Brasil mostra na ONU que Cuba não está sozinha

Brasil denuncia na Assembleia Geral da ONU as consequências humanitárias do embargo econômico e do cerco energético impostos pelos Estados Unidos a Cuba. O embaixador Sérgio França Danese classifica as medidas americanas como punição coletiva contra aproximadamente dez milhões de pessoas e reafirma a defesa da soberania nacional. Documentos das Nações Unidas apontam apagões superiores a 20 horas, escassez de medicamentos, agravamento da mortalidade infantil e dificuldades no transporte de alimentos. Em meio a pressões diplomáticas de Washington, a ONU prepara nova votação sobre o fim das sanções nesta quarta-feira (28).

Da Redação

O Brasil voltou a defender nas Nações Unidas o fim do embargo econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba, colocando a deterioração das condições de vida da população cubana no centro de uma disputa que atravessa mais de seis décadas de história latino-americana. Durante o debate realizado nesta terça-feira, 27 de outubro de 2026, em Nova York, o representante brasileiro na organização, embaixador Sérgio França Danese, reafirmou a oposição do país às medidas coercitivas unilaterais e às restrições que atingem serviços essenciais na ilha caribenha. A manifestação ocorreu num momento em que o governo de Donald Trump intensificou as pressões econômicas sobre Havana e procura reduzir o apoio internacional à resolução que pede o encerramento do embargo.

Segundo a reportagem publicada pelo Brasil 247, a delegação brasileira acompanhou a posição do Grupo dos 77 e China, que reúne países em desenvolvimento, e classificou as sanções americanas como uma forma de punição coletiva. O argumento central apresentado pelo Brasil é que medidas destinadas a pressionar um governo produzem consequências generalizadas sobre uma população que não possui controle sobre as decisões tomadas em Washington ou Havana.

A manifestação brasileira não se limita à divergência diplomática com os Estados Unidos. Ela envolve a discussão sobre os limites jurídicos e humanitários das sanções econômicas, o direito dos povos à autodeterminação e a possibilidade de uma potência utilizar sua influência sobre mercados, bancos, transportadoras e fornecedores internacionais para restringir as condições de funcionamento de outra economia.

O pronunciamento acontece às vésperas de uma nova votação da Assembleia Geral das Nações Unidas, prevista para quarta-feira, 28 de outubro. A resolução solicita o encerramento do embargo americano e reafirma posições defendidas desde 1992 pela maioria dos integrantes da organização. Embora não possua caráter juridicamente vinculante para obrigar Washington a suspender suas medidas, a votação representa uma manifestação política importante sobre a legitimidade internacional das restrições.

A situação cubana, entretanto, tornou-se particularmente grave em 2026.

As restrições econômicas impostas há décadas foram intensificadas por medidas dirigidas ao abastecimento de combustíveis, ao funcionamento do sistema financeiro e às atividades de empresas estrangeiras que mantêm relações comerciais com a ilha.

Em 29 de janeiro, Donald Trump assinou uma ordem executiva que declarou emergência nacional em relação a Cuba e estabeleceu mecanismos para impor tarifas adicionais a produtos provenientes de países que fornecessem petróleo ao território cubano.

A iniciativa ampliou a pressão americana para além das relações bilaterais. Em vez de restringir apenas as transações diretamente realizadas entre empresas dos Estados Unidos e Cuba, Washington passou a ameaçar parceiros comerciais de terceiros países com consequências tarifárias relacionadas ao abastecimento energético da ilha.

O efeito potencial dessas medidas ultrapassa o mercado de petróleo. Empresas transportadoras, seguradoras, bancos e fornecedores internacionais podem reduzir suas operações para evitar riscos financeiros, mesmo quando determinadas transações não estão expressamente proibidas.

Esse fenômeno, conhecido como excesso de conformidade às sanções, cria obstáculos adicionais para economias que dependem do comércio internacional e de sistemas bancários integrados ao dólar.

No caso cubano, as dificuldades adquiriram proporções humanitárias documentadas pelo próprio sistema das Nações Unidas.

Em junho de 2026, o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, divulgou um alerta sobre os efeitos das restrições energéticas e das sanções adicionais aplicadas pelos Estados Unidos.

Segundo o documento, a interrupção dos embarques de combustível e o esgotamento das reservas energéticas produziram apagões diários que frequentemente ultrapassam vinte horas.

A falta de eletricidade interfere diretamente no funcionamento de hospitais, sistemas de distribuição de água, serviços de saneamento, escolas, transporte e estruturas de conservação de alimentos.

Em uma economia dependente de energia para manter serviços essenciais, o colapso do abastecimento não permanece restrito às instalações elétricas. Seus efeitos se espalham por praticamente todas as atividades sociais.

Hospitais que precisam realizar cirurgias, manter equipamentos de diálise, conservar medicamentos e garantir atendimento materno-infantil enfrentam dificuldades adicionais quando o fornecimento de eletricidade se torna irregular.

A escassez de combustível também compromete ambulâncias, transporte de pacientes e distribuição de suprimentos médicos.

O relatório do Alto Comissariado apontou que serviços de oncologia, diálise e atendimento materno estavam submetidos a pressões intensas.

Dados de saúde pública citados pela ONU indicavam que a mortalidade infantil havia chegado a 9,9 mortes por mil nascimentos, enquanto a taxa de sobrevivência de crianças com câncer havia recuado de aproximadamente 85% para 65%.

Esses indicadores representam um quadro sanitário alarmante. Embora tenham sido apresentados pela ONU no contexto das restrições energéticas, a avaliação precisa de suas causas também envolve o funcionamento do sistema de saúde, a disponibilidade de medicamentos e as condições econômicas gerais.

Volker Türk atribuiu importância direta ao efeito das sanções sobre o acesso aos insumos necessários para o atendimento médico.

“Crianças estão morrendo porque os médicos não têm acesso a suprimentos essenciais e medicamentos”, afirmou o Alto Comissário.

A declaração transformou o problema energético e financeiro numa questão de direitos humanos.

A falta de medicamentos não decorre exclusivamente de sua disponibilidade no mercado mundial. Para adquirir produtos no exterior, um país precisa possuir recursos financeiros, acessar sistemas de pagamento, contratar fornecedores, obter transporte e superar exigências regulatórias.

Quando essas condições são restringidas simultaneamente, a aquisição de suprimentos essenciais se torna mais complexa e onerosa.

O documento das Nações Unidas também apontou que o abastecimento de medicamentos essenciais havia caído para aproximadamente 30% das necessidades registradas pelas autoridades.

A restrição de combustíveis afetou ainda a produção agrícola, a distribuição de alimentos e o funcionamento da cadeia de abastecimento.

Segundo o Alto Comissariado, os problemas energéticos estavam associados a uma redução estimada de 60% na produção de alimentos, acompanhada de elevação dos custos de itens básicos.

Outra informação particularmente grave refere-se à assistência humanitária.

O relatório registrou que a suspensão de serviços por grandes empresas de transporte marítimo, diante do temor de sanções, afetou mais de 2.900 toneladas métricas de alimentos destinados à ajuda humanitária.

Isso não significa necessariamente que toda essa carga tenha sido destruída ou perdida. O dado se refere a alimentos cujo transporte e entrega foram prejudicados pelas restrições operacionais.

A distinção é importante porque permite dimensionar o impacto das medidas sem atribuir aos documentos internacionais conclusões que não apresentam.

A combinação desses problemas atinge especialmente crianças, idosos, pessoas com doenças crônicas e famílias que dependem integralmente dos serviços públicos.

É nesse contexto que o Brasil utiliza a expressão punição coletiva para caracterizar as consequências das sanções.

O conceito possui significado político e jurídico relevante. Na argumentação brasileira, uma medida aplicada para pressionar autoridades nacionais não pode desconsiderar seus efeitos sobre milhões de pessoas que não participam das decisões governamentais.

O governo americano apresenta uma interpretação diferente.

Washington afirma que o embargo constitui instrumento legítimo de política externa destinado a pressionar o governo cubano por mudanças políticas, respeito aos direitos humanos e maior abertura econômica.

A administração Trump acusa Havana de restringir liberdades civis, perseguir adversários políticos e manter relações com governos e organizações considerados ameaças à segurança dos Estados Unidos.

Na ONU, o embaixador americano Mike Waltz defendeu a manutenção das restrições e pediu que os demais países rejeitassem a resolução cubana.

Durante um evento realizado em 19 de outubro, com participação de dissidentes e antigos presos políticos cubanos, Waltz acusou o governo de Havana de utilizar o debate sobre o embargo para desviar a atenção de violações de direitos humanos.

O diplomata também argumentou que o sofrimento econômico da população não pode ser atribuído exclusivamente às medidas americanas.

Segundo a posição de Washington, problemas de gestão econômica, ausência de liberdades políticas e decisões internas do governo cubano contribuem para a crise.

A existência dessas críticas não elimina os impactos das sanções documentados pela ONU. Da mesma maneira, a condenação do embargo não exige ignorar as denúncias de violações cometidas pelas autoridades cubanas.

Organizações como a Human Rights Watch registram detenções arbitrárias, restrições à liberdade de expressão e perseguição de opositores na ilha.

Em relatório publicado em 2026, a entidade também reconheceu que o embargo americano agrava as dificuldades de acesso a direitos econômicos e sociais, embora critique o governo cubano por utilizar as sanções como justificativa para violações que dependem de decisões internas.

As duas dimensões precisam ser consideradas para compreender a situação.

A defesa dos direitos humanos envolve tanto a proteção contra medidas econômicas que prejudicam a população quanto o respeito às liberdades individuais e políticas.

A crítica brasileira à política de Washington concentra-se na utilização de sanções unilaterais que produzem consequências humanitárias abrangentes e afetam a capacidade de um país de manter relações econômicas com terceiros.

A posição de Brasília possui antecedentes históricos importantes.

Desde a década de 1960, as relações entre Estados Unidos e Cuba estiveram associadas aos conflitos da Guerra Fria e à reorganização do poder político no Caribe depois da Revolução Cubana de 1959.

A derrubada do governo de Fulgencio Batista pelo movimento liderado por Fidel Castro modificou profundamente a estrutura política e econômica do país.

O novo governo promoveu nacionalizações de empresas, reformas agrárias e mudanças institucionais que atingiram interesses econômicos americanos.

A aproximação de Havana com a União Soviética ampliou as tensões com Washington, levando à ruptura das relações diplomáticas e ao estabelecimento de restrições comerciais.

O embargo foi formalizado em fevereiro de 1962 pelo governo do presidente John F. Kennedy, depois de medidas restritivas iniciadas em 1960.

Ao longo das décadas seguintes, diferentes administrações americanas ampliaram, mantiveram ou flexibilizaram partes dessas restrições, conforme suas prioridades políticas.

A legislação aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos, especialmente a Lei Helms-Burton, de 1996, consolidou importantes mecanismos jurídicos do embargo e estabeleceu limitações à sua suspensão integral.

A lei também ampliou o alcance de determinadas medidas sobre empresas estrangeiras relacionadas a propriedades nacionalizadas depois da Revolução Cubana.

Esse caráter extraterritorial tornou-se um dos principais pontos de contestação internacional.

Países que mantêm relações comerciais legítimas com Cuba argumentam que não deveriam sofrer consequências econômicas decorrentes de decisões unilaterais americanas sobre atividades realizadas fora de seu território.

Para o Brasil, a questão ultrapassa a defesa de um parceiro latino-americano.

Envolve o princípio de que relações comerciais entre Estados soberanos não devem ser submetidas automaticamente às decisões de uma terceira potência.

A posição brasileira também está associada à defesa de um sistema internacional baseado em regras multilaterais, mecanismos de negociação e respeito à independência política dos países.

A discussão se tornou particularmente importante diante da utilização crescente de tarifas, restrições financeiras e medidas comerciais como instrumentos de pressão internacional.

Embora os Estados possuam competência para definir suas políticas comerciais, a aplicação de restrições com efeitos sobre terceiros países produz controvérsias relacionadas ao direito internacional e às obrigações estabelecidas por tratados.

A manutenção de Cuba na lista americana de Estados patrocinadores do terrorismo constitui outra fonte de tensão.

Essa classificação amplia restrições financeiras, produz efeitos sobre instituições bancárias e aumenta as dificuldades enfrentadas por empresas interessadas em operar com o mercado cubano.

O Brasil contesta a permanência da ilha nessa lista e argumenta que a medida aprofunda seu isolamento econômico.

A classificação americana decorre de critérios legais definidos por Washington e não constitui uma decisão adotada por um tribunal internacional.

O governo dos Estados Unidos sustenta que o enquadramento está relacionado a atividades e vínculos internacionais das autoridades cubanas. Havana rejeita as acusações e considera a designação um instrumento de pressão política.

A discussão voltou a adquirir intensidade depois que Donald Trump retornou à Presidência americana, em janeiro de 2025.

Nos últimos meses do governo de Joe Biden, Washington havia anunciado medidas de flexibilização relacionadas à política sobre Cuba.

Trump reverteu parte desse movimento e restabeleceu uma linha de maior pressão diplomática e econômica.

Em 2026, o endurecimento das restrições energéticas acrescentou uma nova dimensão à crise.

As dificuldades de fornecimento de combustível se intensificaram num país cujo sistema elétrico já enfrentava problemas antigos de manutenção, financiamento, envelhecimento de equipamentos e disponibilidade de matérias-primas energéticas.

A origem estrutural dessas vulnerabilidades ajuda a explicar por que novas interrupções de abastecimento tiveram efeitos tão graves.

O embargo não criou isoladamente todos os problemas da economia cubana. Mas os organismos internacionais registram que as restrições ampliaram obstáculos financeiros e operacionais justamente quando a infraestrutura nacional necessitava de investimentos, peças, equipamentos e combustíveis.

As consequências apareceram em apagões, dificuldades de transporte, perda de produtividade e agravamento da escassez de bens essenciais.

A situação também intensificou a migração de cubanos em busca de melhores condições de vida.

A redução da população economicamente ativa, a saída de profissionais especializados e a deterioração dos serviços públicos criam novos desafios para o desenvolvimento do país.

O problema possui uma dimensão regional porque os deslocamentos migratórios atingem diferentes países do Caribe, da América Central e do continente americano.

Para o governo brasileiro, o agravamento dessas condições demonstra os riscos de transformar sanções econômicas abrangentes em instrumentos permanentes de política internacional.

Essa posição foi reafirmada por Lula em setembro, durante seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas.

O presidente brasileiro denunciou o embargo e o cerco energético, afirmando que o mundo assistia à punição coletiva de aproximadamente dez milhões de cubanos.

A declaração integrou um pronunciamento mais amplo sobre soberania, multilateralismo, comércio internacional e oposição às intervenções estrangeiras na América Latina.

A continuidade dessa orientação apareceu novamente na manifestação do embaixador Sérgio França Danese.

O representante brasileiro sustentou que o sistema internacional não pode ser organizado exclusivamente pela capacidade das grandes potências de impor decisões aos países de menor poder econômico e militar.

A posição acompanha a tradição diplomática de defesa da solução pacífica de controvérsias, da não intervenção e da autodeterminação dos povos.

Ela também reflete as mudanças ocorridas na política externa brasileira depois de 2022.

Durante grande parte do período posterior à redemocratização, o Brasil apoiou resoluções da ONU que pediam o encerramento do embargo contra Cuba.

Em 2019, entretanto, durante o governo Jair Bolsonaro, a diplomacia brasileira rompeu essa orientação e votou contra a resolução, acompanhando os Estados Unidos e Israel.

Em 2021 e 2022, o país passou a adotar a abstenção.

Com o retorno de Lula à Presidência, em 2023, Brasília retomou sua posição tradicional de apoio à condenação das sanções unilaterais.

A mudança demonstra que a política externa brasileira, embora possua princípios constitucionais permanentes, também sofre alterações decorrentes das orientações dos governos eleitos.

A Assembleia Geral das Nações Unidas tornou-se o principal espaço internacional de manifestação contrária ao embargo americano.

Desde 1992, a organização aprova resoluções solicitando seu encerramento, com amplas maiorias formadas por países de diferentes continentes e orientações políticas.

Na votação realizada em 29 de outubro de 2025, a resolução recebeu 165 votos favoráveis, sete contrários e 12 abstenções.

Votaram contra Estados Unidos, Israel, Argentina, Hungria, Macedônia do Norte, Paraguai e Ucrânia.

O resultado demonstrou que a oposição ao embargo continuava majoritária, embora o apoio à resolução tivesse diminuído em comparação com o ano anterior, quando 187 países haviam votado favoravelmente.

A alteração refletiu mudanças nas relações diplomáticas e nas posições de determinados governos.

Mesmo assim, a resolução permaneceu apoiada por uma maioria expressiva da comunidade internacional.

A votação de 2026 ocorrerá em circunstâncias particularmente tensas.

O governo cubano acusa Washington de pressionar outros países para que modifiquem seus votos.

Em 21 de outubro, o chanceler Bruno Rodríguez afirmou que representantes americanos estavam ameaçando determinadas delegações com restrições de vistos, tarifas comerciais, suspensão de programas de cooperação e outras consequências econômicas.

O ministro também denunciou ameaças de apoio a forças de oposição e de interferência em processos políticos de países que votassem favoravelmente a Cuba.

Essas acusações foram divulgadas pela Reuters e precisam ser tratadas como alegações apresentadas pelo governo cubano, não como fatos já demonstrados por uma investigação independente.

O Departamento de Estado americano não respondeu imediatamente às solicitações de esclarecimento encaminhadas pela agência.

Washington, por sua vez, intensificou sua mobilização diplomática para convencer outros países a rejeitar a proposta cubana.

Em 19 de outubro, a missão americana na ONU organizou um encontro com dissidentes e antigos presos políticos da ilha, destinado a apresentar denúncias contra as autoridades de Havana.

O evento provocou confrontos verbais entre representantes das duas delegações.

Na sessão desta terça-feira, Mike Waltz voltou a defender a posição americana e contestou a utilização do termo bloqueio para caracterizar as sanções.

O embaixador argumentou que não existe um bloqueio naval convencional formado por navios militares cercando Cuba.

Também afirmou que empresas americanas continuam realizando exportações autorizadas para o mercado cubano, incluindo determinados alimentos e combustíveis destinados a atividades privadas.

O argumento indica a existência de exceções às restrições comerciais e distingue o embargo econômico de uma interdição naval integral.

Entretanto, o fato de determinadas mercadorias serem legalmente exportáveis não elimina necessariamente as dificuldades financeiras, logísticas e comerciais produzidas pelo conjunto das sanções.

O debate precisa considerar tanto as exceções formalmente previstas quanto os obstáculos concretos registrados no funcionamento dos mercados e dos sistemas de pagamento.

A Organização das Nações Unidas documenta precisamente essa diferença entre a existência de autorizações legais e a capacidade efetiva de adquirir e receber produtos essenciais.

Bancos podem rejeitar operações por receio de sanções. Empresas de transporte podem suspender serviços. Fornecedores podem exigir condições financeiras mais caras ou decidir não assumir riscos comerciais.

Esses mecanismos aumentam a complexidade das importações mesmo quando não existe proibição absoluta sobre determinada mercadoria.

O resultado é uma combinação de restrições diretas e indiretas que amplia as dificuldades de abastecimento.

A situação também envolve responsabilidades internas do governo cubano.

A crise econômica da ilha possui raízes relacionadas à estrutura produtiva, às dificuldades de investimento, à dependência de importações, à baixa disponibilidade de divisas e a escolhas de política econômica realizadas ao longo de décadas.

Problemas de gestão e limitações institucionais contribuíram para agravar vulnerabilidades preexistentes.

Reconhecer essas dificuldades não significa ignorar a pressão americana.

Da mesma maneira, documentar os efeitos das sanções não dispensa a fiscalização das autoridades cubanas nem a defesa das liberdades civis.

O Alto Comissário Volker Türk, ao denunciar os efeitos humanitários das medidas americanas, também pediu ao governo de Havana respeito à liberdade de expressão, associação e reunião pacífica.

O representante da ONU solicitou a libertação de pessoas detidas arbitrariamente e a adoção de iniciativas de diálogo destinadas a reduzir as tensões sociais.

Essa posição demonstra que a defesa dos direitos da população cubana não precisa ser apresentada como escolha entre apoiar integralmente seu governo ou aceitar sanções que produzem sofrimento generalizado.

Os direitos civis, políticos, econômicos e sociais integram um conjunto de garantias que devem alcançar todas as pessoas.

A defesa da autodeterminação não concede imunidade às autoridades nacionais diante de violações de direitos humanos. Mas também não autoriza a imposição de medidas econômicas indiscriminadas contra toda uma população.

A disputa sobre Cuba tornou-se, assim, um exemplo das contradições existentes entre a soberania dos Estados, a proteção internacional dos direitos humanos e a utilização do poder econômico nas relações internacionais.

Para países do Sul Global, essas questões possuem importância particular.

Economias que dependem de mercados financeiros internacionais, importação de tecnologia e cadeias globais de abastecimento podem sofrer consequências expressivas quando submetidas a restrições comerciais impostas por grandes potências.

A capacidade de diversificar parceiros e preservar sistemas próprios de financiamento influencia a margem de autonomia disponível para decisões nacionais.

Cuba enfrenta essas dificuldades em condições particularmente severas, devido à proximidade geográfica com os Estados Unidos, à duração histórica do embargo e às limitações de sua estrutura produtiva.

A discussão também interessa ao Brasil porque a América Latina constitui um espaço fundamental de suas relações diplomáticas, comerciais e políticas.

A defesa de uma região de paz, sem intervenções militares estrangeiras e com mecanismos de solução negociada dos conflitos, aparece entre os princípios reiterados pela diplomacia brasileira.

O governo Lula procura associar essa orientação à ampliação da integração regional e à diversificação de parcerias internacionais.

A posição sobre Cuba integra esse conjunto de prioridades, mas não elimina as diferenças entre os sistemas políticos dos dois países nem transforma suas relações em alinhamento automático sobre todos os assuntos.

O elemento central é a defesa de regras que permitam a países soberanos negociar suas divergências sem recorrer a instrumentos de pressão que produzam consequências humanitárias indiscriminadas.

A discussão também envolve a capacidade das instituições multilaterais de influenciar decisões tomadas pelas grandes potências.

A Assembleia Geral pode aprovar resoluções, reunir informações, apresentar recomendações e expressar a posição de seus integrantes.

Não possui, entretanto, meios automáticos para obrigar o Congresso americano a revogar a legislação que sustenta o embargo.

A suspensão integral das principais restrições depende de decisões internas dos Estados Unidos, embora o Executivo americano disponha de competências para modificar determinados aspectos de sua aplicação.

Essa limitação explica por que sucessivas votações contrárias ao embargo não produziram seu encerramento.

A existência de amplas maiorias na ONU estabelece uma posição diplomática relevante, mas não substitui os instrumentos de decisão previstos na legislação americana.

O contraste coloca uma questão importante sobre o funcionamento da ordem internacional.

A maioria dos Estados pode considerar determinadas medidas incompatíveis com os princípios que orientam a cooperação entre nações, enquanto o país responsável por sua aplicação mantém capacidade econômica e jurídica para preservá-las.

Essa assimetria revela os limites práticos do multilateralismo diante da concentração de poder financeiro, comercial e militar.

A votação de quarta-feira não resolverá todas essas contradições.

Mas permitirá registrar novamente a posição dos países sobre uma política que atravessa mais de sessenta anos e que, segundo organismos internacionais, contribui para agravar uma crise humanitária de grandes proporções.

Também oferecerá uma oportunidade para examinar o grau de apoio diplomático obtido pelos Estados Unidos depois da intensificação das restrições energéticas em 2026.

Para Cuba, a votação representa uma possibilidade de denunciar suas dificuldades e solicitar apoio internacional.

Para Washington, constitui um espaço de defesa de sua política e de apresentação das acusações contra o governo cubano.

Para o Brasil, é uma oportunidade de reafirmar a oposição às sanções coercitivas unilaterais e de sustentar princípios que considera relevantes para a soberania e para a proteção dos direitos humanos.

A posição brasileira ganha significado adicional diante dos dados apresentados pelas Nações Unidas.

Quando hospitais enfrentam dificuldades para manter equipamentos funcionando, quando alimentos deixam de chegar aos seus destinos e quando famílias permanecem longos períodos sem eletricidade, as consequências das decisões econômicas deixam de ser apenas indicadores de comércio internacional.

Tornam-se acontecimentos diretamente relacionados à vida cotidiana de milhões de pessoas.

A discussão sobre Cuba não pode ignorar essas consequências.

Os conflitos políticos entre governos são reais, e as denúncias de violações de direitos humanos precisam ser examinadas com independência.

Mas os efeitos sobre crianças, idosos, pacientes e trabalhadores constituem uma questão própria, que não desaparece em razão das divergências ideológicas entre os Estados.

A manifestação brasileira na ONU procura justamente estabelecer essa separação.

As diferenças entre governos devem ser administradas por instrumentos diplomáticos e jurídicos compatíveis com as obrigações internacionais, sem desconsiderar a proteção das populações civis.

Ao reafirmar sua oposição ao embargo, o Brasil também recupera uma tradição diplomática relacionada à independência nacional, à solução pacífica de controvérsias e ao respeito à autodeterminação dos povos.

Esses princípios foram reiterados por sucessivos governos e continuam presentes nas discussões sobre o funcionamento do sistema internacional.

A crise cubana demonstra, entretanto, que princípios diplomáticos precisam ser avaliados também por suas consequências materiais.

O acesso a alimentos, medicamentos, energia e serviços de saúde depende de condições econômicas concretas.

A proteção dos direitos humanos exige tanto garantias políticas quanto possibilidades efetivas de sobrevivência e desenvolvimento.

A existência de uma crise econômica prolongada não elimina a responsabilidade do governo cubano por suas decisões. Mas o impacto adicional das sanções americanas, documentado pelas Nações Unidas, constitui um problema independente que exige respostas.

A Assembleia Geral voltará a se manifestar nesta quarta-feira.

Até o encerramento desta reportagem, o resultado da votação de 28 de outubro ainda não havia sido anunciado.

O que já está documentado é a permanência de uma política de restrições econômicas que atravessou diferentes administrações americanas, o agravamento da crise energética em 2026 e a preocupação expressa por organismos internacionais com as consequências humanitárias das medidas.

A manifestação do Brasil se insere nesse contexto e reafirma uma posição diplomática conhecida: divergências políticas não justificam, na avaliação brasileira, a imposição de restrições que atingem indiscriminadamente a população de um país.

Depois de mais de seis décadas de embargo, o debate na ONU permanece centrado numa questão fundamental: como enfrentar divergências entre Estados sem transformar milhões de pessoas em vítimas das medidas destinadas a pressionar seus governos? Para o Brasil, a resposta passa pelo respeito à soberania, pela proteção dos direitos humanos e pela solução diplomática dos conflitos internacionais.