“Dormimos aeroviários e acordamos podadores de madeira”

Presidenta do Sindaero-CE celebra decisão histórica da Justiça que reconhece a representação dos aeroviários terceirizados e denuncia precarização, assédio e riscos à segurança operacional nos aeroportos

Uma decisão da Justiça do Trabalho do Ceará reconheceu o Sindicato dos Aeroviários do Estado do Ceará (Sindaero-CE) como o único e legítimo representante dos trabalhadores aeroviários terceirizados do estado. A sentença reafirma o princípio da unicidade sindical e encerra uma disputa que se arrasta há quase duas décadas. Para a categoria, trata-se de uma das mais importantes vitórias jurídicas de sua história.

O tema foi debatido no programa Democracia no Ar, apresentado por Sara Goes na TV Atitude Popular. Durante a entrevista, a presidenta do Sindaero-CE, Sônia Maria, classificou a decisão como um marco para trabalhadores que, segundo ela, sofreram perdas salariais, rebaixamento profissional e fragilização da representação sindical ao longo dos últimos anos.

“Dormimos aeroviários e acordamos podadores de madeira”, resumiu Sônia ao descrever o processo que retirou milhares de trabalhadores da representação tradicional da categoria e os vinculou a uma federação de segmentos diversos, como conservação, limpeza e manejo ambiental. Segundo ela, a mudança ocorreu sem consulta à base e provocou uma profunda descaracterização da profissão.

A dirigente afirma que a reorganização sindical teve consequências diretas sobre salários e condições de trabalho. De acordo com seu relato, trabalhadores que atuavam em atividades essenciais para o funcionamento dos aeroportos passaram a enfrentar redução de direitos, perda de poder de negociação e crescente precarização.

“Quando o teto salarial cai de R$ 1.600 para R$ 570, você destrói uma categoria. As empresas passaram a disputar contratos em cima dessa redução de custos e quem pagou a conta foi o trabalhador”, declarou.

O nascimento do Sindaero-CE, segundo Sônia, está ligado justamente à reação dos trabalhadores diante desse cenário. Ela recordou um episódio ocorrido no aeroporto de Fortaleza, quando um funcionário exausto teria sido humilhado por um gerente após adormecer durante uma jornada excessiva. O caso teria impulsionado a mobilização que resultou na criação da entidade sindical.

Ao comentar a recente vitória judicial, a presidenta destacou a atuação dos advogados Francisco Cipião da Costa, Marcos Paulo Maceno, Caio Santana Mascarenhas Gomes, Antônio José de Souza Gomes e Marcelo Ribeiro. Segundo ela, a equipe jurídica reuniu provas de irregularidades trabalhistas e sustentou a tese de que os aeroviários terceirizados pertencem à categoria profissional da aviação civil.

“Depois do registro sindical, essa é a nossa maior conquista. Ainda dá arrepio falar sobre isso”, afirmou.

Precarização e riscos operacionais

Além da disputa sindical, a entrevista abordou denúncias relacionadas às condições de trabalho no Aeroporto Internacional de Fortaleza. Sônia relatou situações envolvendo equipamentos sucateados, jornadas extenuantes, exposição a agentes insalubres e deficiência na manutenção de estruturas operacionais.

Segundo ela, os chamados trabalhadores de rampa, responsáveis pelo carregamento de aeronaves, movimentação de cargas, conexão de equipamentos, transporte de bagagens e apoio operacional em solo, constituem uma das categorias mais invisibilizadas da aviação brasileira.

“A aeronave não sai do chão sem o homem e a mulher de rampa. Eles fazem tudo acontecer entre o pouso e a decolagem”, destacou.

A sindicalista também associou a precarização da mão de obra terceirizada ao aumento dos riscos operacionais na aviação. Embora tenha evitado relacionar diretamente casos específicos a acidentes, afirmou que a redução de investimentos em pessoal e equipamentos compromete a segurança das operações.

“Acidente aéreo não acontece por acaso. Existe uma cadeia de fatores. Quando você precariza o trabalho, aumenta os riscos para todo mundo”, disse.

Banco de horas e resistência sindical

Outro tema abordado foi a tentativa de ampliação do banco de horas para trabalhadores do setor. Sônia relatou que empresas buscaram implantar um sistema que permitiria compensações em prazos mais longos, proposta que acabou rejeitada pelos trabalhadores.

Segundo ela, assembleias realizadas em diferentes estados registraram forte oposição da categoria. No Ceará, a rejeição teria alcançado unanimidade.

“O banco de horas nunca funciona a favor do trabalhador. A folga não vem quando ele precisa. Ela vem quando a empresa decide”, afirmou.

A dirigente também defendeu a retomada da organização coletiva e criticou o enfraquecimento dos sindicatos após as mudanças promovidas pela reforma trabalhista.

“Enquanto o trabalhador não voltar para o sindicato, as empresas continuarão fazendo o que quiserem. O sindicato existe para equilibrar uma relação que nunca foi equilibrada”, declarou.

“Ainda estamos aqui”

Ao encerrar a entrevista, Sônia definiu a decisão da Justiça do Trabalho como um símbolo de resistência para uma categoria que, segundo ela, enfrentou duas décadas de perdas e invisibilidade.

“Essa sentença é o nosso ‘Ainda estou aqui’. Ela prova que resistimos, que continuamos existindo e que não vamos abrir mão dos nossos direitos”, concluiu.

Assista à entrevista completa:
https://www.youtube.com/watch?v=cfeJTddsYz8

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