“Cada coisa que você deixar de comprar de mim, eu vou vender para outro”, diz Lula a Trump

Presidente critica Marco Rubio, contesta justificativas dos EUA para novas tarifas e afirma que riquezas minerais brasileiras devem gerar recursos para beneficiar a população

Da Redação

O Presidente Lula afirmou que o Brasil não ficará dependente do mercado norte-americano diante das novas tarifas impostas pelo governo de Donald Trump e disse que produtos que deixarem de ser comprados pelos Estados Unidos serão direcionados para outros países. Em um discurso marcado por críticas à condução das negociações por Washington, Lula também acusou o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, de atuar contra o Brasil e outros países latino-americanos.

As declarações foram feitas durante visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos, em cerimônia transmitida nesta sexta-feira (7). Ao comentar as negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, Lula relatou conversas anteriores com Trump, abordou a exploração de terras raras e minerais críticos e contestou os argumentos utilizados pelo governo norte-americano para ampliar as tarifas sobre produtos brasileiros.

“Eu disse pro Trump: ‘Olha, presidente, a gente não tem preferência para vender para ninguém. A gente só quer vender para quem quiser comprar. E cada coisa que você deixar de comprar de mim, eu vou vender para outro. Eu não vou ficar chorando’”, afirmou.

Lula associou essa posição à estratégia brasileira de diversificação dos destinos das exportações. Segundo ele, desde o início de seu atual governo foram abertos 663 novos mercados para produtos brasileiros.

Para explicar sua posição, o presidente recordou o período em que trabalhou vendendo produtos ainda jovem.

“Eu já vendi tapioca, eu já vendi amendoim, já vendi pamonha, já vendi laranja, já vendi sardinha. Quando eu chegava na porta de uma casa e a mulher não queria comprar meu produto, eu ia pra outra”, declarou.

Minerais estratégicos e fundo para a população

Antes de abordar diretamente o tarifaço, Lula relatou que também apresentou a Trump a posição brasileira sobre minerais críticos e terras raras. O presidente afirmou que o país está aberto à participação de empresas norte-americanas e de outras nacionalidades, desde que os investimentos incluam produção no Brasil, agregação de valor e transferência de tecnologia.

“O Brasil não tem veto aos Estados Unidos. O Brasil não tem preferência pela China. O Brasil não tem preferência pela França. O Brasil quer trabalhar com todos em condições de igualdade”, disse.

Lula afirmou que investidores estrangeiros serão bem recebidos caso estejam dispostos a instalar atividades produtivas no território nacional.

“Quem quiser vir fazer investimento no Brasil, fazer fábrica no Brasil, explorar, transformar e trazer tecnologia, eu e o Alckmin vamos no aeroporto para receber de braços abertos”, declarou.

O presidente rejeitou, porém, a possibilidade de que o país se limite à exportação de matéria-prima. Segundo ele, parte da riqueza gerada pela exploração dos minerais estratégicos deveria ser direcionada para um fundo voltado à população brasileira.

“O que nós não queremos é que o Brasil vire um mero exportador de uma riqueza que não é nossa, é do povo”, afirmou.

“Então nós temos que aproveitar essa riqueza para a gente criar um fundo para deixar pro povo. Cuidar do povo pobre que nem sabe o que é isso, mas ele tem direito porque é dele”, acrescentou.

A discussão sobre minerais críticos ganhou importância nas relações comerciais internacionais pela utilização desses elementos em setores como energia, eletrônica, defesa e tecnologias avançadas. Lula deixou claro no discurso que o governo pretende negociar acesso às reservas brasileiras sem conceder exclusividade a uma potência estrangeira.

Lula acusa Marco Rubio de atuar contra o Brasil

Ao reconstruir as negociações com os Estados Unidos, Lula afirmou que houve sucessivas reuniões entre autoridades dos dois governos após suas conversas com Trump. Segundo o presidente, representantes brasileiros estiveram diversas vezes em contato com a área comercial norte-americana.

Foi nesse contexto que Lula dirigiu uma das críticas mais duras do discurso ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.

“Ele tem um cidadão que não gosta do Brasil, que não gosta da América Latina e que é um bolsonarista, que é o secretário de Estado, que é o Marco Rubio”, afirmou.

Lula disse ter levado essa avaliação diretamente a Donald Trump.

“Eu disse pro Trump: ‘Esse moço não gosta do Brasil, não gosta’”, relatou.

Na sequência, o Presidente Lula classificou Rubio como “anti-latino-americano” e relacionou sua posição política à história familiar cubana do secretário de Estado.

“Ele odeia Cuba, odeia Colômbia, odeia o Brasil. E ele faz as coisas diferente daquilo que a gente conversa com Trump”, afirmou.

As declarações representam um novo aumento de temperatura na relação entre Lula e um dos principais integrantes do governo norte-americano. Marco Rubio já havia sido designado por Trump para participar das discussões relacionadas às tarifas e às relações com o Brasil.

Nova tarifa surpreendeu Lula

O Presidente Lula afirmou que continuava aguardando o resultado das conversas quando soube pela imprensa que Washington adotaria uma nova medida tarifária contra produtos brasileiros.

“Eu tô tranquilo e vejo nos jornais que os Estados Unidos iriam fazer uma nova tarifa contra o Brasil. E aí eu fiquei esperando. Não teve telefonema, mas veio pela imprensa, como sempre”, disse.

O governo Trump anunciou em julho uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros, utilizando a legislação comercial norte-americana conhecida como Seção 301. Entre os argumentos apresentados por Washington estavam questionamentos sobre práticas comerciais brasileiras e sobre o combate ao desmatamento.

Lula afirmou que foi precisamente essa justificativa que mais o incomodou.

“O que me deixou estarrecido é que o argumento da nossa tarifa não é verdadeiro”, declarou.

O presidente relatou que os Estados Unidos apontaram problemas ambientais no Brasil e também questionaram a compra brasileira de produtos provenientes de países acusados de utilizar trabalho em condições degradantes.

Para Lula, Washington tenta responsabilizar o Brasil por políticas internas de outros países.

“Eu não tenho capacidade de interferência em outro país. Eu não sou ministro do Trabalho de outro país. Eu não sou delegado de polícia de outro país. Eu não sou fiscal de trabalho”, afirmou.

“Com mentira ninguém vai ganhar do Brasil”

A partir daí, Lula transformou a divulgação dos dados do INPE em uma resposta direta às acusações norte-americanas.

“Com mentira ninguém vai ganhar do Brasil, ninguém”, afirmou.

Durante a cerimônia, o instituto apresentou números mostrando redução do desmatamento no país. O levantamento do Prodes apontou queda de 20% no conjunto dos biomas brasileiros na comparação com o período anterior. Na Amazônia, o sistema Deter registrou redução de 36,9% nos alertas entre agosto de 2025 e julho de 2026.

Lula afirmou que os resultados contradizem a tentativa de apresentar o Brasil como um país que não combate a destruição ambiental.

“Eu duvido que nesse mundo tenha alguém que leve mais a sério, nesse momento histórico da humanidade, a questão climática como nós aqui no Brasil”, declarou.

O presidente também reagiu às acusações relacionadas ao trabalho infantil e afirmou que o país possui reconhecimento internacional por suas políticas na área.

“Eles contam uma mentira tentando criar uma imagem negativa do Brasil. Eu não posso admitir que, ao escapar da fome na cidade que eu nasci, sobreviver e chegar aos 80 anos, permitir que alguém minta a respeito do meu país e a respeito do que eu faço”, disse.

Gráficos do INPE serão enviados aos Estados Unidos

Lula explicou que a própria decisão de comparecer ao INPE estava relacionada à necessidade de confrontar as acusações norte-americanas com informações produzidas por uma instituição científica brasileira.

“Por isso que eu vim aqui. Eu vim aqui para mostrar: ninguém, nem os Estados Unidos, leva a sério a questão climática como leva o Brasil”, afirmou.

Em outro momento, o presidente pediu que fossem exibidos os gráficos sobre a redução do desmatamento e brincou que queria registrar as imagens para encaminhá-las ao presidente norte-americano.

“Eu quero tirar uma fotografia para mandar pro Trump”, disse.

Lula afirmou ainda que pretende incorporar os dados do instituto à comunicação oficial brasileira com Washington.

“Cada correspondência que a gente mandar pros Estados Unidos, a gente manda os dados do INPE”, anunciou.

Para o presidente, a resposta brasileira às pressões comerciais passa pela demonstração de resultados ambientais, pela abertura de novos mercados e pela defesa de que recursos estratégicos encontrados no território nacional sejam utilizados para promover desenvolvimento interno.

O discurso também deixou explícita a disposição de manter a negociação com Washington. Lula não apresentou os Estados Unidos como um mercado a ser abandonado. Ao contrário, reiterou que empresas norte-americanas continuam convidadas a investir no Brasil. A condição colocada pelo presidente é que essa relação ocorra sem exclusividade e sem transformar o país apenas em fornecedor de matérias-primas.

“Todo mundo que quiser será nosso convidado”, afirmou Lula.