Roberto Medronho propõe um pacto nacional pela ciência e afirma que desenvolvimento tecnológico depende de universidades fortes, planejamento estatal e cooperação internacional estratégica
Da Redação
O reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Medronho, defendeu a construção de um grande pacto nacional pela ciência, tecnologia e inovação e afirmou que o Brasil deve observar com atenção a experiência chinesa de desenvolvimento científico como referência para construir um projeto de soberania nacional baseado no conhecimento.
A declaração ocorre em um momento em que a disputa tecnológica se tornou um dos principais elementos da geopolítica mundial. Inteligência artificial, semicondutores, computação quântica, biotecnologia, energia limpa e indústria de alta complexidade passaram a definir não apenas o crescimento econômico das nações, mas também sua capacidade de exercer autonomia política e estratégica.
Na avaliação do reitor, o Brasil reúne universidades de excelência, pesquisadores altamente qualificados e enorme potencial científico. O desafio consiste em transformar esse patrimônio intelectual em política permanente de Estado, articulando governo, universidades, empresas públicas e setor produtivo em torno de um projeto nacional de desenvolvimento.
A China demonstra que ciência é investimento, não gasto
Ao citar a China como exemplo, Medronho destacou que o país asiático realizou uma das maiores transformações científicas da história contemporânea.
Em poucas décadas, a China deixou de ser vista como uma economia baseada em manufatura de baixo custo para ocupar posição de liderança em inteligência artificial, telecomunicações, computação avançada, veículos elétricos, energia solar, exploração espacial, trens de alta velocidade, robótica e biotecnologia.
Esse salto, segundo o reitor, não ocorreu por acaso.
Foi resultado de décadas de planejamento estratégico, investimentos públicos contínuos, fortalecimento das universidades e integração entre pesquisa científica e desenvolvimento industrial.
Hoje, universidades chinesas figuram entre as principais do mundo, enquanto centros de pesquisa trabalham em estreita cooperação com empresas e instituições públicas para acelerar a inovação tecnológica.
Para Medronho, essa experiência demonstra que nenhuma grande potência tecnológica foi construída apenas pelas forças do mercado.
Ciência é questão de soberania
O reitor argumenta que ciência e tecnologia deixaram de ser apenas instrumentos de produção de conhecimento.
No século XXI, tornaram-se elementos centrais da soberania nacional.
Países que dominam tecnologias estratégicas conseguem produzir medicamentos, desenvolver inteligência artificial própria, fabricar equipamentos de defesa, controlar infraestruturas digitais e reduzir dependências externas.
Já aqueles que permanecem importando tecnologia tornam-se vulneráveis às decisões de outras potências.
Nesse contexto, investir em universidades públicas, pesquisa científica e inovação significa fortalecer a própria capacidade de decisão do Estado brasileiro.
O Brasil possui uma das maiores estruturas científicas da América Latina
Segundo Medronho, instituições como a UFRJ representam patrimônio estratégico nacional.
Além da formação de milhares de profissionais altamente qualificados, as universidades públicas concentram laboratórios, hospitais universitários, centros tecnológicos e pesquisas que produzem conhecimento em praticamente todas as áreas do desenvolvimento.
Foi justamente esse sistema científico que permitiu ao Brasil responder rapidamente durante a pandemia, desenvolver pesquisas biomédicas, produzir vacinas, criar tecnologias agrícolas e formar especialistas responsáveis por diversos avanços industriais nas últimas décadas.
Apesar disso, o setor ainda enfrenta dificuldades provocadas por oscilações no financiamento público, cortes orçamentários e perda de pesquisadores para o exterior.
Cooperação com a China pode acelerar a inovação brasileira
Ao defender maior aproximação com a experiência chinesa, Medronho também reforça a importância da cooperação internacional entre os dois países.
Brasil e China já mantêm uma das mais importantes parcerias científicas do hemisfério sul, envolvendo pesquisas em agricultura, saúde, energia, mudanças climáticas, nanotecnologia, inteligência artificial e exploração espacial.
O Programa CBERS (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres) permanece como um dos maiores exemplos dessa cooperação.
Desenvolvido conjuntamente pelos dois países, o projeto colocou Brasil e China entre as poucas nações capazes de desenvolver satélites próprios para monitoramento ambiental, agricultura, recursos naturais e planejamento territorial.
Para especialistas, esse tipo de parceria demonstra que relações internacionais podem ir além do comércio de commodities, permitindo transferência de conhecimento, desenvolvimento tecnológico e formação de recursos humanos altamente especializados.
Universidades precisam ocupar o centro do projeto nacional
Na avaliação do reitor, o Brasil precisa abandonar a visão segundo a qual universidades representam apenas centros de formação profissional.
As instituições de ensino superior são responsáveis por produzir inovação, desenvolver tecnologias estratégicas, formar pesquisadores e criar soluções capazes de impulsionar a indústria nacional.
Essa capacidade torna-se ainda mais relevante diante da revolução tecnológica impulsionada pela inteligência artificial, pela economia digital e pela chamada Indústria 4.0.
Sem universidades fortes, afirma Medronho, o país dificilmente conseguirá competir nas cadeias globais de maior valor agregado.
Desenvolvimento exige planejamento de longo prazo
Outro ponto enfatizado pelo reitor é que inovação não surge de maneira espontânea.
Ela depende de continuidade institucional, financiamento estável e planejamento estratégico.
A experiência chinesa demonstra que resultados expressivos exigem décadas de investimentos coordenados, integração entre ciência e indústria e definição clara de prioridades nacionais.
Segundo essa visão, o Brasil precisa construir políticas permanentes capazes de sobreviver às mudanças de governo, transformando ciência e tecnologia em pilares estruturantes do desenvolvimento econômico.
O futuro será decidido pelo conhecimento
A disputa internacional já não ocorre apenas pelo controle de recursos naturais.
Ela acontece, sobretudo, pela capacidade de produzir conhecimento.
Quem dominar inteligência artificial, computação avançada, biotecnologia, novos materiais, energia limpa e sistemas digitais controlará grande parte da economia mundial nas próximas décadas.
Para Roberto Medronho, o Brasil possui todas as condições para participar dessa transformação.
Mas isso exige reconhecer que universidades, institutos de pesquisa e centros tecnológicos não representam despesas orçamentárias.
Representam investimentos estratégicos capazes de gerar empregos qualificados, fortalecer a indústria nacional, ampliar a competitividade internacional e consolidar a soberania científica do país.
Nesse cenário, aprofundar a cooperação tecnológica com países como a China deixa de ser apenas uma política externa e passa a integrar um projeto nacional de desenvolvimento baseado no conhecimento, na inovação e na construção de uma economia capaz de competir nas fronteiras tecnológicas do século XXI.

