Assessor especial de Lula afirma que disputa entre Estados Unidos e China, minerais críticos, inteligência artificial, defesa e controle sobre recursos estratégicos colocam o Brasil no centro de uma batalha internacional por influência. Diplomata vê risco de pressões externas sobre a eleição, mas autoridades brasileiras ainda não comprovaram interferência estrangeira no pleito
Da Redação
A eleição presidencial brasileira de 2026 ocorre num cenário internacional em que o voto de outubro se cruza com uma disputa muito maior pelo lugar que o Brasil ocupará na reorganização do poder mundial. Foi a partir dessa perspectiva que o embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais e ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa, fez neste fim de semana um dos alertas mais contundentes do governo sobre a atuação dos Estados Unidos na América Latina. Em entrevista ao Tutaméia, Amorim afirmou que Washington busca recuperar influência sobre o continente e que o Brasil, por sua dimensão territorial, econômica, ambiental e tecnológica, ocupa uma posição especialmente sensível nessa estratégia.
Para Amorim, a questão não se resume à possibilidade de alguma potência estrangeira tentar atuar diretamente sobre o processo eleitoral. A pressão externa, segundo ele, pode assumir formas muito mais amplas: medidas econômicas, sanções, tarifas, atuação diplomática, disputa tecnológica, influência sobre setores políticos internos e tentativas de condicionar decisões estratégicas do Estado brasileiro. O embaixador argumenta que, num mundo marcado pela competição entre Estados Unidos e China, preservar a soberania significa impedir que o país se torne dependente de uma única potência e manter liberdade para estabelecer relações econômicas, científicas, militares e diplomáticas com diferentes parceiros.
A advertência ocorre no momento em que o segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro também expõe visões distintas sobre a inserção internacional do Brasil. Lula construiu seu atual mandato em torno da retomada do BRICS, da aproximação com países do Sul Global, da expansão das relações com China, Índia, África e Oriente Médio e da tentativa de manter simultaneamente canais com Estados Unidos e União Europeia. Flávio, por sua vez, defende uma aproximação mais intensa com Washington, embora tenha moderado durante a campanha declarações anteriores sobre uma possível revisão da participação brasileira no BRICS e passado a enfatizar a necessidade de preservar relações comerciais com diferentes países.
Amorim considera que essa diferença transcende uma disputa diplomática tradicional. Para ele, o que está em jogo é a capacidade do Estado brasileiro de definir sozinho o destino de setores que se tornaram essenciais à economia e à segurança mundial.
Minerais, inteligência artificial e defesa entram no centro da disputa
Entre os exemplos utilizados pelo ex-chanceler estão os minerais críticos. Lítio, terras raras, nióbio, grafite, níquel e outros recursos passaram a ocupar lugar central na competição global porque são indispensáveis para baterias, sistemas eletrônicos, energia renovável, equipamentos militares, semicondutores e diferentes tecnologias associadas à inteligência artificial. Brasil e outros países da América Latina possuem reservas expressivas de parte desses materiais, justamente quando Estados Unidos, China e União Europeia procuram reduzir vulnerabilidades em suas cadeias de abastecimento.
Amorim defende que o Brasil receba investimento estrangeiro e mantenha comércio internacional, mas sustenta que exploração mineral e transferência tecnológica precisam obedecer a uma estratégia nacional. Em sua avaliação, simplesmente exportar matérias-primas sem controlar processamento, tecnologia e utilização dos recursos reproduziria uma posição histórica de dependência. Ele comparou o debate atual sobre minerais estratégicos à discussão que cercou a criação das estruturas nacionais do petróleo, quando setores do país defendiam que a exploração fosse deixada fundamentalmente sob controle externo.
A mesma preocupação aparece em relação à inteligência artificial. Para o diplomata, não basta que empresas e governos brasileiros adquiram tecnologias desenvolvidas no exterior. O país precisa ter capacidade para compreender sistemas, adaptá-los, estabelecer regras próprias e desenvolver conhecimento interno. É nesse contexto que Amorim também defende padrões tecnológicos abertos e maior autonomia na infraestrutura digital, uma discussão que ganha relevância à medida que empresas norte-americanas e chinesas concentram parcelas crescentes dos sistemas utilizados por governos, empresas e cidadãos.
Na área militar, Amorim voltou a defender programas de longo prazo capazes de produzir conhecimento dentro do Brasil. Mencionou o projeto do submarino de propulsão nuclear, os caças Gripen e o desenvolvimento de tecnologias como drones e sistemas próprios de defesa. Sua argumentação é que esse investimento não deve ser compreendido apenas como despesa militar, porque envolve engenharia, indústria, pesquisa científica, formação profissional e empregos de alta qualificação.
A escolha do Gripen aparece para ele como exemplo de uma política de defesa orientada pela autonomia. Durante o processo de aquisição, o Brasil buscou não apenas comprar aeronaves prontas, mas participar do desenvolvimento, receber tecnologia e manter capacidade para integrar equipamentos nacionais. A lógica, segundo Amorim, deveria orientar também outras áreas estratégicas: comprar e cooperar internacionalmente sem abrir mão da capacidade brasileira de decidir como a tecnologia será utilizada.
Amorim recupera história das relações com Washington
Ao falar das pressões norte-americanas, o ex-chanceler recorreu também à história. Lembrou o papel do embaixador Lincoln Gordon e do governo dos Estados Unidos no contexto do golpe de 1964 e mencionou os preparativos da chamada Operação Brother Sam, montada por Washington para apoiar os golpistas caso houvesse resistência significativa à derrubada de João Goulart. Amorim ressaltou que mesmo durante a ditadura militar existiram momentos em que governos brasileiros entraram em conflito com posições norte-americanas sobre temas como programa nuclear, extensão do mar territorial, relações com a China e reconhecimento da independência de Angola.
O objetivo da comparação, segundo ele, não é relativizar a ditadura ou defender os governos militares. Amorim, que teve sua própria trajetória atingida pela repressão política daquele período, utiliza o exemplo para sustentar que a relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos jamais foi completamente linear. Mesmo governos politicamente próximos de Washington, argumenta, acabaram em determinados momentos defendendo interesses nacionais que contrariavam a potência norte-americana.
É nesse ponto que ele manifesta preocupação com setores da direita brasileira atual. Na avaliação de Amorim, algumas propostas e declarações ligadas ao bolsonarismo revelariam disposição inédita para aceitar tutela externa sobre temas nacionais. O diplomata relaciona essa preocupação a minerais estratégicos, cooperação de segurança, inteligência artificial e política para o continente.
Essa interpretação é contestada pelo campo de Flávio Bolsonaro, que apresenta a aproximação com os Estados Unidos como uma parceria entre aliados e não como submissão. O candidato defende ampliar cooperação econômica, tecnológica e de segurança com Washington e afirma que isso não impediria o Brasil de manter comércio com China ou outros parceiros. A campanha também sustenta que relações mais próximas com a administração de Donald Trump poderiam ampliar investimentos e abrir oportunidades para empresas brasileiras.
A divergência, portanto, não está em saber se o Brasil deve manter relações com os Estados Unidos — nenhum dos dois campos propõe rompimento. Está no grau de alinhamento e na margem de autonomia que o país pretende preservar diante de conflitos entre as grandes potências.
Alerta sobre eleição exige separar risco político de fato comprovado
Amorim também afirmou considerar real o risco de interferência externa no debate eleitoral brasileiro. Para ele, esse tipo de atuação não precisaria ocorrer por manipulação das urnas ou de qualquer parte do sistema de votação. Poderia aparecer no financiamento de organizações, em campanhas de influência, em pressões econômicas ou em ações destinadas a alterar o ambiente político brasileiro.
É justamente nesse ponto que a cautela factual se torna necessária. Até agora, as autoridades brasileiras não comprovaram uma operação estrangeira destinada a manipular a eleição presidencial. A Polícia Federal arquivou recentemente uma provocação da Advocacia-Geral da União sobre possível interferência por considerar que não havia elementos mínimos suficientes para a abertura de investigação formal. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral também declarou que não havia evidências concretas de interferência externa no processo.
Isso não elimina o debate sobre influência política estrangeira. Governos, partidos, organizações, empresários e personalidades de diferentes países frequentemente manifestam preferências sobre eleições realizadas no exterior. A questão jurídica e diplomática muda de dimensão quando a atuação envolve recursos de Estado, financiamento ilegal, operações clandestinas ou outras formas de intervenção capazes de violar a legislação e a soberania do país.
O próprio Amorim procura colocar sua advertência nesse terreno mais amplo. Sua preocupação declarada não é apenas saber se alguém tentará interferir no dia da votação, mas impedir que decisões estruturais brasileiras sejam condicionadas posteriormente por interesses estrangeiros.
Nesse sentido, a eleição de 2026 se conecta diretamente à disputa entre Estados Unidos e China. A China é hoje o principal parceiro comercial brasileiro e destino fundamental das exportações de soja, minério, petróleo e diversos outros produtos. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência essencial em investimentos, tecnologia, finanças, defesa e relações diplomáticas. Romper com qualquer um dos dois seria economicamente custoso.
Por isso, Amorim rejeita a ideia de que autonomia signifique escolher Pequim contra Washington. Sua defesa é de uma política externa capaz de negociar simultaneamente com as duas potências e com outros centros de poder, utilizando a dimensão do Brasil para ampliar margem de manobra.
Para o ex-chanceler, esse é o significado contemporâneo da palavra soberania. Um país não precisa se fechar para ser soberano. Precisa possuir alternativas suficientes para que nenhum parceiro tenha poder de determinar sozinho suas decisões.
A entrevista termina, assim, onde começou: numa eleição que Amorim considera importante não apenas para os brasileiros, mas para a própria configuração internacional. O assessor de Lula argumenta que o destino da maior economia da América Latina terá efeitos sobre o BRICS, sobre o equilíbrio entre Estados Unidos e China, sobre a autonomia regional e sobre a capacidade dos países do Sul Global de ampliar sua participação nas decisões mundiais.
Em outubro, os brasileiros escolherão um presidente. Mas a decisão ocorrerá num momento em que petróleo, minerais críticos, inteligência artificial, tecnologia militar, comércio e soberania deixaram de ser assuntos separados. Passaram a integrar uma mesma disputa sobre quem controla os recursos, os dados, a indústria e as decisões estratégicas que definirão as próximas décadas.
É esse horizonte que Celso Amorim procura colocar diante do debate eleitoral: o Brasil continuará procurando espaço para negociar com todas as grandes potências ou se aproximará mais intensamente de uma delas? E, qualquer que seja a resposta escolhida nas urnas, até onde o país conseguirá preservar capacidade própria para decidir sobre seus recursos, sua tecnologia, sua defesa e seu futuro?






