Da Redação
A 18ª Cúpula de Líderes do BRICS acontece em Nova Delhi nos dias 12 e 13 de setembro sob uma pressão inédita. A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, a crise no Estreito de Hormuz, a alta do petróleo, as disputas internas entre Teerã e Abu Dhabi, a tensão entre Índia e China e a busca por sistemas financeiros menos dependentes do dólar transformam o encontro num teste concreto para a capacidade política do Sul Global.
O BRICS chega a Nova Delhi neste fim de semana muito maior do que aquele que se reuniu no Rio de Janeiro em 2025, mas também muito mais pressionado pelas contradições que acompanham sua expansão. A cúpula formal de líderes está marcada para os dias 12 e 13 de setembro, e desta vez o grupo terá de lidar não apenas com sua agenda tradicional de reforma da governança global, financiamento ao desenvolvimento, comércio em moedas nacionais e cooperação tecnológica, mas com uma guerra que envolve diretamente um de seus membros. O Irã integra o BRICS desde 2024 e hoje está no centro de um conflito prolongado contra Estados Unidos e Israel, enquanto os Emirados Árabes Unidos, outro integrante do bloco, romperam parte de suas relações econômicas com Teerã após serem atingidos por mísseis iranianos. O conflito já levou a uma virtual paralisação de parte do tráfego no Estreito de Hormuz, elevou o preço do petróleo para mais de US$ 100 por barril e transformou a questão energética numa das preocupações centrais do encontro.
A guerra no Irã será, inevitavelmente, o tema político mais delicado da reunião. O BRICS funciona por consenso e a dificuldade já apareceu em maio, quando os chanceleres do grupo não conseguiram produzir uma declaração conjunta por causa das divergências entre Teerã e Abu Dhabi. A expansão que deu ao bloco maior peso internacional também trouxe para dentro dele conflitos que antes estavam fora da sua estrutura. Egito e Etiópia possuem tensões próprias, Índia e China carregam uma relação estratégica marcada por rivalidade, Irã e Emirados estão agora em lados opostos de uma guerra regional e a Arábia Saudita mantém uma relação ainda ambígua com o agrupamento. A grande questão de Nova Delhi será saber se essa diversidade pode ser administrada politicamente ou se o crescimento do BRICS começou a ultrapassar sua capacidade institucional de construir posições comuns.
O contexto, porém, é mais complexo do que uma simples divisão entre países “pró-Ocidente” e “antiocidentais”. O BRICS nunca foi uma aliança militar nem uma organização ideológica. O que reúne seus membros é, sobretudo, a insatisfação com uma ordem internacional ainda concentrada nas instituições, moedas e estruturas políticas construídas pelas potências do Atlântico Norte. É por isso que países tão diferentes continuam dentro do mesmo fórum. Índia mantém uma relação estratégica com Washington, mas compra petróleo russo e se recusa a abandonar sua política de autonomia. Emirados são parceiros militares dos Estados Unidos, mas fazem parte do BRICS. Brasil mantém relações profundas com Europa e Estados Unidos, ao mesmo tempo que defende reforma do Conselho de Segurança, fortalecimento do Sul Global e ampliação da cooperação com China, Índia e África. A força do grupo está justamente nessa diversidade; sua fragilidade também.
A guerra do Irã tornará essa contradição impossível de esconder. A Rússia espera que os líderes consigam encontrar uma fórmula diplomática aceitável simultaneamente para Teerã e Abu Dhabi, permitindo uma declaração conjunta. O precedente mais recente veio da Organização para Cooperação de Xangai, cuja cúpula conseguiu aprovar uma posição contrária à campanha militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e às sanções ocidentais. Mas há uma diferença importante: os Emirados Árabes Unidos não fazem parte da organização. Em Nova Delhi, Teerã e Abu Dhabi estarão dentro da mesma estrutura decisória. Se o BRICS conseguir formular uma posição comum, será uma demonstração de que o bloco adquiriu capacidade diplomática para administrar conflitos entre seus próprios membros. Se fracassar, mostrará que sua expansão política avançou mais rapidamente do que os mecanismos necessários para sustentá-la.
Ao mesmo tempo, a cúpula deverá avançar numa agenda menos espetacular, mas talvez mais estrutural: a criação de mecanismos financeiros que reduzam a vulnerabilidade dos países do Sul Global às sanções, ao custo do dólar e à infraestrutura financeira controlada pelo Ocidente. A Índia quer colocar no centro das discussões uma proposta de conexão entre as moedas digitais emitidas pelos bancos centrais dos membros do BRICS. A ideia não é criar uma moeda única, muito menos substituir imediatamente o dólar, mas tornar pagamentos internacionais mais baratos, rápidos e menos dependentes de redes tradicionais de compensação. O projeto retoma uma discussão iniciada durante a presidência brasileira do grupo, quando a declaração do Rio defendeu maior interoperabilidade entre sistemas nacionais de pagamento.
É importante separar esse processo das fantasias recorrentes sobre uma suposta “moeda do BRICS”. Não existe hoje uma arquitetura política, fiscal ou monetária capaz de sustentar algo semelhante ao euro entre economias tão diferentes. Rússia, China, Índia, Brasil, África do Sul, Irã, Emirados, Egito, Etiópia e Indonésia possuem estruturas produtivas, regimes cambiais, sistemas financeiros e prioridades estratégicas muito distintas. O movimento real é outro: ampliar pagamentos em moedas nacionais, criar conexões entre sistemas digitais, desenvolver mecanismos de compensação e reduzir o risco de que uma sanção unilateral impeça países de realizar comércio legítimo. É um processo menos teatral, porém muito mais concreto.
Mesmo esse caminho enfrenta enormes dificuldades. Índia e China não confiam plenamente uma na outra em matéria financeira e tecnológica. Nova Delhi já bloqueou propostas de maior integração entre plataformas de pagamento indianas e empresas chinesas por razões de segurança nacional. Uma ligação entre moedas digitais também exigiria acordos de swap, mecanismos de proteção contra desequilíbrios comerciais e padrões comuns de segurança. As próprias tensões entre Irã e Emirados tornam ainda mais difícil imaginar um sistema integrado funcionando de maneira imediata. Por isso, o principal resultado da cúpula pode não ser a criação de uma nova plataforma, mas o estabelecimento de uma direção política: tornar o comércio do BRICS progressivamente menos dependente das infraestruturas financeiras cuja interrupção pode ser decidida unilateralmente por Washington ou Bruxelas.
Essa discussão ganhou relevância porque o uso do sistema financeiro internacional como instrumento de pressão deixou de ser exceção. Rússia, Irã e outros países sofreram sanções que limitaram acesso a bancos, redes de pagamento, seguros e ativos denominados em moedas ocidentais. Moscou, porém, procura evitar a ideia de uma cruzada contra o dólar. Nesta semana, o Kremlin afirmou que a Rússia não busca uma “desdolarização” absoluta, mas defende liberdade para utilizar diferentes formas de pagamento e rejeita o uso das moedas nacionais como instrumentos de coerção política. A distinção é importante. O objetivo de muitos membros do BRICS não é eliminar o dólar, mas evitar que a dependência dele funcione como um ponto único de vulnerabilidade estratégica.
A presença de Xi Jinping em Nova Delhi adiciona outro componente central à cúpula. Será sua primeira visita à Índia em sete anos e ocorre depois de um período de forte deterioração das relações entre Pequim e Nova Delhi. O confronto militar na fronteira do Himalaia em 2020 deixou mortos dos dois lados e produziu restrições a investimentos, empresas chinesas, vistos e cooperação tecnológica. Nos últimos meses, houve uma reaproximação diplomática, mas a desconfiança permanece. Empresas chinesas continuam enfrentando barreiras para investir na Índia, ao mesmo tempo que autoridades chinesas demonstram cautela em fornecer determinados equipamentos industriais e tecnologias estratégicas ao mercado indiano. A expectativa de uma conversa entre Xi e Narendra Modi é, portanto, uma das peças mais importantes da cúpula.
A relação sino-indiana é talvez a maior prova de que o BRICS não pode ser reduzido à ideia de um “bloco liderado pela China”. A Índia deseja uma ordem multipolar, mas não pretende trocar uma hegemonia norte-americana por uma hegemonia chinesa. Quer preservar sua própria capacidade de decisão, desenvolver indústria nacional, controlar infraestruturas estratégicas e manter relações simultâneas com Washington, Moscou e Pequim. Essa política de autonomia explica por que Nova Delhi participa do Quad com Estados Unidos, Japão e Austrália, compra grandes volumes de petróleo russo, mantém relações com o Irã e, ao mesmo tempo, sediará a principal reunião de um agrupamento frequentemente apresentado no Ocidente como rival estratégico da ordem liderada pelos Estados Unidos.
A Rússia chega à cúpula ocupando outro lugar importante. Vladimir Putin terá uma reunião bilateral com Modi antes da abertura formal do encontro, e comércio e energia estarão no centro das conversas. A Índia tornou-se um dos principais compradores do petróleo russo depois das sanções impostas a Moscou, reforçando uma relação que Washington tentou enfraquecer. Em um momento de alta dos preços provocada pela guerra no Golfo, a parceria energética russo-indiana se torna ainda mais estratégica. Para Nova Delhi, não se trata de escolher um lado, mas de garantir abastecimento, preços e margem de manobra. Essa lógica de autonomia estratégica talvez seja hoje a característica mais comum entre os principais integrantes do BRICS.
O Brasil chega a Nova Delhi carregando parte da agenda construída durante sua presidência do grupo em 2025. Brasília buscou ampliar a discussão sobre reforma das instituições multilaterais, financiamento ao desenvolvimento, inteligência artificial, mudança climática e infraestrutura financeira. Essa agenda permanece relevante porque o problema central do Sul Global não é apenas geopolítico. É material. Países periféricos continuam pagando juros mais altos, enfrentando dificuldades para financiar infraestrutura e industrialização e permanecem subordinados a cadeias tecnológicas e financeiras controladas por empresas e Estados do Norte. Se o BRICS quiser demonstrar utilidade histórica, terá de produzir instrumentos capazes de enfrentar essas assimetrias.
Nesse ponto, o Novo Banco de Desenvolvimento permanece fundamental. Criado para financiar infraestrutura e projetos de desenvolvimento, o NDB pode se tornar um dos principais mecanismos concretos de transformação do peso político do BRICS em capacidade econômica. A instituição já financia projetos em moedas locais e busca reduzir a exposição de países a riscos cambiais. O desafio agora é ganhar escala suficiente para representar uma alternativa real aos mecanismos tradicionais de financiamento internacional. O mundo vive um período de juros elevados, energia cara e aumento dos custos de investimento. Para países africanos, latino-americanos e asiáticos, a grande questão não é uma disputa abstrata entre “Ocidente” e “Oriente”, mas quem será capaz de financiar ferrovias, energia, saneamento, indústria, tecnologia e transição climática sem transformar dívida externa em instrumento permanente de dependência.
A inteligência artificial também deve aparecer com mais força. O BRICS já defendeu regras internacionais que impeçam a concentração absoluta de dados, modelos e infraestrutura digital nas mãos de poucas empresas. Esse debate ganhou dimensão estratégica porque chips avançados, centros de dados, serviços de nuvem e modelos fundacionais passaram a funcionar como infraestrutura de poder. Quem controla a computação controla uma parte crescente da economia, da informação e da capacidade militar. Para o Sul Global, soberania tecnológica significa não apenas possuir empresas nacionais, mas impedir que dados, redes públicas e capacidades decisórias fiquem completamente subordinados a infraestruturas externas.
A cúpula de Nova Delhi acontece, portanto, num ponto de transição. O BRICS já não pode ser tratado como uma curiosidade diplomática, mas também ainda não possui uma arquitetura institucional comparável à das organizações criadas pelo Ocidente no século XX. Não há mercado comum, defesa coletiva, moeda comum ou política externa unificada. Existem, porém, população, território, energia, recursos minerais, capacidade industrial, mercados consumidores e algumas das maiores economias do planeta. O problema é transformar esse peso material em coordenação política.
Esse é o verdadeiro teste dos próximos dois dias. A guerra contra o Irã mostrará se o grupo consegue administrar divergências sem se desintegrar. A discussão financeira revelará até onde seus integrantes estão dispostos a construir mecanismos próprios. As conversas entre Índia e China dirão se duas das maiores potências do mundo conseguem reduzir rivalidades em nome de interesses comuns. O Novo Banco de Desenvolvimento mostrará se a multipolaridade pode produzir crédito e infraestrutura, e não apenas discursos. E o papel do Brasil, da África do Sul e de outros países dirá se o BRICS será capaz de evitar que a multipolaridade se transforme simplesmente numa nova disputa entre grandes potências.
Para o Sul Global, essa talvez seja a dimensão decisiva. A questão nunca foi substituir Washington por Pequim ou Moscou, mas aumentar a capacidade dos países periféricos de decidir seu próprio desenvolvimento. Uma ordem verdadeiramente multipolar só terá valor histórico se ampliar soberania, reduzir dependência financeira, permitir industrialização, democratizar tecnologia e oferecer maior poder de negociação aos países que durante décadas ocuparam a periferia do sistema internacional.
É por isso que a reunião de Nova Delhi é importante. O BRICS cresceu, incorporou novos membros e tornou-se inevitavelmente mais contraditório. Agora precisa provar que tamanho pode se transformar em capacidade política. A guerra no Irã, a crise de Hormuz, as sanções, a disputa financeira, a rivalidade sino-indiana e a reorganização das cadeias globais colocaram diante do grupo uma oportunidade e um risco. Se conseguir produzir instrumentos comuns apesar de suas diferenças, poderá consolidar-se como um dos centros da ordem internacional que está emergindo. Se ficar limitado a declarações gerais, continuará sendo uma expressão poderosa da transformação do mundo, mas não necessariamente uma instituição capaz de conduzi-la.
A cúpula deste fim de semana não decidirá o destino do sistema internacional. Mas poderá indicar algo igualmente importante: se o Sul Global está conseguindo passar da contestação da velha ordem para a construção concreta de mecanismos próprios de poder, financiamento, tecnologia e diplomacia.





