Por Sara Goes
O resgate de uma mulher que trabalhou 55 anos sem salário e de 26 operários que usavam a camisa da seleção em um canteiro de obras expõe a permanência de relações de trabalho que o país aprendeu, com atraso, a chamar pelo nome
Uma mulher negra de 62 anos foi resgatada em junho de uma casa no Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza, depois de trabalhar durante 55 anos para três gerações de uma mesma família. Ela começou aos sete anos de idade. Nunca recebeu educação formal, não tinha conta bancária própria e, segundo a fiscalização, passou a vida sem salário regular e sem autonomia financeira. Seu benefício do Bolsa Família era controlado pela patroa, uma diretora de escola. O caso foi descoberto após uma denúncia anônima.
Seis integrantes da família são investigados. Entre eles estão pessoas com formação superior e vínculos profissionais que incluem a advocacia, a medicina veterinária e o serviço público, esta já exonerada. A trabalhadora vivia em um condomínio de luxo. Após o resgate, os investigados assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta para indenizar a vítima, enquanto a investigação prossegue. A família nega a acusação de trabalho análogo à escravidão.
O caso poderia ser lido apenas como crime. Seria pouco. Há nele uma forma antiga de organização da vida privada brasileira: a casa como lugar de mando, a infância pobre como reserva de serviço, a comida e o teto como moeda usada para substituir salário, a dependência como forma de disciplina. Uma menina entrou aos sete anos em uma relação doméstica de exploração e foi retirada dela aos 62. Nenhuma frase sobre “ajuda”, “criação” ou “gratidão” é capaz de limpar esse dado.
O caso fala sobre uma formação social marcada por mais de três séculos de escravidão legal e por um pós-abolição que recusou aos libertos políticas suficientes de terra, renda, educação e integração econômica. Fala também sobre relações domésticas nas quais meninas pobres, em grande proporção negras, foram retiradas de suas casas com a promessa de que teriam comida, moradia e estudo, enquanto passavam a cozinhar, lavar, limpar e cuidar dos filhos dos outros.
A família investigada no Eusébio não estava fora do mundo institucional. Havia diplomas, profissões reconhecidas, vínculos com o serviço público, endereço valorizado, condomínio de alto padrão. A escravidão contemporânea não aparece apenas na imagem atrasada que o país gosta de empurrar para longe de si. Ela também pode morar em casas com piscina e vocabulário educado. O dado que organiza todo o caso é simples: a trabalhadora começou aos sete anos. Sete anos.
Quando explorar uma criança era chamado de formar caráter
O trabalho infantil não sobreviveu no Brasil apenas porque famílias precisavam de renda. Ele também encontrou proteção numa pedagogia informal da desigualdade. Durante décadas, frases como “é melhor trabalhar do que ficar na rua” e “o trabalho forma o caráter” ofereceram uma justificativa moral para que a infância das crianças pobres fosse tratada de maneira diferente da infância das crianças das classes média e alta.
Um estudo de 2024 sobre o trabalho de crianças e adolescentes no semiárido nordestino identificou esse componente cultural. A pesquisa mostra como o trabalho foi idealizado como elemento essencial à formação da personalidade, levando famílias a inserir filhos precocemente em atividades produtivas, quase sempre em prejuízo da escolarização. O estudo também registra uma diferença de classe decisiva: enquanto famílias de renda média e alta investem em idiomas, esportes e formação complementar, crianças pobres são mais frequentemente submetidas à ideia de que trabalhar cedo constitui aprendizado para a vida.
A evolução dos dados revela a dimensão do problema. Segundo estudo do Ipea baseado na Pnad de 1998, aproximadamente 3,5 milhões de crianças e adolescentes exerciam atividades no mercado de trabalho, e cerca de 375 mil estavam no trabalho doméstico nas áreas urbanas analisadas. Entre crianças de 10 a 14 anos empregadas no serviço doméstico, 23% cumpriam jornadas superiores a 48 horas semanais. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, a proporção chegava a 30%. Esses números ajudam a compreender por que uma menina de sete anos pôde entrar numa casa e sair de lá aos 62. Ela não ingressou numa relação social desconhecida pelo país. Entrou por uma porta aberta havia muito tempo.
O trabalho infantil doméstico chegou a ser contemplado pelo próprio Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, cujo artigo 248 previa a regularização da guarda do adolescente empregado na prestação de serviços domésticos. O dispositivo é considerado tacitamente revogado desde 2008, quando o Brasil aprovou a lista das piores formas de trabalho infantil. A mudança jurídica revela quanto tempo foi necessário para que práticas antigas deixassem de receber tratamento ambíguo do próprio ordenamento legal.
Os dados sobre quem ocupava essas funções também são reveladores. Levantamentos sobre trabalho infantil doméstico indicavam que 94% das crianças e adolescentes nessa atividade eram meninas e 73,5% eram negras. A documentação disponível mostra ainda que a exploração doméstica infantil favorece jornadas prolongadas, abandono escolar e exposição a violências físicas e sexuais, agravadas pelo isolamento dentro das residências e pela dificuldade de fiscalização. Durante muito tempo, a frase “ela é quase da família” serviu para encobrir uma pergunta simples: se é da família, por que serve à mesa em vez de sentar-se nela? O “quase” sempre teve uma função precisa.
Quando o Estado começou a chamar as coisas pelo nome
O Brasil não eliminou o trabalho escravo contemporâneo nem o trabalho infantil. Os casos recentes demonstram isso sem margem para conforto. Mas seria historicamente errado ignorar a mudança ocorrida nas últimas décadas, especialmente a partir do primeiro governo do presidente Lula, iniciado em 2003.
O enfrentamento ao trabalho escravo ganhou outra dimensão institucional naquele período. A fiscalização foi fortalecida, o tema entrou de forma mais consistente na agenda pública e o Estado passou a combinar operações de resgate, responsabilização de empregadores e políticas sociais destinadas a reduzir a vulnerabilidade que empurrava adultos e crianças para relações de exploração.
Também houve uma transformação na maneira como o país passou a tratar o trabalho infantil. O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil foi articulado a políticas mais amplas de transferência de renda e permanência na escola. A expansão da proteção social, a valorização do salário mínimo, a ampliação do acesso à educação e as ações específicas de fiscalização modificaram concretamente as condições em que milhões de famílias tomavam decisões sobre o trabalho dos filhos.
Não se trata de atribuir a um governo a descoberta do problema. A Constituição de 1988, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a atuação de sindicatos, movimentos sociais, auditores fiscais, procuradores, organizações de direitos humanos e organismos internacionais construíram uma trajetória anterior e indispensável. O que ocorreu desde 2003 foi uma mudança de escala na ação pública e uma integração mais forte entre fiscalização e política social.
Essa mudança também produziu consequências culturais. O que antes podia aparecer no vocabulário familiar como “ajuda” passou a ser reconhecido como trabalho infantil. A menina “criada pela família” passou a ser identificada como trabalhadora privada de direitos. A comida e o quarto deixaram de ser argumentos aceitáveis para substituir salário. O trabalho precoce perdeu legitimidade como suposta escola de caráter.
Em 2025, a Auditoria Fiscal do Trabalho afastou 4.318 crianças e adolescentes de situações de exploração em 10.234 ações fiscais, o melhor resultado da década. Nos quatro primeiros meses de 2026, outras 1.108 crianças e adolescentes foram retirados dessas situações. Os números mostram a persistência do trabalho infantil e também a existência de um Estado que procura, investiga, fiscaliza e retira crianças da exploração.
Um dos confrontos mais importantes com essa herança ocorreu com a aprovação da chamada PEC das Domésticas. Promulgada em 2013, durante o governo de Dilma Rousseff, a Emenda Constitucional nº 72 ampliou aos trabalhadores domésticos direitos já assegurados aos demais trabalhadores urbanos e rurais. A regulamentação posterior, em 2015, tratou de direitos como FGTS obrigatório, adicional noturno, seguro-desemprego e proteção contra demissão sem justa causa. Parte do debate público foi ocupada por reclamações sobre o custo de manter uma empregada doméstica e previsões de desemprego em massa. O desconforto não vinha apenas de uma mudança na folha de pagamento. A nova legislação obrigava famílias de classe média e alta a reconhecer que aquela mulher que passava o dia dentro de suas casas era uma trabalhadora.
O caso do Eusébio torna essa história ainda mais perturbadora. A mulher resgatada começou a trabalhar aos sete anos, atravessou toda a redemocratização brasileira, viu a Constituição de 1988 ser promulgada, o Estatuto da Criança e do Adolescente entrar em vigor e a PEC das Domésticas ampliar direitos da categoria. Enquanto o país modificava suas leis, ela continuava dentro da mesma relação de dependência, servindo sucessivas gerações da mesma família.
A legislação não entrou naquela casa durante 55 anos. Quando finalmente entrou, encontrou uma menina de sete anos transformada em uma mulher de 62.
A família Brasil e a camisa do Brasil
Poucos dias antes da repercussão do caso do Eusébio, outra notícia vinda do Ceará ofereceu uma imagem difícil de ignorar. Uma operação resgatou 26 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em um canteiro de obras de um condomínio residencial em Aquiraz. A fiscalização começou em 23 de junho e foi concluída com o pagamento das vítimas. Alguns dos trabalhadores usavam cópias da camisa amarela da seleção brasileira, com a marca do empregador estampada.
As duas notícias pertencem ao mesmo estado e ao mesmo período. Numa, uma família real, com profissionais diplomados e servidores públicos entre os investigados, é acusada de manter uma mulher trabalhando por 55 anos sem salário. Noutra, trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão vestem a camisa do Brasil. A família e a camisa não são enfeites do texto. São os dois símbolos que os fatos colocaram diante de nós.
A família guarda dentro de casa a intimidade da relação escravista. A camisa cobre os corpos que trabalham na construção de um condomínio. No Eusébio, a exploração atravessou três gerações sob a linguagem doméstica do costume. Em Aquiraz, apareceu no canteiro de obras, vestida com o uniforme que pretende representar uma nação inteira.
A camisa da seleção ocupa um lugar particular nas disputas recentes sobre a ideia de Brasil. Foi apropriada por movimentos políticos, transformada em uniforme de manifestações e reivindicada como propriedade simbólica de uma parte do país. Em Aquiraz, ela apareceu cobrindo o corpo de trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão. Sobre o peito, a marca do empregador.
Homens trabalhavam na construção de um condomínio residencial usando cópias da camisa do Brasil. A imagem desloca a discussão sobre soberania para dentro do território nacional. Um país pode defender seus recursos naturais, sua indústria, sua tecnologia e sua autonomia diante de potências estrangeiras. Mas sua soberania permanece incompleta enquanto cidadãos brasileiros são encontrados em condições análogas à escravidão dentro das próprias fronteiras.
Que independência existe para quem não pode deixar um emprego porque a fome o espera do lado de fora? Que cidadania teve uma menina que começou a servir uma família aos sete anos e permaneceu ali por 55 anos? O que significa a camisa nacional sobre o corpo de um trabalhador submetido a condições que a legislação brasileira reconhece como incompatíveis com a liberdade?
O tempo do trabalhador continua em disputa
Existe uma distância jurídica e material que não pode ser apagada entre o trabalho análogo à escravidão e uma jornada de trabalho legal. Confundir essas situações seria impreciso. Ainda assim, a disputa sobre o fim da escala 6×1 pertence ao mesmo campo histórico de discussão sobre os limites que a sociedade impõe à apropriação do tempo de quem trabalha.
A proposta que acaba com a escala 6×1 e estabelece jornada máxima de 40 horas semanais, com dois dias de descanso para cada cinco trabalhados, foi aprovada em dois turnos pela Câmara dos Deputados em 27 de maio de 2026 e chegou ao Senado no dia seguinte.
Desde então, sua tramitação encontrou resistência. Em junho, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmou que a proposta não seguiria diretamente ao plenário e precisaria passar por novas discussões. No início de julho, parlamentares do PT ainda pressionavam para que a matéria fosse encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça antes do recesso.
O debate revela uma permanência incômoda na cultura brasileira do trabalho: o descanso ainda precisa ser defendido como direito. A redução da jornada enfrenta argumentos econômicos que acompanharam outras ampliações de direitos trabalhistas. A resistência aparece mesmo quando a proposta já foi aprovada por ampla maioria na Câmara e quando a reivindicação pelo fim da 6×1 alcançou forte presença no debate público.
A discussão não é abstrata para quem trabalha seis dias e descansa um. O tempo fora do emprego significa convivência com os filhos, estudo, participação política, cultura, lazer e a possibilidade elementar de não viver inteiramente submetido às necessidades do empregador.
Uma mulher trabalhou dos sete aos 62 anos servindo à mesma família. Operários vestindo a camisa da seleção foram resgatados de um canteiro de obras. Uma proposta para ampliar o descanso semanal precisa atravessar uma longa disputa no Congresso. São fatos distintos, com gravidades e enquadramentos jurídicos próprios, mas todos obrigam o país a discutir quem tem direito ao próprio tempo.
A família Brasil ainda é escravagista porque a abolição jurídica não dissolveu as relações sociais produzidas por séculos de escravidão. Elas foram adaptadas, escondidas em relações domésticas, preservadas em hierarquias raciais e de classe e defendidas por uma cultura que durante muito tempo ensinou crianças pobres a agradecer pela própria exploração.
A mudança ocorrida nas últimas décadas não autoriza complacência. Autoriza uma constatação concreta: o país passou a dispor de instrumentos públicos mais fortes para encontrar, interromper e punir práticas que antes atravessavam gerações sob proteção da normalidade. Desde 2003, os governos do PT contribuíram decisivamente para consolidar esse deslocamento, tanto por meio das políticas sociais que reduziram a dependência econômica das famílias quanto pelo fortalecimento das ações de combate ao trabalho escravo e infantil.
O escândalo de hoje contém uma informação sobre o presente e outra sobre o passado. Uma mulher trabalhar 55 anos sem salário é uma violência que exige responsabilização. O fato de isso ser hoje chamado de trabalho análogo à escravidão, investigado pelo Ministério Público do Trabalho, interrompido pela fiscalização e recebido com indignação pública mostra quanto precisou mudar para que a antiga regra deixasse de circular com a aparência de favor.
A menina de sete anos do Eusébio envelheceu dentro da casa dos outros e Brasil levou 55 anos para chegar até ela.





