Atitude Popular

Capitã Cloroquina tenta voltar ao centro do debate político no Ceará

Ex-secretária de Bolsonaro volta a atacar adversários nas redes sociais, mas vê seu histórico na pandemia retornar ao debate público

Da Redação

A ex-deputada federal Mayra Pinheiro (PL) publicou nesta semana, em suas redes sociais, um vídeo criticando ações do Governo do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza relacionadas à recuperação de vias urbanas. Na gravação, a médica questiona obras executadas pelas duas administrações e direciona críticas ao grupo político liderado pelo governador Elmano de Freitas e pelo prefeito Evandro Leitão.

A publicação rapidamente provocou reação da vice-governadora Jade Romero (PT), que respondeu por meio de um vídeo divulgado em suas próprias redes sociais. Na gravação, Jade defendeu as ações do Governo do Estado e da Prefeitura de Fortaleza, destacou investimentos em recuperação viária e questionou o legado político da ex-secretária do Ministério da Saúde.

“Tu já tentou mostrar alguma contribuição que você já fez pelo Estado do Ceará?”, perguntou a vice-governadora.

Jade também relembrou a atuação de Mayra durante a pandemia de Covid-19 e afirmou que a ex-parlamentar não possui serviços prestados comparáveis aos realizados pelas atuais gestões estadual e municipal.

O episódio ocorre em meio às movimentações políticas que antecedem as eleições de 2026. Embora ainda não haja definições formais sobre candidaturas, Mayra Pinheiro vem tentando ampliar sua presença nas redes sociais e retomar espaço no debate político estadual após um longo período de baixa visibilidade.

Uma tentativa de reconstrução política

A ofensiva contra o Governo do Ceará acontece em um contexto particular da trajetória recente de Mayra Pinheiro.

Depois da derrota eleitoral de 2022, a ex-deputada desapareceu em grande medida do centro das discussões políticas estaduais. Sua aparição pública de maior repercussão ocorreu durante a campanha municipal de Fortaleza, quando o deputado federal André Fernandes anunciou que ela seria secretária de Saúde caso fosse eleito prefeito.

Derrotado o projeto bolsonarista na capital cearense, Mayra voltou a ocupar posição secundária no debate público. O vídeo divulgado nesta semana pode ser interpretado como mais uma tentativa de reconstrução de capital político para o próximo ciclo eleitoral.

O problema para a ex-parlamentar é que sua trajetória recente está inseparavelmente ligada a um dos períodos mais traumáticos da história brasileira.

O peso do apelido Capitã Cloroquina

Poucos nomes ficaram tão associados ao negacionismo científico durante a pandemia quanto o de Mayra Pinheiro.

No Ministério da Saúde do governo Bolsonaro, ela se transformou em uma das principais defensoras do chamado tratamento precoce, estratégia baseada na utilização de medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina contra a Covid-19, apesar da ausência de comprovação científica de eficácia.

A atuação lhe rendeu nacionalmente o apelido de “Capitã Cloroquina”, expressão que acabou se tornando sua principal marca política.

Enquanto instituições científicas brasileiras e internacionais acumulavam evidências sobre a ineficácia desses medicamentos, Mayra permaneceu entre as vozes mais influentes na defesa da política adotada pelo governo Bolsonaro.

Manaus e a tragédia da pandemia

A imagem da ex-secretária também ficou associada ao período do colapso sanitário de Manaus, em janeiro de 2021.

Naquele momento, hospitais ficaram sem oxigênio, pacientes morreram asfixiados e o Ministério da Saúde foi acusado de insistir na promoção do tratamento precoce em vez de concentrar esforços nas medidas respaldadas pela ciência.

A crise amazonense se tornou um dos símbolos mais dramáticos da condução federal da pandemia e permaneceu no centro das investigações realizadas posteriormente pelo Senado.

A CPI da Covid

Mayra Pinheiro foi uma das personagens mais conhecidas da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid.

Durante seu depoimento, defendeu a atuação do Ministério da Saúde e reiterou argumentos favoráveis ao uso da cloroquina e de medicamentos integrantes do chamado kit Covid.

Ao final dos trabalhos, a CPI concluiu que o governo Bolsonaro promoveu deliberadamente o tratamento precoce mesmo sem respaldo científico. Embora as consequências judiciais tenham seguido caminhos distintos para cada investigado, o desgaste político de vários integrantes da gestão permaneceu.

Mayra foi uma das figuras mais identificadas com essa estratégia.

Um passado que não desaparece

Mais de 700 mil brasileiros morreram em decorrência da Covid-19. A dimensão da tragédia faz com que a memória daquele período continue presente no debate público.

Por essa razão, sempre que Mayra Pinheiro busca retomar protagonismo político, a discussão rapidamente ultrapassa os limites das disputas cotidianas e retorna à sua atuação durante a pandemia.

O vídeo publicado nesta semana tinha como alvo o Governo do Ceará e a Prefeitura de Fortaleza. A reação, porém, recolocou em evidência uma questão que acompanha a ex-deputada desde o fim da emergência sanitária: qual foi, afinal, o legado deixado por uma das principais defensoras da cloroquina durante a maior crise de saúde pública da história do país?

Até hoje, o apelido de Capitã Cloroquina continua sendo mais conhecido do que qualquer realização administrativa que Mayra Pinheiro apresente como legado político.

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