Da Redação
John Ratcliffe realizou uma viagem não anunciada à capital russa, reuniu-se com os chefes dos dois principais serviços de inteligência da Rússia e levou à mesa a possibilidade de um encontro entre Donald Trump, Vladimir Putin e Vladimir Zelensky. A missão, mantida longe dos canais diplomáticos tradicionais, revela que Washington tenta utilizar diretamente a inteligência como instrumento de negociação para reabrir conversações sobre a Ucrânia. O Kremlin confirma os contatos e diz que Putin foi informado imediatamente, mas não participou das reuniões.
Uma das movimentações diplomáticas mais incomuns desde o início da guerra da Ucrânia aconteceu praticamente fora das câmeras. O diretor da CIA, John Ratcliffe, viajou discretamente a Moscou e manteve reuniões com dois homens que ocupam o coração do aparato de segurança russo: Sergey Naryshkin, diretor do Serviço de Inteligência Estrangeira, o SVR, e Alexander Bortnikov, chefe do Serviço Federal de Segurança, o FSB. Segundo informações atribuídas pela RT ao Axios e confirmadas parcialmente por autoridades russas, Ratcliffe colocou em discussão uma proposta politicamente ambiciosa: reunir Donald Trump, Vladimir Putin e Vladimir Zelensky numa negociação trilateral destinada a procurar uma saída para a guerra.
A proposta ainda não significa que a cúpula acontecerá. Esse é o ponto essencial para compreender o estágio atual da movimentação. O que as fontes ouvidas pelo Axios afirmam é que Ratcliffe apresentou a ideia durante sua passagem por Moscou e discutiu também a possibilidade de reativar as negociações mediadas pelos Estados Unidos. Zelensky foi posteriormente informado pelos norte-americanos sobre as conversas e sobre a proposta. Até agora, porém, não existe anúncio de data, local ou concordância formal dos três líderes.
A importância da missão está também em quem foi escolhido para realizá-la. Ratcliffe não é secretário de Estado nem enviado diplomático convencional. É o diretor da principal agência de inteligência externa dos Estados Unidos. Sua entrada em Moscou coloca os serviços secretos no centro de uma tentativa de interlocução política justamente quando os canais tradicionais entre Rússia e Ocidente permanecem profundamente deteriorados.
A visita ocorreu sem anúncio prévio. Ratcliffe chegou a Moscou em 25 de agosto e deixou a Rússia no mesmo dia. O Kremlin confirmou posteriormente que houve contato entre os serviços de inteligência dos dois países. Dmitry Peskov, porta-voz da Presidência russa, afirmou que Putin não se encontrou pessoalmente com o diretor da CIA, mas deixou claro que o presidente foi informado sobre o conteúdo das conversações. Peskov classificou o contato entre os serviços como um fenômeno positivo.
Naryshkin também confirmou seu encontro com Ratcliffe, embora tenha evitado revelar detalhes. Segundo o chefe do SVR, foram discutidos assuntos pertencentes à esfera de atuação das agências de inteligência. O Axios acrescenta que o diretor da CIA também conversou com Bortnikov.
É justamente a reunião com os dois que dá ao episódio uma dimensão especial. Naryshkin dirige a inteligência externa russa; Bortnikov comanda o FSB, sucessor institucional de parte das estruturas do antigo KGB e uma das instituições mais poderosas do Estado russo. Ratcliffe, portanto, não foi a Moscou apenas para manter um contato protocolar com um homólogo. Ele entrou diretamente no núcleo de segurança e inteligência do governo russo.
Uma diplomacia conduzida pelas sombras
O formato escolhido mostra como a guerra transformou a própria arquitetura da negociação.
Em situações nas quais as relações diplomáticas estão profundamente deterioradas, os serviços de inteligência frequentemente funcionam como canais paralelos entre Estados adversários. Eles conseguem transmitir advertências, testar propostas, discutir riscos de escalada e negociar questões extremamente sensíveis sem que os governos precisem assumir imediatamente compromissos públicos.
Isso já aconteceu durante a própria guerra da Ucrânia.
O antecessor de Ratcliffe, William Burns, viajou a Moscou em novembro de 2021, poucos meses antes da invasão russa, numa tentativa norte-americana de transmitir diretamente ao Kremlin a avaliação de Washington sobre os preparativos militares russos. Depois do início da guerra, Burns encontrou Naryshkin em Ancara, em novembro de 2022, para discutir principalmente riscos de escalada nuclear e cidadãos norte-americanos detidos.
Ratcliffe e Naryshkin também já haviam mantido contato telefônico em março de 2025. Na ocasião, segundo o SVR, os dois lados concordaram em preservar um canal destinado a reduzir tensões e contribuir para a estabilidade internacional.
A viagem atual, porém, vai além.
Segundo as fontes que descreveram a missão ao Axios, foi a primeira vez que Ratcliffe se envolveu pessoalmente de maneira tão direta no esforço diplomático para tentar produzir um avanço entre Rússia e Ucrânia. A intenção norte-americana teria sido verificar se os chefes dos serviços russos poderiam funcionar também como interlocutores capazes de influenciar Putin em direção à retomada das negociações.
Isso ajuda a explicar a escolha do diretor da CIA.
Putin construiu sua carreira dentro do aparato de inteligência soviético e posteriormente dirigiu o FSB. A estrutura de segurança ocupa um lugar central no sistema político russo. Uma mensagem transmitida diretamente aos dirigentes dessa estrutura possui um significado diferente daquele produzido por uma declaração pública de Washington.
Ratcliffe aparentemente tentou explorar exatamente esse canal.
Segundo relatos publicados sobre a viagem, ele teria apresentado a Bortnikov uma avaliação bastante negativa das perspectivas militares e econômicas russas caso a guerra continue e defendido que Moscou procure um acordo antes que sua situação se deteriore. Essa parte da conversa foi atribuída a fontes norte-americanas e não recebeu confirmação detalhada do Kremlin; portanto, deve ser tratada como relato da posição apresentada por Washington, e não como descrição consensual da situação no campo de batalha.
O aspecto mais concreto que emerge é que os Estados Unidos estão tentando descobrir se existe espaço para voltar à mesa.
O obstáculo continua sendo Putin
A proposta de uma reunião entre Trump, Putin e Zelensky não é completamente nova. Washington já havia considerado anteriormente uma cúpula nesse formato. Zelensky demonstrou disposição para participar, enquanto Putin resistiu à ideia.
É por isso que a passagem de Ratcliffe por Moscou pode ser interpretada também como uma sondagem.
Antes de organizar publicamente uma reunião entre os três presidentes, seria necessário saber se o Kremlin está disposto a aceitar o formato e, sobretudo, se existe algum terreno mínimo para que o encontro não termine simplesmente numa repetição das posições já conhecidas.
A distância continua enorme.
Moscou e Kiev divergem sobre território, garantias de segurança, relação futura da Ucrânia com a OTAN, presença militar ocidental, sanções e condições políticas para um eventual cessar-fogo. Qualquer acordo teria ainda de enfrentar o problema mais difícil de todos: transformar compromissos políticos em mecanismos concretos capazes de impedir a retomada das hostilidades.
A missão da CIA não resolveu nenhuma dessas questões.
Mas indica que Washington considera necessário testar diretamente o núcleo do poder russo antes de abandonar a possibilidade de negociação.
Depois das reuniões em Moscou, autoridades norte-americanas informaram Zelensky sobre o conteúdo das conversações e sobre a proposta da cúpula trilateral. Segundo o Axios, os ucranianos permanecem profundamente desconfiados das intenções de Putin e afirmam possuir informações indicando que Moscou poderia estar preparando uma nova escalada militar.
Essa desconfiança ajuda a explicar a dificuldade de qualquer processo diplomático. Para Kiev, negociar enquanto existe a possibilidade de uma ofensiva russa significa correr o risco de transformar conversações em instrumento para Moscou ganhar tempo. Para a Rússia, por sua vez, qualquer negociação que não reconheça suas exigências fundamentais tende a ser considerada insuficiente.
É nesse espaço estreito que Washington tenta operar.
A viagem exigiu até uma contenção temporária dos ataques ucranianos
Há outro elemento revelador em torno da missão.
Segundo uma fonte citada pela Reuters, os Estados Unidos pediram à Ucrânia que evitasse ataques aéreos contra áreas próximas de Moscou, São Petersburgo e determinadas regiões do norte da Rússia durante os dias em torno da viagem porque uma aeronave transportando um alto funcionário norte-americano estaria voando para a capital russa.
A informação mostra a complexidade operacional de realizar uma missão desse tipo no meio de uma guerra.
Washington precisava garantir que seu próprio diretor da CIA pudesse entrar e sair do espaço russo com segurança enquanto um país apoiado militarmente pelos Estados Unidos continuava realizando operações contra alvos russos.
A viagem, portanto, exigiu uma pequena janela de coordenação dentro do próprio conflito.
Também demonstra algo mais profundo: apesar da confrontação entre Washington e Moscou, existem mecanismos de comunicação capazes de funcionar quando os dois lados consideram necessário.
Esse talvez seja um dos elementos mais importantes de todo o episódio.
As relações entre Estados Unidos e Rússia continuam profundamente hostis. Washington fornece apoio político e militar à Ucrânia, enquanto Moscou mantém relações estratégicas com adversários dos Estados Unidos e acusa o Ocidente de utilizar Kiev numa guerra por procuração. Mesmo assim, os chefes das duas maiores estruturas de inteligência conseguem sentar-se numa sala e conversar.
Em guerras envolvendo potências nucleares, esses canais não são um detalhe diplomático. São mecanismos de contenção.
E o Irã?
A proximidade entre a viagem de Ratcliffe e a nova escalada entre Estados Unidos e Irã inevitavelmente produziu especulações sobre uma possível dimensão iraniana das conversações.
A Rússia mantém uma relação estratégica importante com Teerã. A cooperação entre os dois países cresceu durante a guerra da Ucrânia e envolve dimensões militares, econômicas e diplomáticas. O Irã forneceu drones à Rússia, enquanto autoridades ucranianas acusaram Moscou de posteriormente fornecer ao Irã versões de sistemas desenvolvidos a partir dessa tecnologia. Uma avaliação da inteligência ucraniana relatada pela Reuters também afirmou que a Rússia teria fornecido imagens de satélite utilizadas para auxiliar Teerã na identificação de instalações norte-americanas no Oriente Médio; Moscou negou essa acusação.
Apesar dessa coincidência geopolítica, não existe confirmação pública de que o Irã tenha sido um dos assuntos centrais da missão.
Trump foi perguntado especificamente se Ratcliffe havia discutido sanções norte-americanas contra Teerã ou uma possível intenção russa de testar a determinação da OTAN. O presidente respondeu que não. Ele classificou a viagem como algo “semi-rotineiro”.
Essa negativa precisa ser considerada especialmente importante porque surgiu uma série de teorias sobre a missão desde que a viagem se tornou pública.
Analistas e veículos russos especularam sobre troca de prisioneiros, mensagens secretas sobre a Ucrânia, advertências relacionadas à OTAN, negociações envolvendo agentes de inteligência e até transporte de materiais sensíveis. Até agora, nenhuma dessas hipóteses possui confirmação suficiente para ser apresentada como fato.
O que está estabelecido é suficientemente relevante sem necessidade de preencher os espaços em branco.
Ratcliffe foi a Moscou.
Encontrou Naryshkin e Bortnikov.
Putin foi informado.
Washington posteriormente informou Zelensky.
E, segundo fontes ouvidas pelo Axios, o diretor da CIA apresentou a possibilidade de reunir Trump, Putin e Zelensky e discutiu a retomada das negociações.
Quando a inteligência ocupa o lugar da diplomacia
Talvez o elemento mais revelador dessa história seja justamente o método.
Uma guerra que começou como confronto militar entre Rússia e Ucrânia transformou-se numa disputa muito mais ampla envolvendo armas ocidentais, sanções, inteligência, energia, drones, satélites, guerra eletrônica e riscos nucleares. Ao mesmo tempo, as estruturas diplomáticas convencionais entre Washington e Moscou foram sendo progressivamente enfraquecidas.
Quando esses canais deixam de funcionar adequadamente, outros ocupam o espaço.
A CIA e o SVR passam então a desempenhar uma função que vai muito além da espionagem. Tornam-se canais pelos quais duas potências adversárias podem testar intenções sem transformar cada contato numa negociação pública.
Isso não significa que a CIA esteja substituindo formalmente o Departamento de Estado nem que Ratcliffe tenha recebido autoridade para negociar um tratado em nome de Washington. Significa que a administração Trump está utilizando um instrumento adicional para tentar descobrir até onde Moscou está disposta a avançar.
A própria reação do Kremlin sugere que a Rússia deseja preservar esse canal. Peskov não apresentou a visita como provocação ou operação hostil. Ao contrário, chamou o contato entre os serviços de inteligência de algo positivo. Naryshkin confirmou a reunião sem atacar publicamente o interlocutor norte-americano.
Esse comportamento não significa que exista acordo.
Significa que existe comunicação.
Depois de anos de guerra, esse simples fato possui importância estratégica.
O passo seguinte dependerá principalmente da resposta de Putin à ideia levada a Moscou. Se o Kremlin aceitar uma reunião trilateral, Trump poderá tentar transformar o canal secreto aberto pela inteligência numa iniciativa diplomática pública. Se Putin rejeitar novamente o encontro, a missão de Ratcliffe terá servido ao menos para revelar diretamente a Washington os limites da disposição russa para negociar.
Por enquanto, não há cúpula marcada nem acordo à vista. Há apenas uma porta entreaberta.
Mas o fato de essa porta ter sido aberta não por diplomatas, e sim pelo diretor da CIA dentro de Moscou, diante dos homens que comandam o aparato de inteligência russo, diz muito sobre o estágio atual da guerra: quando a diplomacia convencional encontra seus limites, Washington e Moscou voltam aos canais discretos de segurança para descobrir se ainda existe alguma possibilidade de impedir que o conflito continue indefinidamente — ou escale para algo ainda mais perigoso.



