Site afirma que candidato do PL teria prometido facilitar um canal de televisão aberta ao grupo que controla a revista em troca da publicação de acusações de Daniel Vorcaro. Relato parte de uma fonte não identificada e ainda não possui confirmação independente; PF e PGR, por outro lado, já contestaram pontos centrais da reportagem publicada pela Veja.
Da Redação
Uma acusação de extrema gravidade passou a integrar nesta sexta-feira (9) a disputa em torno da reportagem publicada pela revista Veja com declarações atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo reportagem exclusiva do Diário do Centro do Mundo, Flávio Bolsonaro teria negociado com a direção da publicação a perspectiva de obtenção de um canal de televisão aberta para o grupo Abril em troca da divulgação do material envolvendo Vorcaro e o documentário sobre Lula dirigido por Oliver Stone. O DCM atribui a informação a uma única fonte, não identificada, que afirma ter recebido o relato diretamente de um diretor da revista. Até o momento, não há prova pública apresentada pelo site que confirme a existência dessa negociação, nem confirmação independente de que a promessa tenha ocorrido.
De acordo com o relato publicado, a proposta envolveria a possibilidade de o grupo empresarial responsável pela Veja ampliar sua atuação para a televisão aberta num eventual governo Flávio Bolsonaro, em modelo comparado pelo informante ao espaço ocupado atualmente pela Jovem Pan. A contrapartida, segundo a versão apresentada pela fonte ao DCM, seria a publicação da reportagem com as acusações de Vorcaro contra Lula justamente no início do segundo turno presidencial. Por se tratar de uma acusação sobre possível troca de benefício futuro por cobertura jornalística com impacto eleitoral, sua comprovação exigirá documentos, mensagens, testemunhos ou outros elementos que ainda não foram apresentados publicamente.
A denúncia surge num contexto que já vinha sendo questionado por advogados, pela campanha de Lula e por integrantes do sistema de Justiça. Antes mesmo da revelação do DCM sobre a suposta promessa envolvendo um canal de televisão, o grupo Prerrogativas havia pedido à Polícia Federal que investigasse uma possível articulação entre Vorcaro e pessoas ligadas à candidatura de Flávio Bolsonaro para interferir no segundo turno. A representação pede que sejam identificadas a origem do áudio divulgado pela Veja, as pessoas que tiveram acesso ao material e eventuais intermediários políticos envolvidos em sua circulação. Até agora, porém, também não existe conclusão policial apontando uma articulação dessa natureza.
O que já ganhou uma confirmação oficial nesta sexta-feira foi outro ponto, importante para avaliar a controvérsia: a Polícia Federal declarou que Daniel Vorcaro não prestou à corporação depoimento com o conteúdo apresentado pela revista e tampouco entregou à PF anexos, documentos ou informações contendo aquela narrativa. A Procuradoria-Geral da República também informou que não recebeu o depoimento oral descrito na publicação. A defesa atual de Vorcaro disse desconhecer tanto o suposto documento quanto a origem do áudio divulgado.
Isso não significa, por si só, que a gravação divulgada pela Veja seja falsa ou que Vorcaro nunca tenha feito aquelas afirmações em outro contexto. Significa que uma parte importante da apresentação original da história passou a ser contestada pelas próprias instituições às quais o material teria sido associado. A origem, a data, o local e as circunstâncias em que o áudio foi produzido continuam sendo questões relevantes para estabelecer sua autenticidade e seu valor probatório.
Reportagem da Veja levou o caso diretamente para o segundo turno
A controvérsia começou quando a Veja publicou áudios nos quais uma voz atribuída a Vorcaro afirma ter destinado recursos ao documentário Lula, de Oliver Stone, e sustenta que o dinheiro teria sido movimentado de maneira irregular. A revista também relatou um suposto pagamento de aproximadamente R$ 30 milhões em espécie e relacionou a operação a tentativas do antigo Banco Master de obter negócios junto a fundos de pensão.
Lula negou categoricamente ter pedido, recebido ou autorizado qualquer pessoa a receber recursos de Vorcaro em seu nome. Produtores do documentário também já haviam negado o recebimento de dinheiro do ex-banqueiro ou de empresas vinculadas ao Banco Master. As mensagens extraídas do telefone de Vorcaro pela Polícia Federal, abrangendo inclusive o período de produção do filme, não apresentam até agora registros de pagamento ou negociação financeira envolvendo a produção sobre Lula. A ausência desses registros não demonstra que o pagamento seja impossível, mas significa que a acusação divulgada permanece sem comprovação documental conhecida.
A situação é diferente no caso de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro reconheceu publicamente que procurou Vorcaro para obter financiamento para a produção. Investigações já identificaram negociações na casa de dezenas de milhões de dólares, e o próprio candidato confirmou o recebimento de aproximadamente R$ 60 milhões para o projeto, negando que tenha oferecido qualquer contrapartida relacionada ao seu mandato. Essa operação está sob investigação da Polícia Federal, que nesta sexta-feira também avançou na cooperação com autoridades norte-americanas para identificar o destino de recursos enviados a um fundo sediado nos Estados Unidos.
A divulgação da reportagem da Veja permitiu que Flávio reagisse politicamente a esse caso. Nesta sexta, o candidato afirmou ter sido injustiçado nas investigações sobre Dark Horse e utilizou as declarações atribuídas a Vorcaro para sustentar que seu financiamento teria sido regular, enquanto o dinheiro destinado ao filme sobre Lula teria sido irregular. A conclusão apresentada por Flávio, porém, vai além do que está comprovado até agora: a relação financeira envolvendo Dark Horse possui documentação e transferências identificadas; já a acusação relacionada ao documentário de Lula é contestada pela defesa do presidente, não aparece nas mensagens conhecidas de Vorcaro e não consta, segundo PF e PGR, de depoimento prestado pelo banqueiro às instituições.
Dono da Abril esteve em jantar com Flávio antes da eleição
Existe um elemento factual que aproxima o controlador da Abril do ambiente político da candidatura de Flávio Bolsonaro, embora ele não prove a negociação denunciada pelo DCM. Fábio Carvalho, chairman do Grupo Abril e publisher da editora responsável pela Veja, participou em 27 de agosto de um jantar em São Paulo que reuniu Flávio e alguns dos principais nomes do sistema financeiro e empresarial do país.
A presença de Carvalho no encontro foi registrada independentemente pela CNN Brasil e pelo UOL. Também estavam presentes dirigentes e executivos ligados a Bradesco, Itaú, Santander, Nubank, Gerdau e outras grandes empresas. Durante o jantar, Flávio apresentou propostas econômicas e discutiu sua relação com o Congresso e o Supremo em um eventual governo.
A participação de um empresário de comunicação num jantar com candidato à Presidência não constitui irregularidade e muito menos comprova um acordo editorial. Dirigentes de empresas jornalísticas mantêm relações, reuniões e contatos com políticos de diferentes partidos. O fato se torna relevante agora apenas porque a denúncia publicada pelo DCM afirma que a direção empresarial da revista estaria envolvida diretamente na decisão de divulgar o material e numa negociação sobre concessão de televisão aberta.
É essa ligação específica que precisaria ser demonstrada.
Se houver mensagens, reuniões registradas, documentos ou testemunhos capazes de mostrar que uma promessa de concessão pública esteve vinculada à publicação de uma reportagem, o episódio deixaria de ser apenas uma controvérsia jornalística e passaria a envolver questões eleitorais, administrativas e eventualmente criminais muito mais amplas. Concessões de radiodifusão dependem do Estado e não podem legalmente ser tratadas como moeda privada de troca entre candidato e empresa de comunicação.
Se essa prova não aparecer, a acusação continuará sendo o relato de uma fonte anônima publicado por um veículo jornalístico.
O áudio de Vorcaro virou objeto de disputa jurídica
A autenticidade e a origem da gravação publicada pela Veja também passaram a ser questionadas. O Prerrogativas pediu que a Polícia Federal realize perícia para verificar se o arquivo é íntegro e identificar quando e em que circunstâncias foi produzido. Uma das suspeitas levantadas na representação é de que a gravação possa ter sido montada a partir de trechos diferentes ou manipulada tecnologicamente. Até agora, porém, não há laudo pericial público demonstrando adulteração.[
Integrantes da Procuradoria-Geral da República ouvidos pela Folha também levantaram a hipótese de que o áudio possa ter sido gravado irregularmente quando Vorcaro já estava preso e destinado posteriormente ao debate eleitoral. Novamente, trata-se de uma suspeita que precisa ser demonstrada pela investigação, não de uma conclusão estabelecida.
A campanha de Lula anunciou uma sequência de medidas judiciais. Entre elas estão pedidos de direito de resposta, solicitação de investigação pela Polícia Federal, ação indenizatória, pedido à Justiça Eleitoral para impedir o uso de acusações consideradas falsas na propaganda eleitoral e uma queixa-crime contra Vorcaro. A Advocacia-Geral da União também anunciou providências relacionadas ao conteúdo publicado pela revista.
A controvérsia adquire peso justamente porque faltam pouco mais de duas semanas para a votação. Uma acusação criminal publicada nesse período possui capacidade imediata de circular pela propaganda partidária, por redes sociais e por aplicativos de mensagem muito antes de qualquer investigação produzir uma conclusão definitiva.
A denúncia agora precisa sair do terreno das versões
A reportagem do DCM eleva ainda mais a gravidade do caso, mas também aumenta a necessidade de rigor.
Há três camadas distintas que não podem ser misturadas.
A primeira é comprovada: Flávio Bolsonaro manteve relação com Vorcaro para financiar Dark Horse, e transferências milionárias relacionadas ao projeto estão sob investigação. A segunda envolve a acusação de Vorcaro contra Lula publicada pela Veja, que até agora não recebeu confirmação documental conhecida e teve aspectos de sua apresentação contestados por PF e PGR. A terceira, revelada agora pelo DCM, é a alegação de que Flávio teria prometido uma futura estrutura de televisão aberta ao grupo Abril em troca da publicação dessa reportagem.
Essa terceira camada é, neste momento, a menos documentada publicamente.
Ela provém de uma fonte anônima. O DCM afirma que essa pessoa recebeu a informação diretamente de um diretor da revista, mas não apresenta mensagens, contratos, gravações ou documentos que comprovem o acordo.
A existência de uma investigação independente torna-se, portanto, especialmente importante.
Se houve uma promessa envolvendo concessão pública e cobertura eleitoral, será necessário descobrir quem participou, quando ocorreu a conversa, de que forma a contrapartida foi apresentada e se a publicação da reportagem fez parte efetivamente desse entendimento.
Se não houve, isso também precisa ficar claro.
A proximidade da eleição torna perigoso transformar qualquer uma das versões em verdade antecipada. A disputa presidencial já produz incentivos suficientes para que acusações sejam utilizadas imediatamente por um lado ou por outro antes que as provas estejam disponíveis.
O caso Vorcaro entrou no segundo turno carregando exatamente esse problema: existe uma investigação financeira real e documentada envolvendo milhões enviados para uma produção sobre Jair Bolsonaro; existe uma acusação ainda não comprovada contra Lula divulgada por uma grande revista; e agora existe uma denúncia igualmente grave sobre a própria forma como essa reportagem teria chegado ao público.
A Polícia Federal já foi chamada a examinar parte dessa história.
Depois da revelação desta sexta-feira, uma pergunta adicional passa a exigir resposta: houve ou não uma negociação entre a candidatura de Flávio Bolsonaro e o grupo responsável pela Veja envolvendo uma futura concessão de televisão?
Enquanto essa pergunta não for respondida com provas, ela deve permanecer exatamente no lugar em que o jornalismo responsável precisa colocá-la: como uma acusação relevante, grave e ainda não comprovada.





