Professora e blogueira que inspirou a Lei Lola Aronovich analisa misoginia digital, ataques contra feministas e o papel das plataformas na amplificação da violência online
A edição de março do programa Vozes pela Democracia, dedicada às questões de gênero em razão do Dia Internacional das Mulheres, recebeu como primeira convidada a professora e blogueira Lola Aronovich, conhecida por sua atuação no combate à misoginia na internet. A entrevista foi conduzida pelo jornalista Sousa Jr. e integra a série especial do programa voltada à luta das mulheres por direitos, igualdade e segurança.
O conteúdo foi exibido pelo programa produzido pela TV Atitude Popular, em parceria com o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), e discute os impactos da violência digital contra mulheres, o funcionamento das plataformas digitais e os desafios para enfrentar a misoginia no ambiente online.
Professora universitária e autora do blog “Escreva, Lola, Escreva”, Aronovich tornou-se uma referência no debate sobre violência de gênero na internet após sofrer ameaças e ataques sistemáticos por sua atuação feminista. A repercussão desses ataques levou à criação da Lei 13.642/2018, conhecida como Lei Lola Aronovich, que atribuiu à Polícia Federal a responsabilidade de investigar conteúdos misóginos publicados na internet.
Logo no início da conversa, Aronovich chamou atenção para a lógica econômica que sustenta a circulação de discursos de ódio nas redes digitais.
“As plataformas não lucram apenas com o ódio contra as mulheres, elas lucram com tudo que está de errado na internet.”
Segundo a professora, o modelo de negócios das grandes plataformas digitais favorece conteúdos que geram engajamento e, consequentemente, lucro publicitário, mesmo quando esses conteúdos envolvem fraude, desinformação ou violência simbólica.
Para ilustrar essa dinâmica, ela citou exemplos de anúncios fraudulentos que aparecem em mecanismos de busca e redes sociais, muitas vezes posicionados acima de sites oficiais. Aronovich argumenta que esse sistema permite que crimes prosperem online com o conhecimento das próprias plataformas.
A professora também destacou como os algoritmos podem conduzir usuários, especialmente jovens, a conteúdos extremistas em pouco tempo.
Ela relatou o caso de um adolescente interessado em vídeos de história que, em poucos dias, passou a receber recomendações de conteúdos neonazistas e negacionistas do Holocausto.
“O ódio contra as mulheres é uma grande porta de entrada para outros ódios na internet.”
Para Aronovich, a misoginia funciona como um ponto inicial de radicalização digital que posteriormente se conecta a outras formas de extremismo político e ideológico.
Durante a entrevista, a blogueira também falou sobre os ataques que sofreu ao longo de mais de quinze anos de atuação pública. Desde o início do blog, em 2008, ela passou a enfrentar campanhas organizadas de assédio virtual, ameaças de morte e tentativas de intimidação.
“Infelizmente eu já estou acostumada. São muitos anos de ataques.”
Aronovich afirmou que os ataques não são direcionados a ela enquanto pessoa, mas ao que representa politicamente.
“Eu não sou atacada por ser a Lola. Essas pessoas nem me conhecem. Elas atacam o estereótipo de feminista que carregam.”
A professora ressaltou que a violência digital contra mulheres não é um fenômeno isolado. Segundo ela, feministas, jornalistas e mulheres que se posicionam publicamente nas redes costumam ser alvos recorrentes de campanhas misóginas.
Apesar desse cenário, Aronovich observa que houve avanços importantes na sociedade nas últimas décadas, especialmente na forma como a mídia e a publicidade abordam questões de gênero.
Ela lembrou que, há cerca de quinze anos, revistas femininas e propagandas frequentemente reproduziam discursos machistas que hoje seriam amplamente criticados.
“Hoje nenhuma revista feminina trataria assédio como elogio, como acontecia antes.”
Ainda assim, a professora avalia que esse avanço convive com uma reação conservadora e com o crescimento da extrema direita em vários países.
“Eu acho que tem um crescimento da misoginia ligado ao crescimento da extrema direita no mundo.”
Segundo ela, movimentos políticos ultraconservadores frequentemente atacam direitos das mulheres e alimentam discursos que normalizam o ódio de gênero.
Outro ponto destacado na entrevista foi a importância de envolver os homens no enfrentamento da violência contra as mulheres. Para Aronovich, campanhas públicas precisam dialogar também com o público masculino, já que os crimes de gênero são majoritariamente cometidos por homens.
“Se a gente quer combater isso, tem que falar com os homens também.”
Ela lembrou que feminicídio, estupro e assédio são problemas estruturais e que organismos internacionais já classificam a violência contra mulheres como uma epidemia global.
A professora também chamou atenção para a relação entre misoginia online e ataques violentos em escolas, fenômeno que tem sido observado em diferentes países.
“A misoginia está muito ligada aos ataques em escolas e aos massacres cometidos por adolescentes.”
Ao final da entrevista, Aronovich comentou a importância da Lei Lola Aronovich, criada após anos de dificuldades para registrar denúncias contra ataques virtuais.
Ela relatou que, antes da lei, muitas delegacias não sabiam como lidar com crimes de ódio na internet, e que a Polícia Federal alegava não ter competência para investigar misoginia online.
“A lei existe para forçar a Polícia Federal a investigar crimes contra mulheres na internet.”
Segundo a professora, a legislação representou um avanço ao reconhecer oficialmente a misoginia no ordenamento jurídico brasileiro. Ainda assim, ela defende que o país avance para a criminalização específica da misoginia, assim como já ocorre com o racismo e a LGBTfobia.
No encerramento da entrevista, Aronovich citou uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro que analisou canais do YouTube dedicados à disseminação de conteúdo misógino.
“Existem 137 canais abertamente misóginos e 80% deles são monetizados.”
Para ela, esse dado demonstra que a violência contra mulheres na internet também é alimentada por incentivos econômicos.
“A misoginia é altamente lucrativa para as plataformas e para quem odeia mulheres.”
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