Da Redação
O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, avalia que a América Latina atravessa um período de avanço significativo das forças conservadoras e de direita, mas considera que o Brasil mantém capacidade política, institucional e social para resistir a essa onda e continuar exercendo papel estratégico na defesa da democracia, da integração regional e da soberania dos países do Sul Global.
A análise ocorre em um contexto marcado pela ascensão de governos conservadores em diferentes países latino-americanos, pelo fortalecimento de correntes ultraliberais e pelo aumento das disputas geopolíticas envolvendo Estados Unidos, China e os países emergentes. Segundo Amorim, embora o cenário regional tenha se tornado mais adverso para projetos de integração soberana, o Brasil continua reunindo condições para desempenhar um papel estabilizador no continente.
Nos últimos anos, a América Latina assistiu a mudanças profundas em seu mapa político. Governos progressistas perderam espaço em alguns países, enquanto setores alinhados a agendas econômicas neoliberais e a políticas de maior aproximação com Washington ampliaram sua influência. O resultado foi um enfraquecimento de mecanismos de cooperação regional construídos ao longo das últimas décadas.
Para Amorim, essa fragmentação representa um dos maiores desafios estratégicos do continente. Em declarações recentes, o diplomata afirmou que nunca havia visto uma América do Sul tão desarticulada desde o processo de redemocratização da região. Segundo ele, a falta de coordenação entre os países reduz a capacidade coletiva de enfrentar crises econômicas, disputas comerciais e pressões externas.
A preocupação do assessor presidencial vai além das disputas eleitorais. Em sua avaliação, o avanço da direita ocorre simultaneamente a uma crescente disputa internacional por recursos estratégicos, mercados consumidores, infraestrutura digital e influência política sobre os países do Sul Global.
Nesse contexto, o Brasil aparece como peça central. Maior economia da América Latina, integrante dos BRICS e liderança tradicional da diplomacia regional, o país passou a exercer papel relevante na defesa de uma ordem internacional multipolar, baseada na cooperação entre Estados soberanos e na ampliação da participação dos países em desenvolvimento nos espaços de decisão global.
Amorim tem defendido que a soberania não pode ser compreendida apenas em termos militares. Para ele, a autonomia tecnológica, a capacidade industrial, a integração regional e o fortalecimento das instituições democráticas são componentes fundamentais da segurança nacional.
Recentemente, ao comentar posições adotadas pelos Estados Unidos em relação à América Latina, o diplomata alertou para o risco de justificativas externas serem utilizadas para ampliar formas de intervenção sobre países da região. Em resposta à classificação de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas por parte do governo norte-americano, Amorim afirmou que o combate ao crime exige cooperação internacional, mas não pode servir de pretexto para interferências na soberania nacional.
A posição reflete uma preocupação histórica da diplomacia brasileira. Ao longo do século XX e do início do século XXI, diversos países latino-americanos enfrentaram intervenções diretas ou indiretas associadas a disputas geopolíticas mais amplas. Para setores da política externa brasileira, a preservação da autonomia regional continua sendo uma condição essencial para o desenvolvimento econômico e social do continente.
O assessor de Lula também tem defendido o fortalecimento das alianças Sul-Sul como forma de reduzir dependências históricas. Em diferentes ocasiões, destacou a importância dos BRICS, da cooperação com países africanos e asiáticos e da reconstrução de mecanismos de integração latino-americana capazes de ampliar o poder de negociação da região diante das grandes potências globais.
Apesar do cenário adverso, Amorim considera que o Brasil possui fatores que ajudam a explicar sua capacidade de resistência. Entre eles estão a força das instituições democráticas, a presença de movimentos sociais organizados, a tradição diplomática do país e a capacidade do governo Lula de construir pontes entre diferentes setores da sociedade.
Na avaliação do diplomata, o país continua sendo uma das principais referências regionais para aqueles que defendem modelos de desenvolvimento baseados na inclusão social, na cooperação internacional e na soberania nacional.
Para observadores da política latino-americana, a disputa em curso vai muito além da alternância entre governos de esquerda e direita. Trata-se de uma disputa sobre o lugar que a região ocupará na nova configuração geopolítica global, marcada pela emergência de um mundo multipolar e pela crescente competição entre grandes centros de poder.
Nesse cenário, a capacidade do Brasil de articular alianças regionais, defender sua autonomia estratégica e fortalecer a integração sul-americana poderá ser determinante não apenas para o futuro do país, mas também para os rumos da América Latina nas próximas décadas.


