Atitude Popular

Como a China construiu o domínio mundial das terras raras

Por Sara Goes

Há uma proliferação curiosa de especialistas instantâneos em terras raras no debate público brasileiro. O tema, tratado durante décadas de maneira restrita nos círculos da geologia, da indústria de alta tecnologia, da defesa e da política energética, passou a ocupar espaço repentino em programas de comentário político, canais de geopolítica e análises econômicas apressadas. Embora o conceito de terras raras não seja novo, a discussão pública brasileira sobre o assunto ganhou densidade apenas nos últimos anos, impulsionada pela disputa estratégica entre Estados Unidos e China por minerais críticos, pela reorganização das cadeias globais de tecnologia e pela descoberta do potencial brasileiro nesse mercado.

Nesse debate aquecido, a China virou quase uma lanterna atravessando neblina densa: uma referência constantemente invocada, mas raramente compreendida em profundidade. Multiplicam-se comparações apressadas, projeções grandiosas e analogias construídas mais sobre fantasia estratégica do que sobre entendimento concreto da política mineral chinesa, de sua industrialização planejada ou da disputa tecnológica que envolve esses minerais críticos.

Mas afinal, como a China lidou historicamente com suas terras raras e minerais críticos? Por meio de um gesto simbólico, de uma decisão isolada transformada em mito de eficiência nacional, ou pela marcha longa de um país milenar que articulou planejamento estatal, domínio tecnológico, formação industrial e disputa geopolítica ao longo de décadas?

Embora a pergunta carregue certa provocação, a história a seguir talvez ajude a compreender o que a China efetivamente fez com seus minerais críticos e até que ponto essa experiência pode, ou não, servir de referência para o Brasil. Não como fórmula pronta, muito menos como peça de propaganda geopolítica, mas como um processo histórico construído em outra escala, sob outras condições materiais, institucionais e civilizatórias. O desafio brasileiro, afinal, não se resume à existência de reservas minerais. Ele atravessa um país submetido a escolhas populares frequentemente tensionadas por ciclos de manipulação política, pela fragilidade do planejamento de longo prazo e por um debate público em que convivem, de um lado, um senador que acumula mais imóveis do que projetos estruturantes e, de outro, um presidente cuja trajetória política parece permanentemente obrigada a responder exigências infantis e cobranças condescendentes toda vez que a palavra soberania entra em cena.


  1. Mao foi à montanha e a montanha mudou o século

Quando o geólogo chinês Ding Daoheng identificou, em 1927, a gigantesca formação mineral de Bayan Obo, na Mongólia Interior, a descoberta parecia ligada apenas à corrida por minério de ferro. Décadas depois, revelou-se algo muito maior. Sob aquela região árida estavam concentradas as maiores reservas conhecidas de terras raras do planeta, além de nióbio e ferro em escala estratégica.

Após a fundação da República Popular, em 1949, o governo chinês incorporou Bayan Obo ao seu projeto de industrialização pesada. A mineração alimentou o crescimento de Baotou, transformada posteriormente na principal capital mundial das terras raras.

Para Mao Tsé-Tung, mineração nunca foi atividade periférica. Recursos naturais deveriam garantir autonomia industrial, capacidade militar e independência tecnológica diante das potências ocidentais e soviéticas. Os recursos minerais estratégicos passaram, então, a integrar a própria estratégia de construção do Estado chinês, incluindo as terras raras.

Décadas depois, Deng Xiaoping aprofundaria essa lógica com pragmatismo explícito. Em 1992, durante sua viagem ao sul da China, formulou a frase que virou doutrina mineral: “O Oriente Médio tem petróleo; a China tem terras raras”. A percepção era precoce. O século XXI dependeria cada vez menos apenas de combustíveis fósseis e mais de materiais essenciais para eletrônicos, sistemas militares, satélites, baterias, semicondutores e inteligência artificial.

Entre o fim dos anos 1970 e meados dos anos 1990, a produção chinesa de terras raras cresceu cerca de 40% ao ano. O avanço não surgiu espontaneamente do mercado. Foi resultado de planejamento estatal, crédito direcionado e disposição política para suportar perdas de curto prazo em troca do controle futuro das cadeias produtivas.

Enquanto empresas ocidentais operavam sob a lógica imediata do lucro, Pequim aceitava margens reduzidas, preços artificialmente baixos e forte intervenção estatal para eliminar concorrentes internacionais. A disputa jamais foi apenas comercial. Tratava-se de controlar cadeias minerais e industriais consideradas estratégicas, nas quais as terras raras ocupariam papel decisivo.


  1. O papel fundamental do investimento da ciência

Ainda na década de 1960, a China começou a estruturar uma infraestrutura científica dedicada exclusivamente às terras raras, algo praticamente inexistente em escala comparável no restante do mundo naquele período. Em 1963, foi criado em Baotou, na Mongólia Interior, o Instituto de Pesquisa de Terras Raras de Baotou, vinculado ao complexo industrial da Baogang Group, gigante estatal de mineração e siderurgia responsável pela exploração de Bayan Obo. O instituto surgiu num momento em que o governo chinês começava a compreender que o verdadeiro valor estratégico das terras raras não estava apenas na extração mineral, mas no domínio químico e metalúrgico necessário para separar, purificar e transformar esses elementos em materiais industriais avançados.

Baotou deixava gradualmente de ser apenas uma cidade mineradora. Tornava-se um polo integrado de ciência aplicada, mineração pesada e desenvolvimento industrial planejado pelo Estado.

A consolidação desse ecossistema científico teve forte influência de Xu Guangxian, químico formado pela Universidade Columbia que retornou à China após a Revolução de 1949 e passou a liderar pesquisas sobre química de coordenação e separação de lantanídeos na Universidade de Pequim. Xu desenvolveu métodos avançados de extração por solventes que permitiram à China alcançar níveis de pureza industrial extremamente elevados no processamento de terras raras, algo decisivo para aplicações militares, eletrônicas e energéticas.

Ao redor desse esforço estatal começaram a surgir laboratórios especializados ligados diretamente à Academia Chinesa de Ciências e às grandes universidades técnicas do país. Em Changchun, no nordeste chinês, foi estruturado o Laboratório Estatal de Utilização de Recursos de Terras Raras, focado em metalurgia, ligas especiais e aplicações industriais. Em Pequim, a Universidade de Pequim consolidou centros dedicados à química de materiais e aplicações tecnológicas de terras raras.

O modelo chinês já apresentava naquele momento uma característica que se tornaria central nas décadas seguintes: universidades, laboratórios e indústria não operavam de forma isolada. A pesquisa científica era organizada para resolver gargalos industriais concretos definidos pelo planejamento estatal.

Nas décadas posteriores, esse sistema seria ampliado com a criação de centros nacionais de engenharia de materiais, programas estratégicos de formação técnica e redes de pesquisa diretamente vinculadas às prioridades industriais do Partido Comunista Chinês. Em 1986, por exemplo, Pequim lançou o chamado Programa 863, iniciativa nacional voltada ao desenvolvimento acelerado de tecnologias estratégicas em setores como materiais avançados, automação, biotecnologia e defesa. As terras raras passaram a ocupar posição central dentro desse esforço.

A partir dos anos 2000, universidades como a Inner Mongolia University of Science and Technology (IMUST), localizada justamente em Baotou, passaram a oferecer programas altamente especializados em metalurgia de terras raras, engenharia mineral e materiais magnéticos. Em Jiangxi, região estratégica pelas jazidas de terras raras pesadas, novas instituições e cursos voltados especificamente à cadeia mineral foram incorporados ao sistema universitário chinês.

O resultado desse investimento contínuo foi a construção de um ecossistema científico-industrial praticamente sem paralelo. Enquanto muitos países mantinham pesquisa mineral fragmentada entre universidades, empresas privadas e laboratórios dispersos, a China consolidava um sistema articulado nacionalmente, capaz de conectar mineração, refino, engenharia química, metalurgia, fabricação de ímãs permanentes, propriedade intelectual e defesa estratégica dentro da mesma lógica estatal de longo prazo.


  1. E a questão ambiental?

Enquanto Estados Unidos e Europa endureciam regulações ambientais nos anos 1980 e 1990, a China aceitava níveis extremos de contaminação para consolidar sua posição industrial. A mina de Mountain Pass, na Califórnia, principal símbolo da produção ocidental de terras raras, acabou fechando em 2002 sem conseguir competir com os preços chineses e os custos ambientais crescentes impostos à mineração nos Estados Unidos.

A extração e o refino de terras raras produzem resíduos radioativos, águas ácidas e enormes volumes de rejeitos tóxicos. Em Bayan Obo, décadas de processamento mineral acumularam montanhas de resíduos contaminantes, degradando solos, alterando cursos d’água e expondo comunidades inteiras à radioatividade.

No sul da China, milhares de minas clandestinas ou precariamente reguladas contaminaram lençóis freáticos e áreas agrícolas durante anos. Pequim tolerou esse processo porque enxergava a disputa mineral como questão estratégica de longo prazo. O Ocidente terceirizou parte significativa de sua degradação industrial. A China absorveu esse custo em troca de hegemonia produtiva.

Havia também uma diferença política estrutural. Enquanto democracias liberais enfrentavam pressão social, judicial e regulatória contra atividades poluentes, o Estado chinês conseguia impor metas industriais em larga escala mesmo diante de impactos ambientais severos. O custo humano e ecológico foi enorme, mas o resultado foi a consolidação de uma cadeia mineral praticamente sem concorrência global.

Sob Xi Jinping, porém, o discurso mudou parcialmente de eixo. Surge a noção de “civilização ecológica”, combinando preservação ambiental, centralização política e reorganização industrial. O endurecimento regulatório passou a funcionar também como instrumento de concentração econômica. Pequenas mineradoras foram fechadas, operações ilegais reprimidas e conglomerados estatais ampliaram ainda mais o controle produtivo.

A pauta ambiental deixou de aparecer apenas como passivo da industrialização chinesa e passou a integrar a própria estratégia de poder mineral do país. Sob a linguagem da sustentabilidade, Pequim ampliou rastreabilidade, controle estatal e capacidade de disciplinar preços, exportações e cadeias globais de fornecimento.


  1. O pulo do gato

A China não quis apenas extrair minério. Buscou controlar refino, ligas metálicas, fabricação de ímãs, componentes eletrônicos e propriedade intelectual. Enquanto muitos países permaneceram presos ao papel histórico de exportadores de matéria-prima, Pequim internalizou as etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva.

O resultado foi a consolidação de um domínio industrial sem paralelo. Hoje, a China concentra cerca de 91% da capacidade global de separação e refino de terras raras, mais de 90% da produção metálica e aproximadamente 94% da fabricação de ímãs permanentes NdFeB, essenciais para carros elétricos, sistemas militares, semicondutores, robótica, telecomunicações e inteligência artificial.

Esse poder não nasceu apenas da abundância mineral. Foi construído por meio de política industrial, financiamento estatal, proteção estratégica e formação acelerada de capacidade tecnológica. Pequim compreendeu algo que parte do Ocidente ignorou durante décadas: soberania contemporânea depende menos da posse do recurso bruto e mais do controle das etapas industriais que transformam matéria-prima em tecnologia.

O avanço rapidamente ultrapassou as fronteiras chinesas. Empresas do país passaram a investir pesadamente no lítio da América Latina, no níquel da Indonésia e no cobalto da República Democrática do Congo. Gigantes como Ganfeng Lithium, Tianqi Lithium e Tsingshan Holding Group tornaram-se atores centrais das cadeias estratégicas da transição energética.

A Tsingshan alterou profundamente o mercado global de níquel ao expandir a produção na Indonésia e provocar excesso de oferta, pressionando produtores ocidentais e reduzindo preços internacionais. Empresas chinesas também passaram a controlar mais de 70% do refino mundial de cobalto, mineral decisivo para baterias recarregáveis e sistemas eletrônicos avançados.

O poder mineral chinês deixou de depender apenas do território nacional. Passou a operar em escala planetária, articulando minas africanas, refinarias asiáticas, cadeias industriais domésticas e crescente influência sobre preços, oferta e estabilidade tecnológica global.

Ao contrário da lógica colonial clássica de simples extração de recursos, Pequim buscou integrar mineração, infraestrutura, financiamento e processamento industrial sob influência de empresas chinesas. Em muitos casos, portos, ferrovias, usinas e estradas passaram a ser construídos junto aos projetos minerais, ampliando a dependência econômica de países exportadores em relação à capacidade industrial chinesa.


  1. E a soberania?

O modelo chinês rompe a separação clássica entre empresa estatal e iniciativa privada típica do Ocidente. Gigantes como China Rare Earth Group e Baogang Group controlam ativos considerados estratégicos e operam segundo metas industriais e de segurança nacional definidas pelo Partido Comunista Chinês.

Ao mesmo tempo, empresas privadas ou de capital misto atuam agressivamente no exterior. A Shenghe Resources, embora listada em bolsa, mantém vínculos profundos com o Estado chinês e possui participação na mina americana de Mountain Pass, garantindo que parte do minério extraído nos Estados Unidos continue sendo processada na China.

Empresas como Ganfeng Lithium, Tianqi Lithium e Tsingshan Holding Group recebem financiamento de bancos públicos e operam alinhadas às prioridades nacionais. O capital privado existe, mas subordinado a uma lógica estratégica mais ampla. A distinção liberal entre “mercado” e “Estado” perde nitidez no modelo chinês. O Partido Comunista atua como eixo coordenador de longo prazo, articulando bancos, universidades, conglomerados industriais, metas tecnológicas e projeção geopolítica.

Esse sistema permitiu à China transformar terras raras em instrumento de pressão internacional. Em 2010, após um incidente marítimo com o Japão nas ilhas Senkaku, Pequim interrompeu exportações de terras raras para os japoneses. O mercado entrou em choque. Os preços dispararam e governos ocidentais perceberam o grau de dependência construído ao longo das décadas anteriores.

Estados Unidos, União Europeia e Japão recorreram à Organização Mundial do Comércio. A China perdeu formalmente a disputa em 2014, mas rapidamente adaptou seus mecanismos de controle. Quotas explícitas deram lugar a licenciamento rígido, consolidação empresarial e controle estrutural da oferta. O poder mineral chinês passou a operar menos por proibições diretas e mais pela capacidade de disciplinar mercados inteiros.

Em 2024, Pequim aprovou o marco regulatório mais abrangente de sua história para o setor, estabelecendo rastreamento integral da cadeia produtiva, sistema nacional de quotas e reservas estratégicas controladas pelo Estado. Já em 2025, ampliou restrições de exportação sobre minerais críticos como gálio, germânio e terras raras pesadas usadas em semicondutores, radares, sistemas ópticos e tecnologias militares avançadas.

A principal lição chinesa talvez esteja justamente aí. Possuir recursos naturais não significa controlar soberania tecnológica. Países podem abrigar jazidas gigantescas e ainda permanecer subordinados industrialmente, limitados à exportação de matéria-prima. O centro real de poder está na capacidade de transformar minério em conhecimento científico, cadeia produtiva integrada, domínio tecnológico e influência geopolítica.


E o Lula, hein?

O desafio brasileiro não é reproduzir o modelo chinês integralmente. A tarefa é mais elementar e, ao mesmo tempo, mais difícil: impedir que o país atravesse a nova corrida global por minerais críticos ocupando exatamente o mesmo papel periférico que ocupou durante séculos na exportação de ouro, prata, borracha e minério bruto.

Foi nessa direção que o presidente Lula sinalizou após a reunião de cerca de três horas com Donald Trump em Washington, nesta quinta-feira (7). O brasileiro afirmou que o Brasil não aceitará repetir o padrão colonial de exportação bruta de riqueza mineral: “O que nós não queremos é ser meros exportadores dessas coisas. Nós não queremos repetir o que aconteceu com a prata na América Latina, com ouro, com minério de ferro”.

A fala ocorre em meio à disputa crescente entre Estados Unidos, China e União Europeia pelo acesso a minerais considerados estratégicos para a transição energética, a indústria de defesa, a produção de semicondutores e o avanço da inteligência artificial. Nesse novo cenário, o Brasil deixou de ser visto apenas como potência agrícola ou energética. Passou a ocupar posição relevante no mapa mineral do século XXI.

O movimento ganha densidade adicional após a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do PL 2780/2024, no dia 6, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). O projeto estabelece um novo marco regulatório para terras raras, lítio, níquel, grafita e outros minerais considerados fundamentais para as cadeias tecnológicas e energéticas contemporâneas.

O texto do projeto revela uma mudança de percepção dentro do próprio Estado brasileiro. Terras raras, fertilizantes, baterias, semicondutores, defesa militar, inteligência artificial e soberania industrial passam a aparecer conectados dentro da mesma disputa global por poder econômico e tecnológico. O próprio projeto reconhece, ainda que em linguagem técnica, a necessidade de reduzir a dependência histórica da exportação de commodities minerais e ampliar cadeias produtivas ligadas ao beneficiamento, ao refino, à transformação industrial e à fabricação de produtos de maior valor agregado.

A aproximação entre o discurso adotado por Lula e o conteúdo do novo marco regulatório sugere que o governo começa a tratar os minerais críticos como questão estratégica ligada à soberania nacional para além do discurso.

Mas a pergunta que começa a emergir é se Lula estaria disposto ao desgaste político, ambiental e simbólico necessário para sustentar uma política mineral verdadeiramente estratégica. A experiência chinesa também revela algo que raramente aparece nos discursos oficiais: nenhuma potência mineral construiu hegemonia industrial sem produzir algum grau de devastação ambiental, conflito territorial, centralização política e brutalidade econômica.

Foi assim na própria China. Foi assim nos Estados Unidos durante a industrialização pesada. Foi assim nas experiências coloniais europeias baseadas na mineração. Talvez seja justamente aí que comece o verdadeiro dilema brasileiro.

E mais: estaria disposto a administrar contradições adicionais às já inerentes ao capitalismo brasileiro, ao extrativismo periférico e a um sistema político marcado por fragmentação, fisiologismo e descontinuidade estratégica? A experiência chinesa mostra justamente que soberania mineral não nasce apenas de discursos sobre desenvolvimento ou articulações diplomáticas. Ela depende de coordenação estatal permanente, capacidade de impor prioridades nacionais, tolerância a conflitos distributivos e disposição para absorver custos políticos elevados.

O Brasil ainda não compreendeu plenamente a dimensão estratégica dos minerais críticos e tampouco está claro se o país possui estrutura política, capacidade institucional e algum grau de consenso social capazes de sustentar as consequências desse tipo de escolha histórica.

Depois de anos recolhendo os escombros deixados por um governo entreguista e destrutivo, resta saber até onde a sociedade brasileira estaria disposta a suportar novas tensões em nome de um projeto de soberania nacional. Estariam os brasileiros preparados para flexibilizar parte de suas exigências, expectativas e critérios de pureza política diante da promessa de reconstrução industrial e autonomia estratégica? Estaríamos dispostos, ainda que ocasionalmente, a abrir mão da materialização imediata de uma “TerraBras” idealizada para enfrentar os custos concretos que acompanham qualquer disputa real por poder econômico e tecnológico?

Enquanto a China parece atravessar o século XXI carregando a memória estratégica acumulada por milênios de civilização, o Brasil ainda tenta formular seu futuro reagindo ao curto prazo, à ansiedade moral instantânea e à infantilidade política de um país que frequentemente deseja soberania sem admitir o peso histórico, material e contraditório que ela cobra. Mas existe também nessa imaturidade uma leveza improvisada e quase indisciplinada que talvez só exista aqui, num país capaz de produzir caos, contradição e imaginação com a mesma naturalidade.

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