Da Redação
Keiko Fujimori foi eleita presidente do Peru e levará de volta ao Palácio Pizarro o sobrenome mais controverso da política peruana das últimas décadas. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, ela conquistou a Presidência após uma campanha marcada pela polarização, pelo desgaste das forças progressistas e pelo avanço de um discurso centrado em segurança pública, combate ao crime e recuperação econômica.
A vitória encerra um longo ciclo de instabilidade institucional que transformou o Peru em um dos países politicamente mais turbulentos da América Latina. Nos últimos anos, presidentes foram destituídos, presos, investigados ou forçados a deixar o cargo em meio a sucessivas crises entre Executivo, Congresso e Judiciário.
Keiko disputou diversas eleições presidenciais desde 2011. Após derrotas consecutivas, finalmente alcançou o cargo mais importante do país, consolidando o retorno do fujimorismo ao comando do Estado peruano.
O peso do sobrenome Fujimori
A eleição recoloca no centro da política peruana um legado que continua dividindo o país.
Alberto Fujimori governou o Peru entre 1990 e 2000. Seu governo é lembrado por parte da população pela derrota da guerrilha do Sendero Luminoso e pelo combate à hiperinflação que devastava a economia peruana.
Ao mesmo tempo, sua gestão ficou marcada por denúncias de corrupção, violações de direitos humanos, perseguição a opositores, controle de meios de comunicação e práticas autoritárias que culminaram na queda do regime.
Condenado por crimes relacionados a violações de direitos humanos e corrupção, Fujimori tornou-se uma das figuras mais controversas da história latino-americana recente.
A vitória de Keiko demonstra que uma parcela importante do eleitorado peruano continua associando o sobrenome Fujimori à estabilidade e à segurança, mesmo diante desse histórico.
América Latina vive novo avanço conservador
A eleição peruana amplia uma tendência observada em diversos países da região.
Nos últimos anos, governos conservadores ou de direita chegaram ao poder em países como Argentina, Chile, Equador e Paraguai. Recentemente, a Colômbia também elegeu o ultradireitista Abelardo de la Espriella.
O avanço dessas forças ocorre em um contexto de insatisfação popular com o crescimento econômico insuficiente, a violência urbana, a corrupção e a dificuldade dos governos em responder às demandas sociais.
Ao mesmo tempo, a experiência recente da região mostra que a vitória eleitoral da direita não eliminou problemas estruturais.
Na Argentina de Javier Milei, o ajuste econômico foi acompanhado por deterioração social e aumento das dificuldades enfrentadas por setores populares. Na Bolívia, o governo Rodrigo Paz enfrenta uma grave crise política e econômica marcada por semanas de bloqueios e protestos. No Equador, a violência ligada ao narcotráfico continua sendo um dos principais desafios do governo Daniel Noboa.
O Peru após anos de instabilidade
A eleição de Keiko ocorre após um período particularmente turbulento da política peruana.
Desde 2016, o país acumulou uma sucessão de crises institucionais que envolveram impeachments, renúncias, dissolução do Congresso, protestos de massa e confrontos entre diferentes poderes da República.
A destituição e prisão do ex-presidente Pedro Castillo, em 2022, aprofundou a polarização política e abriu um ciclo de forte instabilidade social, especialmente nas regiões mais pobres e nas áreas indígenas do país.
A nova presidente assume prometendo estabilidade, crescimento econômico e combate ao crime organizado. Seus adversários, porém, alertam para os riscos de concentração de poder e para a possibilidade de retorno de práticas associadas ao antigo fujimorismo.
Impactos para a região
A vitória de Keiko Fujimori fortalece o campo conservador latino-americano e deverá ser comemorada por lideranças de direita em diversos países, incluindo aliados do bolsonarismo no Brasil.
Ao mesmo tempo, o resultado amplia o debate sobre os rumos políticos da América Latina, que vive mais um ciclo de alternância entre governos progressistas e conservadores.
O desafio da nova presidente será transformar a vitória eleitoral em estabilidade política. Nos últimos anos, o Peru demonstrou que conquistar a Presidência é apenas o primeiro passo. Governar um país profundamente dividido continua sendo uma tarefa muito mais difícil.
A maré da extrema direita na América Latina
A vitória de Keiko Fujimori não ocorre de forma isolada. Ela se soma a uma sequência de avanços eleitorais da direita e da extrema direita em diferentes países latino-americanos nos últimos anos.
Na Argentina, o presidente Javier Milei chegou ao poder prometendo um choque liberal sem precedentes. O resultado tem sido uma profunda retração do consumo, aumento da pobreza e dificuldades crescentes para amplos setores da população. Apesar da desaceleração da inflação, a situação social continua sendo alvo de intensos debates dentro do país.
No Chile, a eleição de José Antonio Kast representou a chegada ao poder de uma das lideranças mais conservadoras da política sul-americana. Herdeiro político do pinochetismo, Kast construiu sua campanha em torno de temas como imigração, segurança pública e combate à esquerda.
Na Colômbia, o ultradireitista Abelardo de la Espriella venceu uma disputa extremamente acirrada. Aliado de setores conservadores e crítico dos governos progressistas da região, ele recebeu rapidamente manifestações de apoio de lideranças bolsonaristas brasileiras, entre elas Flávio Bolsonaro.
Já em El Salvador, Nayib Bukele consolidou um modelo que combina enorme popularidade com crescente concentração de poder. Seu governo é elogiado por reduzir drasticamente os índices de violência das gangues, mas também recebe críticas de organismos internacionais por restrições a garantias civis e pelo fortalecimento do poder presidencial.
O avanço dessas lideranças tem produzido um novo mapa político na região. Em comum, elas costumam defender políticas de endurecimento penal, fortalecimento das forças de segurança, redução do papel do Estado na economia e forte oposição aos governos progressistas.
Ao mesmo tempo, a experiência desses governos mostra resultados bastante distintos. Enquanto Bukele é frequentemente citado por apoiadores como exemplo de sucesso no combate à violência, a Argentina enfrenta dificuldades sociais crescentes, a Colômbia inicia um período de forte polarização política e o Chile ainda vive disputas intensas sobre o rumo econômico e institucional do país.
A eleição de Keiko Fujimori amplia esse movimento e reforça a percepção de que a América Latina atravessa mais um ciclo de fortalecimento das forças conservadoras. A questão que permanece em aberto é se essas vitórias eleitorais conseguirão produzir estabilidade política e melhora das condições de vida da população ou se aprofundarão tensões já presentes em diversos países da região.


