Pesquisador do IBGE Oscar Arruda d’Alva alerta que o Brasil corre risco de perder o controle sobre suas próprias informações na era da plataformização
No Democracia no Ar desta quarta-feira (12), a jornalista Sara Goes recebeu o pesquisador do IBGE Oscar Arruda d’Alva para discutir o tema “Colonialismo ou soberania: Brasil na era da plataformização”. A entrevista — originalmente transmitida pela Rádio e TV Atitude Popular e disponível no YouTube — apresentou um panorama raro e precioso sobre a disputa global por dados e o impacto dessa corrida tecnológica na democracia brasileira.
A conversa também contou com comentários do pesquisador e jornalista Reynaldo Aragon, que semanalmente trata de soberania informacional no programa.
Logo no início, Oscar relembrou a importância de sua pesquisa premiada pela Association of Internet Researchers (AoIR 2025). Sua tese, “Estatísticas oficiais e capitalismo de plataforma: a transição para um regime de dataficação no Brasil”, investiga como a produção de estatísticas públicas no país passou a conviver com novas fontes de dados e com o interesse direto das big techs nas engrenagens do Estado. A entrevista aprofunda e atualiza esses achados.
“Estamos vivendo uma transição que mexe com a própria natureza do dado”
A partir de sua experiência de 15 anos como analista do IBGE, Oscar observou a entrada progressiva de novas tecnologias — como web scraping, dados de operadoras de celular e ferramentas de big data — que começaram a disputar espaço com o sistema estatístico tradicional, construído ao longo de quase um século.
Ele explica que essa transformação não é neutra. Pelo contrário, marca um confronto direto entre dois modelos:
o dado como bem público, fundamento da soberania e da democracia;
o dado como mercadoria, explorado por grandes corporações privadas.
Nas palavras do pesquisador:
“O que está em disputa hoje é a própria natureza do dado. Se ele continua sendo um bem público ou se passa a ser transformado em mercadoria.”
Oscar lembra que a produção estatística brasileira sempre foi um dos pilares mais sólidos da soberania nacional — e que essa solidez corre risco diante da pressão de grandes empresas que tentam colonizar fluxos informacionais no mundo todo.
“Há um projeto global de colonização de dados”
Oscar detalha a forma como Microsoft, Google e Meta passaram a atuar de maneira articulada dentro da ONU, especialmente na Comissão de Estatística. Investindo em programas como o Global Platform, as big techs se apresentaram como parceiras “técnicas” oferecendo infraestrutura em nuvem e ferramentas para que países do Sul Global pudessem produzir estatísticas com big data.
Segundo o pesquisador:
“É uma estratégia que usa a linguagem da sustentabilidade e dos ODS para legitimar a entrada das big techs no coração das estatísticas oficiais.”
Essas corporações disputam:
hospedagem de microdados sensíveis, incluindo informações georreferenciadas de censos;
padronização internacional de métodos e classificações;
parcerias público-privadas em escala transnacional.
Oscar chama esse fenômeno de colonialismo de dados, um processo que ameaça esvaziar a autonomia dos Estados e entregar informações estratégicas aos interesses de mercado.
A ameaça da “nuvem soberana” que não é soberana
Um dos pontos mais sensíveis da entrevista foi a crítica ao projeto brasileiro de “nuvem soberana”, atualmente acoplado ao modelo multicloud do SERPRO — que utiliza infraestrutura das big techs. Para Oscar, trata-se de um conceito capturado e esvaziado.
“Não existe soberania quando os dados ficam armazenados em infraestrutura de empresas submetidas ao governo dos Estados Unidos.”
Ele lembra que o Cloud Act, legislação norte-americana, permite que autoridades dos EUA requisitem dados de qualquer empresa do país, mesmo quando os servidores estão fisicamente no Brasil.
“Nuvem soberana hospedada na Microsoft não é soberana. É um slogan vazio.”
A preocupação é ainda maior porque o IBGE está em processo de transferência de microdados para a nuvem. Esses microdados:
contêm informações de todos os brasileiros;
são estruturados e altamente valiosos para treinar inteligências artificiais;
podem ser combinados com dados privados em escala.
Oscar alerta que esse processo está acontecendo sem debate público, sem transparência e sem avaliação de riscos.
Reynaldo Aragon: “O maior povo colonizado por dados hoje é o povo americano”
Nos comentários, Reynaldo Aragon contextualizou o fenômeno dentro da lógica da guerra híbrida e da captura do Estado pelas corporações de tecnologia.
Ele lembrou que:
grandes empresas já assumiram setores inteiros da burocracia dos EUA;
decisões sobre segurança, saúde e vigilância foram terceirizadas;
governos podem perder a capacidade de regular ou até mesmo entender as tecnologias que utilizam.
Para o pesquisador:
“Se você não controla seu fluxo de informação, você não controla mais nada.”
Ele reforçou que três instrumentos jurídicos dos EUA — o Cloud Act, a Convenção de Budapeste e os poderes do Departamento do Tesouro sobre empresas de tecnologia — representam ameaças concretas à autonomia de qualquer país.
“A pressa em modernizar está nos levando à perda de soberania”
Oscar encerrou com um alerta para o governo brasileiro: inovação não pode ser confundida com capitulação tecnológica.
“Há uma pressa em modernizar, digitalizar, datificar… mas sem construir antes o projeto soberano que deveria orientar essas escolhas.”
Para ele, é necessário:
fortalecer a universidade pública;
garantir financiamento nacional para ciência e tecnologia;
evitar terceirização de dados públicos críticos;
proteger o sistema estatístico nacional;
criar infraestrutura própria de dados realmente soberana.
E conclui com uma frase que deveria nortear qualquer debate sobre tecnologia no país:
“Os dados pertencem às pessoas. O Estado apenas os guarda. Perdê-los é perder soberania.”
Assista à entrevista completa
📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 33.829.340/0001-89


