Jornalistas Clarinha Glock e Denise Pereira defendem a educomunicação popular e solidária como estratégia de fortalecimento da Economia Solidária nos territórios brasileiros
Da Redação
A comunicação não deve ser apenas um instrumento de transmissão de informações. Ela pode ser também uma ferramenta de transformação social, de fortalecimento comunitário e de construção coletiva do conhecimento. Essa foi a principal reflexão apresentada pelas jornalistas Clarinha Glock e Denise Pereira durante participação no programa Bancos da Democracia, apresentado por Sara Goes na TV Atitude Popular.
O debate teve como tema a Educomunicação Popular e Solidária a partir dos Territórios e abordou experiências desenvolvidas no âmbito do Programa Paul Singer, iniciativa vinculada à Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (Senaes), à Fundacentro e ao Ministério do Trabalho e Emprego. As convidadas destacaram como a união entre educação popular, comunicação comunitária e organização territorial pode fortalecer processos de participação social e ampliar o alcance da Economia Solidária em todo o país.
Logo no início da conversa, Denise Pereira explicou que o Programa Paul Singer foi criado para ampliar e fortalecer a Economia Popular e Solidária nos territórios, contando com centenas de agentes espalhados pelo Brasil.
Segundo ela, a proposta vai além da implementação de políticas públicas. O objetivo é construir processos coletivos de formação, organização e transformação social.
“Os agentes estão lá para fazer junto com os empreendimentos. Eles não vão fazer para os empreendimentos.”
A dimensão territorial, destacaram as entrevistadas, é central para compreender os desafios e potencialidades da Economia Solidária. O território não é entendido apenas como um espaço geográfico, mas como o lugar onde se desenvolvem relações sociais, culturais, econômicas e políticas.
“As lutas começam nos territórios. As resistências também.”
Comunicação como processo de emancipação
Clarinha Glock explicou que a educomunicação tem raízes nos trabalhos de Paulo Freire e do pesquisador uruguaio Mario Kaplún. Mais do que ensinar técnicas de comunicação, a proposta busca construir processos participativos capazes de fortalecer a autonomia das pessoas e das comunidades.
“A educomunicação une práticas da educação popular e da comunicação popular para fazer diferença na vida das pessoas.”
Para ela, informar não basta. É necessário estimular a leitura crítica da realidade, desenvolver capacidades de análise e fortalecer a participação social.
“Não é simplesmente informar. É informar com conteúdo. É informar para a soberania, para a emancipação das pessoas.”
As convidadas argumentaram que a comunicação deve partir das experiências concretas dos territórios, respeitando suas linguagens, culturas e formas de organização.
Essa perspectiva deu origem ao conceito em construção de Educomunicação Popular e Solidária a partir dos Territórios, que busca articular os princípios da Economia Solidária com metodologias de comunicação participativa.
Um conceito construído coletivamente
Durante o programa, Clarinha revelou que pesquisadores e integrantes do Programa Paul Singer estão sistematizando esse conceito em artigos acadêmicos e projetos de formação.
A proposta parte de valores como autogestão, cooperação, solidariedade, participação e escuta ativa.
“A comunicação começa no ouvir.”
Segundo as entrevistadas, um dos objetivos é aproximar os conhecimentos produzidos nas comunidades da produção acadêmica, reconhecendo que a teoria também pode surgir da prática social.
“A gente percebeu que estava construindo teoria a partir da prática.”
O jingle que virou símbolo do programa
Um dos exemplos mais marcantes apresentados durante a entrevista foi a criação do jingle do Programa Paul Singer.
A música surgiu em oficinas de educomunicação realizadas com agentes territoriais do estado de São Paulo. Em vez de contratar uma agência de publicidade, o programa optou por construir coletivamente sua identidade sonora.
Os participantes pesquisaram conceitos da Economia Solidária, escreveram a letra, compuseram a música e revisaram o conteúdo a partir de debates internos.
Durante esse processo, uma discussão sobre a diferença entre “emprego” e “trabalho” levou à reformulação de trechos da canção, reforçando os princípios da Economia Solidária.
O resultado foi um material que passou a ser utilizado em formações, encontros e atividades do programa em todo o país.
“Não fizeram para a gente. Nós construímos.”
Experiências espalhadas pelo Brasil
As entrevistadas relataram diversas iniciativas surgidas a partir dos territórios.
No Rio de Janeiro, agentes produziram cordéis sobre Economia Solidária. Em Minas Gerais, materiais extensos foram transformados em vídeos curtos e acessíveis para circulação pelo WhatsApp. No Amazonas, agentes criaram um boletim estadual sobre Economia Solidária.
Também foram citadas experiências com rádio comunitária, animação, produção audiovisual e oficinas de comunicação com crianças e adolescentes.
Segundo Clarinha, o mais importante não é a sofisticação técnica, mas a capacidade de estimular participação e protagonismo.
“Às vezes a técnica não é perfeita. Isso é processo. O importante é construir fazendo e aprendendo junto.”
Redes sociais, inteligência artificial e desinformação
Outro tema que ocupou parte importante da entrevista foi o impacto das plataformas digitais na comunicação contemporânea.
As convidadas reconheceram o potencial das redes para conectar pessoas e difundir conteúdos, mas alertaram para riscos associados à desinformação, à concentração de poder nas grandes plataformas e à perda da capacidade crítica.
“A gente não pode ser ingênuo nesse mundo atual.”
Clarinha defendeu a necessidade de alfabetização digital e de leitura crítica dos meios de comunicação.
Ela destacou que compreender quem controla as plataformas digitais, como os dados são utilizados e quais interesses econômicos estão em jogo tornou-se uma tarefa fundamental para a cidadania contemporânea.
“A gente precisa lembrar do valor da palavra e de ir mais a fundo no que está sendo apresentado.”
O debate também abordou os impactos da inteligência artificial sobre o trabalho e a comunicação.
Para as convidadas, é necessário construir políticas públicas e ampliar o debate social sobre os efeitos dessas tecnologias, especialmente entre crianças e jovens.
Formação de multiplicadores
Uma das próximas iniciativas do Programa Paul Singer será a formação de agentes especializados em educomunicação.
A expectativa é capacitar representantes de todos os estados brasileiros para que se tornem multiplicadores das metodologias desenvolvidas pelo programa.
A ideia é fortalecer redes locais de comunicação e ampliar a capacidade dos territórios de produzir suas próprias narrativas.
“As pessoas podem fazer. Elas podem ser protagonistas. Elas podem ser autoras de suas próprias histórias.”
Ao longo da entrevista, ficou evidente que a educomunicação, na visão das convidadas, não é apenas uma técnica ou metodologia. Trata-se de uma estratégia política e pedagógica voltada para fortalecer a participação popular, valorizar os saberes locais e ampliar a capacidade das comunidades de construir respostas para seus próprios desafios.
Conceitos
Educomunicação
A educomunicação é um campo que integra educação e comunicação de forma participativa. Inspirada em autores como Paulo Freire e Mario Kaplún, busca fortalecer a autonomia das pessoas, estimular a leitura crítica da realidade e promover processos coletivos de produção de conhecimento e comunicação.
Pesquisa-ação
Metodologia que combina produção de conhecimento e transformação social. Diferentemente de abordagens que apenas coletam informações, a pesquisa-ação envolve diretamente os participantes na identificação de problemas, construção de soluções e avaliação dos resultados, promovendo mudanças concretas na realidade estudada.
Territórios
No contexto da Economia Solidária e da educomunicação, território não é apenas um espaço geográfico. É o conjunto de relações sociais, culturais, econômicas e políticas construídas por uma comunidade. É onde surgem desafios, resistências, formas de cooperação e iniciativas de transformação social.
Referências
Pedagogia do Oprimido
Autor: Paulo Freire
Ano: 1968
Mario Kaplún e a comunicação popular
Autor: Mario Kaplún
Principais obras publicadas entre as décadas de 1970 e 1990
Paul Singer: uma utopia militante
Autor: Paul Singer
Ano: 1998
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