Atitude Popular

“Defender servidores e servidoras públicas é defender o serviço público”

SINDUECE cobra reposição de 7,74% e aponta defasagem acumulada de cerca de 32% no funcionalismo estadual em debate no Democracia no Ar

A luta pela recomposição salarial dos servidores do Ceará voltou ao centro do debate público no Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular. Na edição, Sara Goes conversou com Virgínia Márcia Assunção Viana, professora da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e vice-presidenta do SINDUECE, sobre a reivindicação de reposição salarial de 7,74% e o quadro de perdas acumuladas que, segundo a dirigente sindical, já chega a cerca de 32% nas últimas gestões estaduais. A análise contou ainda com comentários do professor Osmar de Sá Ponte, que contextualizou o cenário político, fiscal e os efeitos do desgaste prolongado no poder de compra do funcionalismo.

Virgínia situou o tema no ponto mais sensível para as categorias: a diferença entre “aumento” e “reposição”. Para ela, o que está em disputa não é um privilégio, mas a sobrevivência do serviço público diante da corrosão salarial e do avanço de narrativas que tentam isolar o servidor do restante da sociedade. “Quando a gente faz uma fala de uma reposição salarial, inclusive a gente não fala de aumento salarial, a gente fala de reposição salarial em função de fortalecimento do serviço público”, afirmou.

Mesa de negociação e o índice na pauta

A entrevista foi ao ar em meio a uma nova rodada de negociação com o governo estadual. Virgínia explicou que o canal de diálogo foi reaberto após mobilização unificada do funcionalismo. “Ontem teve uma audiência com a equipe do governo no Palácio da Abolição. Essa audiência foi resultado de um grande ato que fizemos unificado no dia 4 de fevereiro, naquele dia de muita chuva”, relatou, destacando que a pressão social foi decisiva para tirar a pauta da inércia.

Segundo a vice-presidenta do SINDUECE, as entidades defendem que a reposição siga a data-base e seja calculada a partir de parâmetros objetivos. Ela citou a lei estadual que estabelece janeiro como referência, mas frisou que o cumprimento não ocorre de forma automática. “A gente não tem o cumprimento dessa lei senão com muita luta, senão com muita pressão”, disse.

A dirigente também detalhou o raciocínio que embasa a reivindicação de 7,74%, afirmando que o índice não foi definido “no grito”, mas com base em leitura das contas públicas e de indicadores econômicos. Na entrevista, ela mencionou o uso do IPCA como ponto de partida e a discussão sobre crescimento econômico. “A reposição seria do IPCA, ou seja, da inflação do ano anterior. E como nós temos uma perda salarial muito grande… como é que a gente pode negociar esses índices?”, afirmou, explicando que o movimento busca combinar recomposição com um esforço gradual para reduzir a defasagem histórica.

“Há um esgaçamento nessa relação” e o histórico de pressão

Virgínia foi direta ao apontar o desgaste acumulado nas negociações, sobretudo quando o governo define percentuais sem pactuação prévia. Ela lembrou episódios recentes de mobilizações prolongadas e criticou a ausência de diálogo institucionalizado em momentos decisivos. “Algumas vezes o governo sai com o índice de uma forma muito voluntária, sem um debate anterior com o FOASPEC… e isso tem trazido muitos esgaçamentos nessa relação”, afirmou.

A sindicalista defendeu que o Estado trate a campanha salarial como política pública, com previsibilidade e transparência, e não como concessão ocasional. “Gostaríamos muito que o governo tivesse também essa relação… de que nós não estamos construindo uma campanha salarial… de forma aleatória ou sem o compromisso com as finanças do estado”, disse.

Osmar: perdas, poder de compra e qualidade do serviço

Nos comentários, Osmar de Sá Ponte ampliou o tema para o impacto cotidiano da defasagem na vida do trabalhador e na capacidade do Estado de oferecer serviços de qualidade. Ele argumentou que o problema não se resume à inflação anual, mas ao poder de compra, afetado por mudanças econômicas mais amplas. “Se você for analisar o poder de compra do salário do trabalhador, ele diminuiu muito… o dólar vale muito mais do que valia antes”, afirmou.

Osmar ressaltou ainda que exigir dedicação e responsabilidade sem garantir condições adequadas compromete o próprio serviço prestado à população. “Você exige uma dedicação exclusiva e, ao mesmo tempo, você tem um baixo salário. Isso é muito ruim pra qualidade de serviço”, disse, defendendo que a valorização do servidor não é pauta corporativa, mas componente estruturante de políticas públicas.

Ele também criticou a generalização que transforma o funcionalismo em alvo fácil por conta de distorções concentradas em poucos. “Dizem que os funcionários são marajás porque tem meia dúzia de pessoas que ganham muito bem e aí todos levam a culpa”, afirmou, ao sugerir que o debate público precisa separar exceções do conjunto da categoria.

Universidades estaduais, autonomia e precarização

A conversa avançou ainda para um ponto que pressiona diretamente a UECE e outras instituições estaduais: falta de pessoal, sobrecarga e limites de autonomia. Virgínia relatou que a precarização se expressa na carência de docentes, o que afeta ensino, pesquisa e extensão. “Nós abrimos um ano… com 380 disciplinas sem professores dentro da Universidade Estadual do Ceará”, disse, apontando que a discussão salarial se conecta à sustentabilidade da universidade pública.

A sindicalista defendeu que autonomia universitária não pode ser apenas discurso: precisa se traduzir em capacidade de repor quadros, planejar e garantir continuidade institucional. Segundo ela, há carência de centenas de professores e reposições abaixo do necessário, o que restringe o funcionamento e compromete a expansão com qualidade.

O sentido político da reposição

Ao longo do programa, a tese central sustentada por Virgínia foi a de que reposição salarial é instrumento de defesa do serviço público e, por consequência, da população que depende dele. “Defender servidores e servidoras públicas é defender o serviço público… e os direitos da sociedade”, afirmou, lembrando também o papel dos sindicatos em resistir a projetos que buscam reduzir direitos, terceirizar e fragilizar carreiras essenciais.

Com negociações em curso e um histórico de defasagem acumulada, a entrevista evidenciou que a disputa por 7,74% não é apenas sobre números: é sobre prioridades fiscais, compromisso político e a capacidade do Estado de manter, com dignidade, quem sustenta a máquina pública no dia a dia.

Ao final, as entidades reforçaram que seguirão mobilizadas e cobrando um modelo de negociação mais permanente, transparente e democrático.

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