No Café com Democracia, historiador analisa os impactos do bloqueio econômico, critica a política externa dos Estados Unidos e alerta para o avanço da direita na América Latina
A crise econômica enfrentada por Cuba, o avanço da direita em diversos países latino-americanos e os desafios para a soberania regional foram os principais temas da edição do programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular. Apresentado por Luiz Regadas, o programa recebeu o historiador e militante sindical Alberto Mendes para discutir o cenário internacional e as perspectivas políticas da América Latina.
Logo no início da entrevista, Alberto afirmou que a situação vivida por Cuba não pode ser compreendida apenas como um problema interno da ilha. Segundo ele, o país enfrenta as consequências de uma política internacional conduzida pelos Estados Unidos há décadas.
“O problema de Cuba não é apenas cubano. É um problema mundial. Os Estados Unidos não aceitam relações internacionais soberanas nem um mundo multipolar.”
O historiador sustentou que o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos continua sendo o principal fator responsável pelas dificuldades enfrentadas pelo país caribenho. Na sua avaliação, trata-se de uma estratégia voltada a enfraquecer economicamente o governo cubano e impedir seu desenvolvimento.
Ao comentar as sucessivas votações da Organização das Nações Unidas em favor do fim do embargo, Alberto lembrou que a posição da maioria dos países esbarra no poder de veto exercido pelos Estados Unidos no Conselho de Segurança.
“A ONU faz esforços humanitários, mas existe uma política deliberada de impedir que Cuba tenha acesso às condições necessárias para superar suas dificuldades.”
Segundo o historiador, embora países como China e Rússia tenham enviado ajuda humanitária e apoio energético, os recursos ainda estão muito aquém das necessidades enfrentadas pela população cubana.
Durante a conversa, Alberto também analisou as reformas econômicas promovidas pelo governo do presidente Miguel Díaz-Canel. Para ele, mesmo mudanças estruturais na economia cubana não seriam suficientes para superar os problemas enquanto permanecer o bloqueio internacional.
“O governo cubano pode promover reformas importantes, mas a intenção dos Estados Unidos não é avaliar essas mudanças. O objetivo continua sendo manter a pressão sobre Cuba.”
Ao abordar a conjuntura latino-americana, Alberto afirmou que a disputa geopolítica vai além das diferenças ideológicas entre governos e envolve interesses econômicos e estratégicos.
Segundo ele, a classificação de governos como “de esquerda” ou “de direita” muitas vezes oculta um elemento central: a relação econômica desses países com os Estados Unidos.
“Quando parte da imprensa apresenta esse mapa político, na prática está indicando quais economias gravitam em torno dos interesses norte-americanos.”
Na avaliação do historiador, essa dinâmica contribui para ampliar a dependência econômica dos países latino-americanos, favorecendo a exportação de matérias-primas e dificultando processos de desenvolvimento industrial e tecnológico.
Ele também alertou para o crescimento da influência política norte-americana em diversos países da região e afirmou que esse movimento tende a aumentar a pressão sobre governos que buscam maior autonomia internacional.
Durante a entrevista, Alberto defendeu o fortalecimento dos países integrantes do Brics como alternativa à concentração do poder econômico mundial.
Segundo ele, iniciativas voltadas à ampliação do comércio entre países emergentes representam uma possibilidade concreta de reduzir a dependência em relação ao dólar e ampliar a cooperação internacional.
Ao refletir sobre o papel histórico de Cuba, o entrevistado afirmou que a ilha permanece como referência para setores progressistas em todo o continente.
“Cuba é um símbolo de resistência e de soberania. Para muitos povos representa a possibilidade de um país defender sua independência mesmo diante de enormes pressões externas.”
Alberto também recordou a derrota da invasão organizada pelos Estados Unidos na Baía dos Porcos, em 1961, destacando que o episódio continua presente na memória política cubana.
Segundo ele, após derrotar os invasores, Cuba libertou os prisioneiros em troca de medicamentos e alimentos destinados à população, episódio que considera emblemático da história da Revolução Cubana.
Ao encerrar a entrevista, o historiador defendeu maior integração entre os países latino-americanos e afirmou que os desafios enfrentados por Cuba precisam ser compreendidos dentro de um contexto regional e internacional mais amplo.
Referências
- Noam Chomsky
- Frei Betto
- Revolução Cubana
- Invasão da Baía dos Porcos
- Miguel Díaz-Canel
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