Documento aprovado no 1º Encontro Nacional do segmento reforça defesa do Estado laico, critica o uso eleitoral da religião e associa políticas sociais aos valores do cristianismo
Brasília — O Partido dos Trabalhadores (PT) deu mais um passo na estratégia de ampliar o diálogo com o eleitorado religioso ao divulgar, nesta quarta-feira (1º), uma carta elaborada por participantes do 1º Encontro Nacional de Católicas e Católicos do PT. O documento manifesta apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2026, reafirma o compromisso com a democracia, a justiça social e o Estado laico e critica a utilização de igrejas como instrumentos de disputa político-eleitoral.
A iniciativa ocorre poucas semanas depois da realização do 4º Encontro Nacional de Evangélicos e Evangélicas do PT, evidenciando uma estratégia mais ampla da legenda para fortalecer sua presença entre diferentes segmentos cristãos. Em ambos os casos, a direção partidária busca reconstruir pontes históricas com grupos religiosos que tiveram papel relevante na formação do partido e que, nas últimas eleições, passaram a representar um dos principais campos de disputa política do país.
Reconstrução de uma relação histórica
A aproximação entre o PT e setores progressistas da Igreja Católica não é uma novidade. A própria origem da legenda, no início da década de 1980, está profundamente ligada às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), à Teologia da Libertação e à atuação de movimentos pastorais comprometidos com a organização popular, os direitos humanos e a justiça social.
Nas últimas duas décadas, entretanto, o cenário religioso brasileiro sofreu profundas transformações. O crescimento das igrejas evangélicas, a reorganização política de setores conservadores e a crescente utilização das redes sociais para mobilização religiosa alteraram significativamente o ambiente eleitoral. Paralelamente, parte do eleitorado católico também passou a ser alvo de disputas narrativas envolvendo temas morais, costumes e identidade religiosa.
É nesse contexto que o PT procura reafirmar sua identidade histórica junto ao catolicismo social, defendendo que sua atuação política está alinhada a princípios como solidariedade, combate à pobreza, dignidade humana e promoção do bem comum.
Estado laico e críticas ao uso político da religião
Um dos principais eixos do documento é a defesa do Estado laico como garantia da liberdade religiosa e da convivência democrática.
A carta afirma que a fé não deve ser utilizada como instrumento de manipulação eleitoral e critica parlamentares que transformam espaços religiosos em palanques políticos, defendendo que representantes públicos devem priorizar os interesses da população e a proteção dos direitos sociais.
Também são destacados o respeito às diferentes tradições religiosas, à liberdade de consciência e à convivência plural, reafirmando que a diversidade de crenças constitui um elemento fundamental da democracia brasileira.
Políticas sociais como expressão do compromisso cristão
Outro ponto central do documento é a associação entre valores cristãos e políticas públicas implementadas pelo governo Lula.
Os participantes citam programas como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Farmácia Popular, Brasil Sorridente, fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), Cozinhas Solidárias, Pé-de-Meia, valorização do salário mínimo e ações de combate à fome como exemplos de iniciativas voltadas à promoção da dignidade humana e da redução das desigualdades sociais.
A carta também manifesta apoio a propostas defendidas por movimentos sociais e por setores da esquerda, como o fim da escala de trabalho 6×1 e a ampliação de políticas de mobilidade urbana, entendidas como medidas voltadas à melhoria das condições de vida da população trabalhadora.
Estratégia eleitoral para 2026
Embora o documento seja apresentado como uma manifestação política dos participantes do encontro, sua divulgação ocorre em um momento de intensificação das articulações para a campanha presidencial de 2026.
Segundo dirigentes do partido, o objetivo é fortalecer o diálogo com segmentos religiosos sem concentrar o debate em temas de costumes, privilegiando pautas relacionadas à democracia, combate à pobreza, soberania nacional, trabalho, direitos sociais e desenvolvimento econômico.
Nesse contexto, questões tradicionalmente polarizadoras, como o aborto, ficaram deliberadamente fora da carta. Coordenadores do Setorial Inter-religioso do PT afirmaram que o foco do encontro foi construir uma agenda voltada à defesa da vida em sentido amplo e ao enfrentamento das desigualdades sociais.
Um campo decisivo da disputa política
Pesquisas eleitorais recentes indicam que o eleitorado religioso continuará sendo um dos principais espaços de disputa nas eleições de 2026. Embora Lula mantenha vantagem entre os católicos em diversos levantamentos, o avanço do conservadorismo religioso nos últimos anos levou os partidos a ampliar sua presença nesse segmento.
Nesse cenário, o PT procura recuperar vínculos históricos com organizações católicas progressistas e reafirmar que valores como solidariedade, justiça social, combate à fome e defesa dos direitos humanos podem dialogar diretamente com a tradição da doutrina social da Igreja.
Ao divulgar a carta, o partido sinaliza que pretende disputar não apenas votos, mas também narrativas sobre o papel da religião na vida pública brasileira. A estratégia busca apresentar um discurso em que democracia, participação popular, desenvolvimento social e liberdade religiosa aparecem como dimensões complementares de um mesmo projeto político, enquanto procura neutralizar acusações recorrentes da oposição sobre uma suposta incompatibilidade entre o partido e os valores cristãos.


