Víctor Cairo Palomo denuncia agravamento do cerco energético, alerta para impactos na saúde e afirma que pressão dos Estados Unidos busca retirar de Cuba sua independência e soberania
Da Redação
“É um crime silencioso contra toda uma nação.” A definição é do embaixador de Cuba no Brasil, Víctor Cairo Palomo, ao descrever o agravamento das condições enfrentadas pela população cubana sob o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e o que o diplomata classifica como um cerco energético intensificado nos últimos meses.
Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, o embaixador afirmou que Cuba enfrenta uma situação econômica crítica, marcada por longos cortes de eletricidade, dificuldades na prestação de serviços básicos e impactos crescentes sobre a saúde da população. Víctor Cairo Palomo assumiu a Embaixada de Cuba no Brasil em março de 2026, depois de representar o país no Panamá entre 2022 e 2025.
“A situação é muito complexa do ponto de vista econômico. O povo cubano está sofrendo o impacto do bloqueio por mais de 60 anos, mas, nos últimos seis ou sete meses, o governo de Cuba e o povo cubano estão sofrendo um cerco energético que reforça muito mais o impacto do bloqueio contra nossa população”, afirmou.
A entrevista teve a participação da médica de Família e Comunidade Taís Matos, formada pela Escuela Latinoamericana de Medicina, em Cuba. Especialista pela Universidade Federal do Ceará e pela Fiocruz, ela analisou os efeitos das restrições econômicas sobre o sistema de saúde cubano e relatou experiências vividas durante sua formação no país.
Cortes de energia atingem hospitais e serviços básicos
Segundo o embaixador, a população cubana tem enfrentado interrupções de eletricidade que chegam a ultrapassar 18 horas. Ele relatou que o sistema energético nacional sofreu uma desconexão total às vésperas da entrevista.
Palomo relacionou a crise energética ao aumento das restrições externas e afirmou que as consequências já podem ser observadas em áreas fundamentais para a população.
“Cuba já vive uma situação praticamente de guerra. A população enfrenta apagões, cortes elétricos de mais de 18 horas”, disse.
Para o diplomata, a política adotada contra a ilha não pode ser tratada como uma situação normal das relações internacionais.
“É importante que a população brasileira compreenda que não é normal que um povo completo seja bloqueado, que um povo completo fique sem energia, que um povo completo tenha dificuldades para ter alimentos, para produzir alimentos e para ter acesso a remédios”, afirmou.
O embaixador sustentou que o objetivo das pressões contra Cuba é político e está diretamente relacionado à soberania do país.
“O objetivo fundamental é retirar a independência do povo cubano. O governo dos Estados Unidos não quer aceitar que Cuba tenha um sistema político alternativo, um sistema econômico e social alternativo ao poder que os Estados Unidos querem impor ao restante da América Latina e do Caribe”, declarou.
Embaixador alerta para impacto sobre a mortalidade infantil
Durante a entrevista, Víctor Cairo Palomo apresentou dados que, segundo ele, mostram a deterioração das condições de saúde provocada pelo agravamento do cerco energético.
O diplomata afirmou que a mortalidade infantil, historicamente um dos indicadores mais destacados do sistema público de saúde cubano, sofreu uma forte elevação. Ele também apontou redução da capacidade de tratamento de crianças com câncer.
“Em apenas um ano, e mais intensamente nos últimos sete meses, a taxa de mortalidade infantil de Cuba passou de 4 para 9 por mil nascidos vivos”, declarou.
Segundo Palomo, os efeitos não ficam restritos ao atendimento hospitalar. A falta de energia interfere no funcionamento de escolas, no transporte público e em diferentes serviços essenciais.
“Estamos enfrentando praticamente uma situação de crise humanitária. Ela não é mais intensa porque o governo de Cuba tem participação popular, condições de decisão política e avança com resistência criativa”, afirmou.
Taís Matos observou que a mortalidade infantil e a mortalidade materna são indicadores fundamentais para avaliar as condições gerais de um sistema de saúde. Para ela, as restrições impostas ao país precisam ser consideradas na análise sobre qualquer deterioração desses índices.
“Quando esses dados começam a ser impactados na saúde, eles vão ter argumentos para depois dizer que a saúde em Cuba não vai bem. Mas por que não vai bem? Existe toda uma questão por trás, que é o bloqueio econômico”, afirmou.
A médica recordou sua chegada a Cuba, em 2006, período em que o país desenvolvia políticas para modernizar equipamentos domésticos e reduzir o consumo energético.
“Os avanços tecnológicos que uma ilha bloqueada tinha eram impressionantes”, disse.
“É uma ditadura mundial e o mundo tem que parar isso”
Ao analisar a política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump, Víctor Cairo Palomo afirmou que a ameaça contra Cuba faz parte de uma política mais ampla de imposição internacional.
O embaixador citou como características da atuação de Trump o uso recorrente da mentira e da intimidação para impor decisões políticas. Em sua avaliação, essas práticas ultrapassam a política doméstica dos Estados Unidos e atingem diretamente as relações internacionais.
“Sem dúvida, Trump é um ditador na comunidade internacional. É um ditador porque tenta aplicar uma política de força contra o restante dos países para impor interesses”, afirmou.
Palomo também acusou o governo estadunidense de negar publicamente a existência do bloqueio enquanto ameaça com sanções empresas, governos e instituições que pretendem estabelecer relações econômicas com Cuba.
“Se você quer fazer um negócio com Cuba, se você quer enviar petróleo a Cuba, se você quer ter relações com Cuba, você não pode fazer isso porque é sancionado pelo governo dos Estados Unidos”, disse.
Para o embaixador, as ameaças de intervenções militares contra outros países revelam uma deterioração grave das relações internacionais.
“Não é legal que um presidente dos Estados Unidos, ou de qualquer país, todos os dias diga à imprensa ou à comunidade internacional: eu vou atacar um país, vou atacar outro país, vou agredir outro país”, declarou.
O diplomata afirmou ainda que Cuba precisa se preparar diante das ameaças de intervenção militar.
“Nós estamos falando hoje de como preparar o povo cubano para defender-se de uma guerra contra Cuba, de uma intervenção militar”, disse.
Na avaliação de Palomo, a política de força também representa uma ameaça para outros países latino-americanos.
“O mesmo ameaça Cuba, ameaça a Groenlândia, ameaça o Panamá ou ameaça países grandes como o Brasil. A situação é muito delicada”, afirmou.
Informação sobre Cuba ainda chega de forma limitada ao Brasil
Questionado sobre como ampliar a compreensão da sociedade brasileira sobre a situação cubana, o embaixador destacou a necessidade de fortalecer redes de comunicação e ampliar o debate para além dos setores que historicamente mantêm relações de solidariedade com Cuba.
“A maior parte da população brasileira não tem ideia do que está acontecendo em Cuba”, afirmou.
Segundo ele, grande parte das informações sobre o país circula por plataformas digitais controladas por empresas dos Estados Unidos. Diante disso, o embaixador defendeu a ampliação do diálogo com estudantes, parlamentares, sindicatos e movimentos sociais.
“É muito importante que a população cubana e a população brasileira estejam ligadas, conectadas, e que programas como este se repitam em muitos níveis para poder falar mais sobre Cuba e dar muita informação”, disse.
Para Palomo, a situação da ilha não deve ser tratada como uma questão restrita aos cubanos.
“Defender Cuba hoje é defender Brasília. É o mesmo problema, o problema de atacar a soberania dos povos e retirar a soberania dos países”, afirmou.
O embaixador defendeu ainda que a questão cubana seja debatida em espaços políticos e sociais mais amplos.
“Não é uma bolha de esquerdas ou de progressistas. Temos que levar a mensagem a outros meios e converter o tema de Cuba em parte da agenda de discussão social de nossos povos”, declarou.
Cuba antes e depois da Revolução
Durante o programa, Taís Matos defendeu que a discussão sobre o bloqueio seja acompanhada por um conhecimento mais amplo da história cubana e das transformações sociais ocorridas depois da Revolução de 1959.
“A gente precisa divulgar para as pessoas o que era Cuba antes da Revolução, porque as pessoas não conhecem a história de Cuba”, afirmou.
A médica destacou a campanha de alfabetização e os avanços nas áreas de educação e saúde. Segundo ela, o conhecimento da trajetória anterior à Revolução ajuda a compreender por que a sociedade cubana mantém resistência às pressões externas mesmo em períodos de grave dificuldade econômica.
Taís também lembrou o chamado Período Especial, iniciado após a dissolução da União Soviética e a perda de importantes relações econômicas para Cuba. A crise provocou escassez de alimentos, combustíveis e outros produtos essenciais.
“Esse povo resistiu. O povo cubano não é um povo que se entrega fácil”, afirmou.
Ela citou ainda o desenvolvimento de cinco vacinas cubanas contra a Covid-19 durante a pandemia como exemplo da capacidade científica preservada pelo país apesar das dificuldades econômicas.
Educação, saúde e segurança no cotidiano cubano
Ao relatar sua experiência de formação em Cuba, Taís destacou aspectos do cotidiano que, segundo ela, contrastam com a imagem frequentemente apresentada sobre o país.
A médica contou que sua mãe se surpreendeu com a possibilidade de duas mulheres caminharem à noite pelas ruas de Camagüey sem o temor cotidiano da violência.
“Minha mãe foi para minha formatura. Uma coisa que a impactou muito foi a segurança em Cuba”, relatou.
Taís também destacou o funcionamento das escolas cubanas em período integral e a existência de políticas públicas voltadas à infância.
“É um país de cuidado com as crianças”, afirmou.
Outro aspecto abordado foi a participação política nos bairros por meio dos Comitês de Defesa da Revolução, os CDRs. Segundo Taís, essas organizações têm papel na discussão de questões locais e na participação comunitária.
“Tudo que vai ser decidido no bairro é discutido nos Comitês de Defesa da Revolução”, explicou.
A médica defendeu que o funcionamento das instituições cubanas seja mais conhecido no Brasil antes da reprodução de avaliações baseadas apenas nos parâmetros políticos dos Estados Unidos e de outros países.
“Hoje é Cuba, mas amanhã pode ser o nosso país”
Ao se despedir do programa, Víctor Cairo Palomo reafirmou a disposição da representação diplomática cubana para ampliar o diálogo com a sociedade brasileira.
“Cuba lutará e seguirá lutando. Até a vitória sempre”, declarou.
Taís Matos, que permaneceu no programa após a saída do embaixador, reforçou a necessidade de solidariedade internacional e de participação em campanhas de apoio à população cubana.
“Cuba merece o nosso apoio, porque hoje é Cuba, mas amanhã pode ser o nosso país também. O imperialismo não dá trégua para ninguém”, afirmou.
A entrevista colocou no centro do debate os efeitos concretos das restrições econômicas sobre a vida cotidiana da população cubana e a preocupação do governo da ilha diante do aumento das ameaças externas. Ao longo do programa, Palomo insistiu que o debate sobre Cuba está diretamente ligado à soberania dos países latino-americanos e ao direito de cada sociedade decidir seus próprios caminhos políticos e econômicos.
Referências
Medo: Trump na Casa Branca
Autor: Bob Woodward
Ano: 2018
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