Da Redação
John Ratcliffe reuniu-se com o chefe da inteligência externa russa, Sergey Naryshkin, numa rara visita à capital russa em meio à guerra na Ucrânia e às tentativas de negociação entre Washington e Moscou. Em artigo publicado pela RT, o ex-inspetor de armas da ONU Scott Ritter sustenta que a viagem precisa ser interpretada à luz da longa história de operações clandestinas da CIA contra a Rússia. Parte das acusações apresentadas por Ritter, entretanto, não foi demonstrada publicamente e deve ser distinguida dos fatos confirmados sobre a missão.
A presença do diretor da CIA, John Ratcliffe, em Moscou abriu uma janela incomum para uma das dimensões menos visíveis da relação entre Estados Unidos e Rússia. Ratcliffe reuniu-se com Sergey Naryshkin, diretor do Serviço de Inteligência Estrangeira russo, o SVR, num momento em que Washington e Moscou combinam negociações diplomáticas com uma disputa militar e de inteligência profundamente ligada à guerra na Ucrânia. Naryshkin confirmou pessoalmente o encontro e procurou reduzir sua excepcionalidade, afirmando que reuniões entre dirigentes dos serviços secretos fazem parte dos canais normais de comunicação entre as duas potências.
O conteúdo da conversa, porém, permanece sob sigilo. Naryshkin recusou-se a revelar a agenda, limitando-se a dizer que os assuntos discutidos pertenciam à competência específica dos serviços de inteligência. Também está confirmado que Ratcliffe não se reuniu pessoalmente com o presidente Vladimir Putin. Além disso, muito do que circula sobre participantes adicionais, propostas apresentadas e objetivos paralelos da missão permanece baseado em informações de imprensa ou especulação.
É justamente nesse vazio que se insere o artigo publicado pela RT e assinado por Scott Ritter, ex-oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e ex-inspetor de armas das Nações Unidas. O próprio veículo classifica o texto como uma coluna e registra expressamente que as opiniões são do autor. Ritter propõe uma interpretação muito mais dura da viagem: para ele, nenhuma visita do diretor da CIA à Rússia contemporânea pode ser considerada simplesmente “rotineira”, porque a agência norte-americana continua profundamente envolvida no confronto estratégico e clandestino contra Moscou.
Da Guerra Fria à Ucrânia
Parte importante da argumentação de Ritter está assentada numa história amplamente documentada. Durante a Guerra Fria, CIA e KGB mantiveram uma disputa permanente de espionagem, contraespionagem e operações encobertas. A estação da CIA em Moscou estava entre os postos mais sensíveis da inteligência norte-americana, enquanto os soviéticos desenvolviam sua própria estrutura de espionagem nos Estados Unidos e em países aliados.
Ritter recupera também a Operação Cyclone, programa secreto norte-americano destinado a financiar e armar forças afegãs que combatiam a União Soviética durante a guerra do Afeganistão. A operação tornou-se um dos maiores programas clandestinos da história da CIA e fazia parte da estratégia de Washington para aumentar os custos militares e políticos da intervenção soviética. Ritter apresenta essa experiência como precedente de uma lógica que, segundo ele, permanece ativa na relação dos serviços norte-americanos com a Rússia.
Sua interpretação se torna mais controversa quando avança para a Rússia pós-soviética. Ritter afirma que a CIA passou a enxergar o país derrotado na Guerra Fria não como uma potência que deveria ser incorporada a uma nova arquitetura de segurança europeia, mas como um adversário cuja recuperação estratégica precisava ser impedida. Ele acusa a inteligência norte-americana de ter procurado ampliar sua influência sobre a Rússia durante o governo Boris Yeltsin e associa esse processo à atuação de estruturas de soft power financiadas pelos Estados Unidos. Também atribui à CIA esforços para enfraquecer Vladimir Putin depois de sua chegada ao Kremlin.
São afirmações de Scott Ritter e precisam ser apresentadas dessa forma. A atuação política norte-americana na Rússia durante os anos 1990, assim como o financiamento de organizações da sociedade civil e programas de democratização por instituições dos Estados Unidos, possui extensa documentação histórica. Isso não significa, porém, que todas as alegações específicas feitas pelo autor sobre direção operacional da CIA, controle de autoridades russas ou planos para fragmentar territorialmente a Federação Russa estejam comprovadas pelos elementos apresentados no artigo.
Essa diferença entre documentação histórica e interpretação política torna-se ainda mais importante quando Ritter chega à guerra atual.
Desde o início do conflito na Ucrânia, a cooperação entre Washington e Kiev em inteligência tornou-se parte fundamental da capacidade militar ucraniana. Mas Ritter vai consideravelmente além dessa constatação. Segundo ele, a CIA estaria diretamente envolvida no treinamento de forças especiais ucranianas, na guerra de drones e em operações destinadas a atingir militares e infraestrutura dentro do território russo. O autor descreve a agência como participante de uma verdadeira “guerra secreta” contra Moscou.
O argumento culmina numa acusação particularmente grave. Ritter afirma que a CIA ajudou a orientar drones ucranianos enviados contra uma residência utilizada por Putin em Valdai em dezembro de 2025 e conclui que a operação teria representado uma tentativa de matar o presidente russo. O próprio texto registra, contudo, que a CIA nega que Putin fosse o alvo. Ritter menciona informações supostamente obtidas de componentes de orientação recuperados dos drones, mas não apresenta documentação independente suficiente para transformar a acusação de tentativa de assassinato numa conclusão factual.
Portanto, afirmar simplesmente que “a CIA tentou matar Putin” ultrapassaria aquilo que está publicamente demonstrado. O que existe é uma acusação feita por Ritter, acompanhada de uma negativa da agência norte-americana.
Por que Ratcliffe foi a Moscou?
Separadas as acusações não comprovadas dos elementos conhecidos, a visita permanece politicamente relevante.
O simples encontro entre os chefes da CIA e do SVR indica que Washington e Moscou mantêm canais diretos entre suas estruturas de inteligência mesmo durante um confronto estratégico de enorme intensidade. Isso não constitui uma anomalia histórica. Potências adversárias frequentemente preservam contatos secretos justamente porque esses canais podem ser utilizados para administrar crises, trocar prisioneiros, transmitir advertências, testar propostas diplomáticas e evitar erros de cálculo capazes de produzir uma escalada militar.
Há ainda um contexto diplomático maior. Informações publicadas anteriormente indicaram que Ratcliffe teria levado a Moscou uma proposta relacionada à possibilidade de conversações envolvendo Putin, Donald Trump e Volodymyr Zelensky. A RT noticiou essa hipótese citando informações atribuídas à Axios, mas os detalhes da missão não foram oficialmente divulgados.
Isso cria uma aparente contradição que, na realidade, é característica das relações entre grandes potências: o mesmo aparelho de inteligência que participa da competição estratégica pode funcionar como canal para negociar os limites dessa competição.
A história da Guerra Fria está cheia desses movimentos. Washington e Moscou espionavam um ao outro, financiavam aliados em guerras por procuração, conduziam operações clandestinas e, simultaneamente, negociavam controle de armas, trocas de agentes e mecanismos destinados a impedir que o confronto ultrapassasse determinados limites.
A viagem de Ratcliffe pode estar inserida exatamente nessa lógica.
É por isso que a provocação central de Ritter merece ser examinada mesmo quando várias de suas conclusões exigem cautela. O diretor da CIA não chega a Moscou como um diplomata convencional. Ele dirige uma instituição responsável pela coleta clandestina de inteligência, operações encobertas e apoio às políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. Naryshkin, evidentemente, representa a estrutura equivalente do outro lado.
O encontro, portanto, ocorre entre adversários profissionais.
A questão fundamental não é saber se Ratcliffe chegou a Moscou “em paz” ou “em guerra”, como sugere o título provocativo da coluna da RT. A pergunta mais importante é por que, depois de anos de uma guerra na qual inteligência, drones, sabotagem, operações especiais e capacidade de ataque em profundidade adquiriram importância extraordinária, os chefes dos dois serviços decidiram conversar pessoalmente.
Se a pauta envolveu uma negociação política mais ampla, gerenciamento da guerra clandestina, advertências sobre limites operacionais, cooperação em questões específicas ou preparação para futuras conversações entre Trump e Putin, somente a abertura de novas informações permitirá determinar.
Por enquanto, há um fato sólido no meio de uma quantidade muito maior de hipóteses: John Ratcliffe esteve em Moscou e encontrou-se com Sergey Naryshkin enquanto Estados Unidos e Rússia continuam simultaneamente negociando e confrontando-se em uma das disputas estratégicas mais perigosas do sistema internacional.
É precisamente essa combinação — diálogo diplomático na superfície, competição militar e inteligência nas profundezas — que transforma uma reunião apresentada oficialmente como “rotineira” em um acontecimento que merece atenção muito maior.


