Tatiane Mendes Pinto defende educação crítica para compreender a desinformação, os algoritmos e as disputas políticas que antecedem as eleições de 2026
A quantidade de notícias recebidas ao longo do dia não determina se uma pessoa está bem informada. Para compreender o que circula nas redes sociais, nos veículos jornalísticos e nos grupos de mensagens, é necessário perguntar quem produziu o conteúdo, em qual contexto, por quais meios ele foi distribuído e quais interesses podem ter influenciado sua circulação. A avaliação é da jornalista, professora e pesquisadora Tatiane Mendes Pinto.
Em entrevista ao programa Trilhas da Soberania, exibido pelo Código Aberto em 3 de setembro, Tatiane discutiu letramento midiático e informacional, desinformação, educação e soberania. A conversa foi conduzida pelo pesquisador Reynaldo Aragon, com a participação de Ludmila Cindra, da Rede Lawfare Nunca Mais, e do jornalista e advogado Luís Delcides, responsável pelo canal Satélite de Ideias.
Doutora em Comunicação Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a UERJ, e mestre em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense, a UFF, Tatiane desenvolve pesquisas nas áreas de comunicação, educação, audiovisual e participação social. Ela também integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais, o INCT-DSI, e participa de projetos voltados ao enfrentamento da desinformação científica.
Realizado a cerca de um mês das eleições de 2026, o programa examinou como as narrativas políticas são construídas e distribuídas em um ambiente no qual plataformas digitais, sistemas de recomendação e conteúdos produzidos com inteligência artificial passaram a interferir diretamente na formação das opiniões.
Eleições também são disputas simbólicas
Ao analisar a influência das produções culturais sobre a política, Tatiane afirmou que uma eleição não pode ser compreendida apenas a partir das propostas apresentadas pelas candidaturas. Imagens, emoções e personagens também participam da disputa.
“Não dá para falar de eleições sem falar de simbólico. Não dá para falar de eleições sem falar de afeto, sem falar de emoções”, declarou.
A pesquisadora comparou a organização das narrativas políticas à construção de uma obra cinematográfica. Assim como ocorre em filmes, o noticiário pode distribuir papéis, determinar quem aparece como responsável por um problema e definir quem receberá o espaço para falar.
“A agenda da imprensa tem personagens e tem lugares nos quais a gente vai colocar quem é o vilão e quem é o herói, quem vai falar e quem não vai ter direito à fala”, explicou.
Essa organização não depende apenas do conteúdo explícito de uma notícia. O enquadramento, a seleção das imagens, a ordem das informações e a repetição de determinadas abordagens também interferem na maneira como os acontecimentos são percebidos.
Tatiane lembrou que o cinema norte-americano recorreu durante décadas a padrões visuais para apresentar heróis e inimigos. A nacionalidade, a cor da pele, a iluminação e a posição da câmera ajudavam a informar ao espectador quem deveria inspirar confiança e quem representaria uma ameaça.
Ao transportar essa leitura para a política, a pesquisadora afirmou que as campanhas e o noticiário eleitoral frequentemente dedicam mais atenção à imagem dos candidatos do que aos projetos apresentados por eles.
“Na eleição não é diferente. Não se trata daquilo que você vai fazer. Falamos muito pouco de projeto político. A gente fala muito de quem é esse personagem, como ele se apresenta e como eu vou fazer ele aparecer”, disse.
Excesso de conteúdo não significa informação de qualidade
Questionada sobre como evitar a alienação diante do grande volume de notícias, Tatiane recomendou que as pessoas não confundam quantidade com qualidade. Ferramentas digitais podem reunir centenas de conteúdos em poucos minutos, mas essa seleção não oferece, por si só, uma compreensão dos fatos.
“A informação não vai ser pela quantidade. Vai ser pela qualidade e pela capacidade que você vai ter de checar não só a falsidade e a veracidade, mas o contexto da produção dessa notícia”, afirmou.
Para a pesquisadora, a leitura crítica precisa ir além da identificação de uma mentira direta. Uma informação verdadeira também pode ser usada para desinformar quando aparece isolada de seu contexto, quando omite respostas importantes ou quando é apresentada de maneira a favorecer uma interpretação previamente definida.
Ela citou como exemplo o noticiário sobre o Banco Master e as mensagens atribuídas a pessoas investigadas. Segundo Tatiane, uma reportagem pode destacar quem enviou uma mensagem sem informar se houve resposta e qual foi o conteúdo dessa eventual resposta. A ausência desses elementos modifica a percepção do leitor.
“Você sabe quem falou, mas não sabe o que foi respondido. E você constrói todo um conjunto de quem é o vilão e quem é o mocinho sem entender o contexto em que estava sendo feita essa discussão”, observou.
Tatiane deixou claro que a cobrança pela apresentação do contexto não representa uma defesa automática de qualquer autoridade mencionada nas reportagens. Trata-se de uma exigência elementar do trabalho jornalístico.
“Eu não estou aqui defendendo Alexandre de Moraes de modo nenhum. Estou falando de um contexto político e midiático que a gente deve analisar: cadê a resposta, como foi respondido, por onde circulou?”, questionou.
A pesquisadora considera que o jornalismo precisa recuperar perguntas básicas da apuração e acrescentar uma análise sobre a intenção e as condições de distribuição do conteúdo.
“É menos sobre as informações e mais sobre as perguntas que a gente vai fazer. Quem são essas pessoas? Que cargos elas ocupam? Qual é o contexto? A quem interessa esse discurso estar mais visível?”, afirmou.
Algoritmos interferem na visibilidade das notícias
A circulação das informações não depende exclusivamente das decisões de jornalistas e empresas de comunicação. Plataformas digitais controlam sistemas que selecionam o que será mostrado, para quem o conteúdo será recomendado e quantas vezes ele aparecerá.
Esses sistemas são apresentados como processos automáticos, mas funcionam de acordo com regras definidas por empresas privadas. O modelo de negócios baseado no engajamento favorece conteúdos capazes de provocar reações e manter o usuário conectado por mais tempo.
Tatiane explicou que o alcance de uma informação deve ser analisado a partir da estrutura que financia e impulsiona sua circulação. A quantidade de visualizações isolada não revela como determinado assunto conquistou espaço no debate público.
“Não é mais quantas pessoas estão assistindo. É que tipo de engajamento e que tipo de estrutura está fazendo circular essas informações”, disse.
O funcionamento das plataformas também cria experiências diferentes para cada usuário. Pessoas que pesquisam o mesmo assunto podem receber respostas distintas conforme o histórico de navegação, a localização, os perfis acompanhados e os conteúdos com os quais costumam interagir.
Essa personalização contribui para a formação das chamadas bolhas informativas. Dentro delas, determinadas crenças são confirmadas repetidamente, enquanto informações divergentes podem desaparecer do campo de visão do usuário.
“A gente precisa entender como essa informação chega. Ela chega para mim, chega para outra pessoa da mesma maneira? Não chega. Esse conteúdo vai ter um peso de acordo com quem vai distribuir”, avaliou Tatiane.
Acesso limitado impede a verificação
O debate sobre educação midiática também precisa considerar as desigualdades de acesso à internet. Tatiane recordou uma reportagem produzida durante a pandemia sobre a hesitação vacinal entre populações indígenas.
Em alguns territórios, os moradores conseguiam receber mensagens pelo WhatsApp porque os planos de telefonia permitiam utilizar o aplicativo sem descontar o consumo do pacote de dados. Essas mesmas pessoas, contudo, não conseguiam abrir páginas de pesquisa para verificar as informações recebidas.
A situação demonstra que recomendar uma busca na internet nem sempre oferece uma resposta adequada. A capacidade de checagem depende das condições econômicas, da conexão disponível e do tipo de acesso fornecido pelas empresas de telefonia.
“A gente fala muito sobre a estrutura de checagem, mas não pergunta em que contexto essa informação chega”, afirmou.
Para Tatiane, uma política pública precisa reconhecer que a recepção das notícias varia entre os diferentes grupos sociais e territórios. Sem essa análise, campanhas contra a desinformação podem responsabilizar individualmente pessoas que não dispõem dos recursos necessários para verificar o conteúdo.
Educação midiática não pode ficar isolada
A inclusão de uma disciplina de educação midiática na grade escolar seria importante, segundo Tatiane, mas insuficiente para enfrentar um fenômeno que atravessa diferentes áreas da vida cotidiana.
A desinformação interfere na vacinação, nas decisões sobre saúde, no comportamento político e nas relações pessoais. Por esse motivo, o tema não deveria ser tratado apenas em uma aula específica ou em projetos realizados fora das demais disciplinas.
“A matéria é importante, é fundamental, mas não dá conta sozinha. A desinformação é um fenômeno multifacetado, não é um fato isolado”, explicou.
Um professor de Ciências, por exemplo, pode encontrar estudantes convencidos de que a Terra é plana ou de que vacinas não funcionam. O conteúdo falso recebido fora da escola passa a interferir diretamente na aprendizagem dentro da sala de aula.
Nesse cenário, a educação midiática precisa estar presente na formação dos professores, nas políticas de saúde, nos projetos científicos e nas discussões sobre cidadania. A escola também deve oferecer instrumentos para que crianças e adolescentes compreendam por que determinados conteúdos aparecem em suas telas.
“Não tem como desvincular a educação das mídias. Não tem como desvincular a educação das plataformas, principalmente numa perspectiva crítica”, afirmou Tatiane.
A pesquisadora defendeu que o debate seja incorporado às políticas públicas de modo permanente. Ações pontuais de checagem podem corrigir uma informação específica, mas não substituem uma formação capaz de identificar técnicas de persuasão, interesses econômicos e mecanismos de recomendação.
“Enfrentamento à desinformação e educação para as mídias, com as mídias e pelas mídias são o básico. Senão, isso vai afetar a vacinação, a segurança, o transporte e, principalmente, a saúde”, alertou.
Desinformação científica chega às escolas
A trajetória acadêmica de Tatiane está relacionada à aproximação entre pesquisa e educação básica. A jornalista relatou experiências em escolas públicas, cineclubes, oficinas de audiovisual e projetos de divulgação científica realizados em municípios do Rio de Janeiro e da Bahia.
Entre as iniciativas citadas está o Bora Checar, desenvolvido pela Fiocruz Bahia. Nas oficinas, estudantes analisaram como uma informação falsa é construída, quais recursos emocionais são utilizados para aumentar sua capacidade de convencimento e de que modo as crenças anteriores influenciam a aceitação do conteúdo.
Tatiane afirmou que o pesquisador não deve permanecer distante da sala de aula e das pessoas afetadas pelos fenômenos que estuda.
“Eu não consigo conceber a ciência dissociada da sala de aula. Para mim, o pesquisador tem que estar na sala de aula também”, declarou.
Segundo ela, pesquisadores que permanecem restritos aos espaços acadêmicos perdem parte da relação entre ciência e sociedade. O contato com estudantes permite observar dúvidas, dificuldades de acesso e formas de consumo de informação que não aparecem integralmente nos relatórios e bancos de dados.
Polarização e viés de confirmação
A pesquisadora também analisou o papel do viés de confirmação nas disputas eleitorais. O conceito descreve a tendência de aceitar com mais facilidade conteúdos compatíveis com crenças anteriores e rejeitar informações que as desafiam.
Em ambientes polarizados, esse mecanismo favorece narrativas que apresentam figuras públicas apenas como heróis ou vilões. A avaliação dos fatos passa a depender da identidade política atribuída à pessoa envolvida.
“Acho que o viés de confirmação é o que vai sustentar essa polarização. A gente precisa parar de entender que a polarização é um efeito colateral. Ela é a intenção”, afirmou Tatiane.
Na sua avaliação, a disputa não ocorre apenas pelo resultado eleitoral. Grupos políticos também concorrem pela legitimidade de suas interpretações e pela capacidade de estabelecer os assuntos que dominarão o debate.
O letramento midiático, portanto, deve ajudar o cidadão a reconhecer quando sua própria preferência política está interferindo na avaliação das informações. A concordância com uma denúncia não elimina a necessidade de verificar documentos, ouvir as pessoas envolvidas e compreender o contexto.
Diversidade depende de condições para produzir
Na parte final do programa, Tatiane foi questionada sobre a importância do contato com produções culturais de diferentes países e grupos sociais. Ela concordou que a diversidade do consumo pode ampliar referências, mas destacou que o problema envolve também quem tem condições de produzir e distribuir conteúdos.
“Eu acredito muito nisso, mas acredito que não é só no consumo. É na produção, é na capacidade de produzir”, disse.
A pesquisadora citou barreiras enfrentadas pela ciência brasileira, como o domínio de plataformas estrangeiras, a concentração das bases de dados e as limitações impostas pelo idioma. Problemas semelhantes aparecem na circulação de filmes, fotografias e outras produções culturais.
Tatiane chamou a atenção para trabalhos realizados por cineastas e fotógrafos indígenas. Em vez de apresentar as populações indígenas somente como objetos observados por outras pessoas, ela defendeu que seus próprios integrantes sejam reconhecidos como autores.
“Se você tem fotógrafos indígenas, se você tem cineastas indígenas, e tem trabalhos maravilhosos, por que isso não está circulando? Por que não se criam condições para que essas pessoas produzam esse conhecimento e essa expressão artística?”, perguntou.
Segundo Tatiane, ampliar a diversidade significa modificar as condições de produção e os caminhos de circulação. Não basta reservar um espaço eventual ou apresentar uma obra como algo exótico. É necessário assegurar que autores de diferentes origens participem regularmente da produção científica, cultural e jornalística.
A entrevista apontou que o enfrentamento da desinformação não será alcançado apenas com ferramentas de verificação ou recomendações individuais. A resposta passa pela formação crítica, pelo acesso à internet, pela responsabilização das plataformas e pelo fortalecimento da relação entre universidade, escola e sociedade.
Referências
Cinema vivido: raça, classe e sexo nas telas, bell hooks, 2023. A edição brasileira foi publicada pela Editora Elefante. Editora Elefante
Número zero, Umberto Eco, 2015. Romance citado durante a entrevista na discussão sobre jornalismo e manipulação do noticiário. Intercom
O pacto da branquitude, Cida Bento, 2022. Obra mencionada no debate sobre padrões dominantes e desigualdade racial. Companhia das Letras
📺 Código Aberto
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/@TVCodigoAberto
📲 Pix: codigoaberto.net@gmail.com
🌐 https://www.codigoaberto.net/
✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O


