Da Redação
Mais de 120 jornalistas de Politico e Business Insider protestaram contra a decisão do grupo alemão Axel Springer de conceder seu principal prêmio a Peter Thiel, fundador da Palantir e um dos bilionários mais influentes do Vale do Silício. O episódio vai além de uma homenagem controversa: documentos e registros públicos mostram uma rede concreta de relações entre o conglomerado de mídia, executivos da Palantir, fundos ligados à família de Mathias Döpfner e empresas de tecnologia de defesa. Parte das conclusões políticas apresentadas pela RT, porém, vai além do que as evidências disponíveis permitem afirmar como fato.
Uma cerimônia marcada para esta quinta-feira, 24 de setembro, na sede da Axel Springer em Berlim transformou-se em uma disputa interna sobre os limites entre jornalismo, poder tecnológico e interesses empresariais. O homenageado será Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir, primeiro investidor externo do Facebook e uma das figuras mais influentes do ecossistema tecnológico e político dos Estados Unidos.
O próprio conglomerado alemão anunciou oficialmente que Thiel receberá o Axel Springer Award 2026, distinção já entregue a Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Elon Musk, Volodymyr Zelensky, Satya Nadella e Sam Altman. Segundo a empresa, Thiel é um empresário que criou mercados e influenciou profundamente os debates tecnológicos, econômicos e sociais contemporâneos. A Axel Springer descreve ainda a Palantir como uma companhia “crucial para a resiliência das democracias”.
O problema é que parte dos próprios jornalistas da companhia não compartilha dessa avaliação.
Mais de 120 profissionais de Politico e Business Insider, dois veículos pertencentes à Axel Springer, assinaram uma carta contestando a homenagem. Segundo o TheWrap, eles argumentam que premiar Thiel entra em tensão com o compromisso declarado do conglomerado com a liberdade de imprensa.
Há um precedente diretamente relacionado ao jornalismo. Thiel financiou secretamente o processo movido pelo ex-lutador Hulk Hogan contra o site Gawker. A ação terminou com uma indenização de US$ 140 milhões em 2016 e contribuiu decisivamente para a falência da empresa de mídia. Thiel reconheceu posteriormente seu financiamento. O caso permanece como referência no debate americano sobre a capacidade de bilionários utilizarem litígios para enfrentar organizações jornalísticas.
A controvérsia poderia terminar aí: jornalistas discordando da escolha de um prêmio concedido pelo proprietário de seus veículos.
Mas não termina.
Quando as relações empresariais são reconstruídas, aparece algo mais estrutural. Axel Springer e Palantir não são simplesmente duas organizações independentes que ocasionalmente se encontram num evento. Existem conexões pessoais, tecnológicas e financeiras documentadas entre integrantes dos dois ecossistemas.
Palantir já esteve dentro da estrutura de governança da Axel Springer
A conexão mais direta passa por Alex Karp, cofundador e CEO da Palantir.
Documentos da própria Axel Springer registram que Karp ingressou no conselho de supervisão do conglomerado em abril de 2018. Naquele momento, portanto, o executivo responsável por uma das principais empresas privadas de análise de dados e tecnologia para governos e forças de segurança ocupava formalmente uma posição na estrutura de supervisão de um dos maiores grupos de comunicação europeus.
A relação era também pessoal.
Em 2019, Mathias Döpfner, principal executivo da Axel Springer, entrevistou Karp para um podcast da própria companhia. O anúncio oficial dizia que os dois discutiriam inteligência artificial, propriedade dos dados, privacidade, China e os limites da análise massiva de informações. Uma das perguntas era precisamente por que Karp havia aceitado participar do conselho da Springer. A resposta foi apresentada pela própria empresa em torno de “biografias semelhantes” e “valores compartilhados”.
Organizações alemãs de monitoramento de lobby reconstruíram posteriormente uma relação ainda mais extensa. A LobbyControl afirma que Döpfner e Karp se conhecem desde 2003 e que o executivo da Palantir, depois de passar pelo conselho de supervisão, participou também do comitê de acionistas da Axel Springer.
Mas existe uma conexão ainda mais concreta: a Axel Springer tornou-se cliente da Palantir.
A própria Springer publicou material explicando a utilização da plataforma Palantir Foundry para trabalhar seus dados. Em comunicação corporativa, descreveu a tecnologia como instrumento para democratizar o acesso a informações dentro da companhia, permitindo analisar desempenho de artigos, posição de chamadas e tendências de audiência. A Palantir também divulgou publicamente a Axel Springer como usuária de Foundry.
Isso muda a natureza da história.
A empresa que concederá seu prêmio a um dos fundadores da Palantir mantém ou manteve relações de governança com o CEO da Palantir e utiliza tecnologia produzida pela companhia.
A homenagem continua sendo uma decisão editorial e empresarial da Axel Springer. Mas não ocorre entre desconhecidos.
A rede chega à família Döpfner e à indústria de drones
Há outro eixo menos conhecido.
Mathias Döpfner é uma das figuras mais poderosas da mídia europeia. Sob sua liderança, a Axel Springer expandiu-se para os Estados Unidos e transformou-se numa companhia transatlântica que hoje controla marcas como Politico, Business Insider, Bild e Welt. A própria empresa define sua ambição como tornar-se a principal fornecedora de jornalismo digital e apoiado por inteligência artificial do “mundo livre”.
Seu filho, Moritz Döpfner, possui relações empresariais próprias com o universo de Thiel.
Reportagem da alemã T-Online, baseada também em investigação do Manager Magazin, informou que Peter Thiel entrou como investidor-âncora do fundo criado por Moritz Döpfner, com aproximadamente US$ 50 milhões. Esse fundo, por sua vez, investiu na Stark, empresa alemã de tecnologia militar especializada em sistemas não tripulados.
A Stark desenvolve, entre outros produtos, drones militares. O mesmo levantamento registra investimentos na empresa realizados por fundos com outras conexões com o ecossistema Springer.
Isso não significa que Axel Springer, Palantir e Stark sejam uma única organização ou que possuam comando comum. Seria incorreto transformar relações empresariais e pessoais em identidade institucional.
Mas existe uma rede verificável de relações.
Thiel é cofundador e presidente do conselho da Palantir — condição confirmada nos documentos apresentados pela própria empresa à SEC americana em 2026.
Alex Karp, cofundador e CEO da Palantir, participou da governança da Axel Springer.
Axel Springer utiliza Palantir Foundry.
Mathias Döpfner mantém relação pública de longa duração com Karp.
Peter Thiel colocou capital no fundo do filho de Döpfner, segundo reportagens alemãs, e esse fundo investiu numa companhia de defesa.
E agora Axel Springer entrega seu prêmio de 2026 a Thiel.
Esse conjunto ajuda a explicar por que a cerimônia provocou desconforto dentro das próprias redações.
Da análise de dados à guerra
O centro tecnológico dessa rede é a Palantir.
Fundada em 2003, a companhia desenvolveu plataformas destinadas à integração e análise de grandes volumes de dados. Diferentemente das empresas de tecnologia voltadas principalmente ao consumidor, a Palantir construiu parte importante de sua trajetória atendendo governos, forças armadas, inteligência e segurança.
A própria Axel Springer, ao apresentar Alex Karp quando ele integrava seu conselho, dizia que entre os clientes da companhia estavam importantes agências de defesa e inteligência dos Estados Unidos e de outros países.
Esse modelo expandiu-se consideravelmente.
Hoje, Palantir ocupa uma posição relevante no mercado de software governamental e militar. Ao mesmo tempo, possui crescente atuação empresarial. É exatamente essa capacidade de usar a mesma arquitetura geral de integração e interpretação de dados em diferentes ambientes que explica por que uma plataforma desenvolvida por uma empresa profundamente vinculada à segurança nacional americana também pode ser empregada por um conglomerado jornalístico para estudar audiência e desempenho de conteúdo.
A questão relevante não é afirmar que utilizar Foundry transforma uma redação em extensão de uma agência de inteligência. Não há evidência para isso.
O ponto é outro: as fronteiras entre tecnologia comercial, infraestrutura informacional, defesa, inteligência e mídia tornaram-se muito mais permeáveis.
Um exemplo ocorreu nesta própria semana.
Na terça-feira, a Axel Springer realizou em Berlim seu WELT AI Summit. Participaram representantes de Google, AWS, OpenAI, Nvidia, SAP, Mistral AI e Palantir, além de integrantes do governo alemão e outras grandes corporações. A executiva Laura Rudas representou a Palantir. O encontro discutiu soberania de dados, cibersegurança, inteligência artificial e regulação tecnológica europeia.
Não há irregularidade inerente nisso. Conferências jornalísticas e empresariais frequentemente reúnem governos e empresas.
Mas o episódio ilustra uma transformação estrutural da indústria da informação: conglomerados jornalísticos deixaram de operar apenas como empresas que produzem jornais. Tornaram-se plataformas digitais, organizadores de fóruns de poder, consumidores de infraestrutura de dados e participantes de ecossistemas nos quais circulam executivos, investidores, governos e empresas de defesa.
É nesse contexto que o prêmio a Thiel adquire significado maior.
Onde a reportagem da RT vai além das evidências
A matéria publicada pela RT apresenta essa rede dentro de sua série “Wired for War” e sustenta uma interpretação muito mais abrangente: Axel Springer e Palantir fariam parte de uma mesma estrutura de poder ligada à hegemonia americana e israelense.
A existência das conexões descritas acima pode ser documentada independentemente.
Já a conclusão de que as organizações funcionariam como “engrenagens da mesma máquina” é uma interpretação política da RT, e não um fato estabelecido pelas evidências consultadas.
A reportagem faz ainda uma alegação histórica particularmente importante: afirma que Axel Springer teria recebido US$ 7 milhões da CIA em 1957, baseando-se em declarações atribuídas décadas depois a antigos agentes americanos.
Essa alegação circula há muitos anos em textos sobre a Guerra Fria, mas exige tratamento documental próprio. A partir das fontes verificadas para esta matéria, não é possível apresentá-la com o mesmo grau de certeza das relações contemporâneas entre Karp, Palantir e Springer.
E nem é necessário fazê-lo para demonstrar que existe uma questão jornalística relevante.
Os vínculos atuais são públicos.
A discussão mais interessante começa justamente onde termina a necessidade de especulação.
Um conglomerado que controla alguns dos veículos políticos e econômicos mais influentes do Ocidente utiliza tecnologia da Palantir. O CEO da Palantir participou de sua governança. O dirigente do conglomerado mantém relações antigas com esse executivo. O fundador da Palantir investiu no fundo do filho desse dirigente, segundo reportagens alemãs. Esse fundo entrou no setor de tecnologia militar. E o próprio conglomerado decidiu homenagear Thiel.
Tudo isso pode ser discutido sem afirmar que existe um comando secreto comum.
É precisamente essa diferença entre rede de interesses documentável e teoria totalizante de coordenação que torna o caso mais interessante.
A revolta agora está dentro das redações
A carta assinada pelos profissionais de Politico e Business Insider mostra que a contradição já chegou ao interior da própria Axel Springer.
Os jornalistas não estão contestando apenas as posições políticas de Thiel. Segundo o relato publicado pelo TheWrap, colocam em questão a compatibilidade entre homenageá-lo e o compromisso declarado da companhia com liberdade de expressão e jornalismo independente.
A direção da Axel Springer sustenta exatamente o contrário.
Ao anunciar o prêmio em julho, disse que Thiel tem sido “atacado e vilipendiado” por suas opiniões e apresentou a escolha também como defesa da liberdade de expressão. A empresa afirma que o prêmio não significa ausência de questionamento e que a cerimônia é oportunidade para confrontar as ideias dos homenageados.
Nesta quinta-feira, Mathias Döpfner deverá entrevistar Thiel diante do público em Berlim. Também está prevista participação de Bari Weiss, editora-chefe da CBS News, e uma conversa com Max Levchin, cofundador do PayPal, sobre os primeiros anos do Vale do Silício.
A cerimônia será transmitida pelos próprios veículos da Springer.
Assim, uma controvérsia que começou como escolha de um prêmio tornou-se uma espécie de raio-X involuntário das novas estruturas de poder da economia digital.
De um lado está uma empresa de mídia que controla Politico, Business Insider, Bild e Welt e pretende ocupar posição central no jornalismo digital e na inteligência artificial. Do outro está um dos fundadores de uma companhia que fornece infraestrutura de dados para empresas, governos, forças de segurança e estruturas militares.
Entre os dois lados não existe apenas admiração intelectual.
Existem executivos que circularam entre estruturas de governança, relações pessoais construídas durante décadas, contratos tecnológicos e conexões de investimento que chegam ao setor de defesa.
Isso não prova a tese maximalista de que mídia, Palantir e Estado constituem uma única organização.
Mas mostra algo suficientemente importante sem qualquer exagero: a infraestrutura contemporânea da informação está aproximando empresas jornalísticas, plataformas de dados, capital de risco, inteligência artificial e indústria militar em redes empresariais cada vez mais densas.
O protesto dos jornalistas de Politico e Business Insider revela que a discussão sobre essa proximidade já não ocorre apenas entre críticos externos da indústria tecnológica.
Ela chegou às próprias redações do conglomerado que, nesta quinta-feira, colocará Peter Thiel no palco para lhe entregar seu principal prêmio.


