Em novo livro, o professor Aristides Braga Neto revisita a gestão de Maria Luiza Fontenele, desmonta mitos e reabre o debate sobre a primeira mulher eleita prefeita de Fortaleza
A história recente de Fortaleza voltou ao centro da conversa pública com o lançamento, em setembro de 2025, de “A Culpa é da Maria?”, de Aristides Braga Neto (professor, mestre em História e Culturas e escritor). Em entrevista ao Programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, Aristides explicou por que decidiu reconstituir, com documentos e memória social, o conturbado período da gestão Maria Luiza Fontenele e como a narrativa do “caos” foi construída e colada, seletivamente, à figura da prefeita.
Esta reportagem se baseia na entrevista concedida por Aristides ao Café com Democracia (TV Atitude Popular) em 10 de outubro de 2025. “Colocaram toda a culpa na Maria para livrar os outros dos pecados”, resume o autor, ao afirmar que problemas crônicos anteriores à posse foram personificados na prefeita — e, por extensão, na presença de uma mulher no comando do Executivo municipal.
Por que reabrir um julgamento público
O projeto nasceu ainda na graduação de Aristides, quando ele buscava um tema de pesquisa ancorado na cidade e em fontes acessíveis. O foco emergiu naturalmente: a transição democrática, a chegada de Maria à Prefeitura e o acerto de contas com décadas de desmandos. “O caos já existia antes da posse”, diz o autor, ao reivindicar contexto: mortalidade infantil elevada, administração desestruturada e rede de servidores sem cadastro minimamente confiável.
Antes de Maria: cidade desorganizada, fichas sem RG e folha inflada
Aristides recupera um quadro administrativo que, segundo ele, reunia contratações sem concurso, servidores “fantasmas”, arquivos em papel carbono e fichas incompletas. Não se sabia com precisão “onde começava uma praça, onde terminava”, se áreas eram públicas ou privadas. A cidade acumulava efeitos de períodos de seca, com migração forçada e precariedade urbana; a receita municipal minguada dependia de repasses que só seriam redesenhados com a Constituição de 1988, observa o professor.
Greves, salários atrasados e um dilema político
Ao assumir com salários em atraso e um funcionalismo mobilizado, Maria adotou uma posição que fugia ao “manual” da conciliação conflitiva: reconheceu a legitimidade das greves e recusou a repressão como método. O gesto rendeu fogo cruzado: “Ela foi acusada de incentivar paralisações”, recorda Aristides — ainda que, na leitura dele, se tratasse de crise de financiamento estrutural somada à opção por governar sem loteamento.
“A Maria estava só”: sem bancada, com um adversário à esquerda
A solidão institucional na Câmara foi outro nó. “A Maria estava só”, diz Aristides, lembrando que o PT não elegera vereadores e que parte da esquerda local preferiu o caminho da conciliação pós-ditadura. Quando a Prefeitura propôs conselhos populares, a reação foi explícita. “Se tiver conselho popular na cidade, acabou os vereadores”, reproduz o autor, sobre o temor de perda de protagonismo no Legislativo.
Mídia, contratos e a ruptura com velhas práticas
Houve também choque com a imprensa quando a gestão cortou verbas de “relações públicas” e auditorias passaram a questionar contratos e cadastros. A decisão, segundo Aristides, alimentou a personificação do “caos”: problemas adquiriram rosto — o de Maria — enquanto agentes e estruturas anteriores desapareceram do foco.
“Fabricar” e “agir”: quando administrar não basta
Inspirado numa distinção conceitual, Aristides diferencia a “fabricação” (rotina administrativa, metas, balanços) da “ação” (ato político que produz efeitos incalculáveis). Administrar estava no plano — “a prefeita tentou”, insiste —, mas governar aquele caos demandava uma ação mobilizadora que o entorno político não quis partilhar. O livro reconstitui esses impasses, inclusive divergências internas no campo progressista.
O legado invisível: arrumar a casa para quem veio depois
Ao final, Aristides sustenta que a reorganização administrativa realizada na gestão — enxugamento de folha, reordenação de arquivos, mapa urbano clarificado — foi alicerce para o “deslanche” posterior, quando o novo desenho federativo garantiu mais recursos aos municípios. O mérito, diz, foi sufocado pela narrativa que reduzia tudo à “culpa da Maria”.
O livro e a pergunta que fica
Escrito com linguagem didática e documentação extensa, “A Culpa é da Maria?” convida o leitor a refazer o julgamento. Aristides não entrega uma sentença — oferece contexto, fontes e vozes. A pergunta do título ecoa até a última página: de quem é, afinal, a culpa? A entrevista sugere uma resposta incômoda: do arranjo político e social que preferiu um bode expiatório feminino a uma autocrítica estrutural.
“Colocaram toda a culpa na Maria para livrar os outros dos pecados”, afirma Aristides.
“Se tiver conselho popular na cidade, acabou os vereadores”, completa, reproduzindo a reação de bastidores à proposta de participação social.
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