Da Redação
Ex-chanceler afirma que conflitos atuais podem se fundir em uma guerra global e diz que a ordem internacional já colapsou diante da escalada militar liderada pelos EUA.
O assessor especial da Presidência e ex-chanceler Celso Amorim fez um dos diagnósticos mais duros e preocupantes sobre o cenário internacional contemporâneo ao afirmar que o mundo vive um risco real de guerra mundial e que a ordem global simplesmente deixou de existir.
A avaliação não é retórica. É estrutural.
Segundo Amorim, a atual escalada militar protagonizada pelos Estados Unidos e seus aliados contra o Irã não pode mais ser analisada como um conflito regional isolado. Pelo contrário, trata-se de um ponto de inflexão que conecta múltiplos focos de tensão já ativos no sistema internacional, como a guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio e as disputas geopolíticas entre grandes potências.
A consequência dessa convergência é direta: o risco de fusão desses conflitos em uma única crise sistêmica de escala global.
Amorim foi explícito ao afirmar que esse cenário, antes considerado extremo, hoje deve ser tratado como possibilidade concreta. Em suas palavras, a situação atual “pode deflagrar um conflito muito maior” e representa um “risco real” de guerra mundial.
Esse alerta ganha ainda mais peso quando se observa o caráter qualitativo da escalada. Não se trata apenas de mais guerras, mas de guerras mais perigosas. O diplomata destacou, por exemplo, o risco de envolvimento nuclear, ao mencionar relatos sobre movimentação de bombardeiros estratégicos, o que elevaria o conflito a um nível imprevisível.
Mas talvez o ponto mais grave da análise não esteja no risco militar imediato, e sim no colapso da arquitetura internacional que deveria conter esse tipo de crise.
Para Amorim, essa estrutura já não existe mais.
A ordem mundial construída após a Segunda Guerra Mundial, baseada em instituições multilaterais, regras diplomáticas e mecanismos de mediação, foi progressivamente corroída ao longo das últimas décadas e agora entrou em colapso aberto. “Já não há mais a ordem mundial”, afirmou de forma categórica.
Esse colapso não é apenas político. Ele é também econômico e institucional.
Segundo o assessor, mecanismos que antes garantiam previsibilidade, como regras de comércio internacional e acordos multilaterais, foram substituídos por decisões unilaterais baseadas em interesses geopolíticos imediatos. Isso destrói a confiança sistêmica e abre espaço para um ambiente de instabilidade permanente.
Outro elemento central da análise é a destruição da diplomacia como instrumento de resolução de conflitos.
Amorim chama atenção para um fator crítico: a quebra de confiança. Ataques militares realizados durante processos de negociação inviabilizam qualquer tentativa de solução diplomática e fortalecem setores mais radicais dentro dos países envolvidos.
No caso do Irã, isso significa o enfraquecimento de interlocutores civis e a ascensão de estruturas militares mais duras, o que reduz drasticamente as chances de negociação e aumenta o risco de escalada.
Ao mesmo tempo, o diplomata rejeita a ideia de que o Irã possa ser rapidamente derrotado. Ele lembra que se trata de um Estado com milhares de anos de continuidade histórica e grande capacidade de resiliência, o que torna ilusória qualquer aposta em colapso imediato.
Esse erro de cálculo, segundo sua leitura, é um dos motores da crise atual.
Há ainda um ponto decisivo: a mudança na natureza do sistema internacional.
Diferentemente da Guerra Fria, quando havia dois polos relativamente estáveis, o mundo atual é marcado por múltiplos atores, interesses conflitantes e ausência de mecanismos eficazes de coordenação. Isso torna os conflitos mais imprevisíveis e mais difíceis de conter.
O resultado é um cenário que pode ser descrito como um sistema em colapso parcial, onde as regras antigas já não funcionam, mas nenhuma nova ordem foi estabelecida.
Essa transição, historicamente, é o momento mais perigoso.
Ao final de sua análise, Amorim sintetiza o quadro com uma imagem poderosa: os conflitos atuais são como bolhas que se aproximam e podem se fundir em uma única explosão geopolítica.
Em outras palavras, o mundo vive não apenas uma crise, mas uma mudança de era.
E, como toda transição sistêmica, ela carrega riscos profundos.
O alerta não é apenas sobre guerra. É sobre a ausência de limites.






