apostas atravessa diferentes posições políticas. Segundo a pesquisa, 56% dos brasileiros apoiam a proibição das bets. Entre as mulheres, o índice alcança 62%, ante 50% dos homens.
O apoio foi registrado entre 62% dos eleitores que votaram em Lula no segundo turno de 2022 e 56% dos que votaram em Jair Bolsonaro. Para as autoras, o resultado indica uma insatisfação que não se limita a um campo eleitoral.
As mulheres também apresentam maior percepção dos danos. Entre elas, 76% concordam que as plataformas estão viciando os brasileiros, 74% relacionam o setor ao endividamento das famílias e 72% afirmam que as apostas reduzem a qualidade de vida.
Mesmo algumas jogadoras apoiam medidas duras. Uma entrevistada afirmou que assinaria um abaixo-assinado pela proibição, embora reconhecesse gostar da sensação proporcionada pelo jogo.
O governo tornou obrigatória, a partir de 17 de julho, a veiculação de advertências em anúncios, como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”. As mensagens devem ocupar pelo menos 10% da área das peças publicitárias, conforme as novas regras do Ministério da Fazenda.
O estudo defende medidas adicionais, entre elas a restrição inicial aos cassinos online, modalidade utilizada por 49% das apostadoras, a limitação de depósitos, o acompanhamento das perdas acumuladas e a interrupção de comissões vinculadas ao prejuízo de usuários indicados.
Também recomenda canais anônimos de atendimento por WhatsApp, disponíveis fora do horário comercial. A proposta parte de uma constatação: as perdas muitas vezes acontecem à noite ou de madrugada, enquanto o medo do julgamento impede que as mulheres procurem ajuda nos serviços convencionais.
A pesquisa conclui que qualquer política de contenção precisa considerar tanto quem joga quanto quem assume as consequências dentro de casa. Em muitos casos, são as mulheres que percebem o desaparecimento do dinheiro, negociam dívidas e tentam conter o comportamento de filhos ou companheiros, sem orientação institucional.
Os dados mostram que as bets não vendem apenas a possibilidade de lucro. Elas se apresentam como resposta à insegurança econômica e alcançam mulheres que procuram cumprir responsabilidades familiares. Quando a promessa falha, a dívida não fica restrita à plataforma. Ela aparece na conta atrasada, no alimento que deixa de ser comprado e na vergonha de contar o que aconteceu.
Atenção: pessoas que enfrentam sofrimento emocional ou pensamentos suicidas podem procurar o Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188. O atendimento é gratuito. Para problemas relacionados às apostas, o SUS oferece autoteste e teleatendimento pelo Meu SUS Digital, além de atendimento em UBS e CAPS.

