“Elas não vão ao debate para discutir ideias, vão tentar destruir a candidatura Lula”, afirma Alberto Mendes

Historiador analisa a reorganização da extrema direita em 2026, compara os atos de Lula e Flávio Bolsonaro e questiona a utilidade dos debates no primeiro turno

Da Redação

A multiplicação de candidaturas ligadas à direita nas eleições de 2026 não representa necessariamente uma diversidade de projetos para o Brasil. Parte desses nomes pode atuar para ampliar a circulação de uma mesma agenda política, cercar o Presidente Lula durante a campanha e manter a extrema direita mobilizada mesmo diante das dificuldades eleitorais de Flávio Bolsonaro.

A avaliação foi apresentada pelo historiador e militante sindical Alberto Mendes durante o programa Café com Democracia, transmitido pela Rádio e TV Atitude Popular na quarta-feira (19). Em entrevista ao apresentador Luiz Regadas, o convidado analisou o início oficial da campanha, comparou as mobilizações realizadas no ABC Paulista e em Copacabana e discutiu a presença de Pablo Marçal, Renan Santos e Romeu Zema na disputa presidencial.

Para Alberto, a divisão entre direita e esquerda permanece útil para compreender a política brasileira, embora as duas categorias tenham sofrido mudanças ao longo do tempo. O historiador lembrou que os termos se popularizaram durante a Revolução Francesa, a partir da posição ocupada pelos diferentes grupos no espaço parlamentar.

Ao longo dos séculos seguintes, a direita passou a ser associada ao conservadorismo político e ao liberalismo econômico. A esquerda, especialmente depois das formulações de Karl Marx e Friedrich Engels e da Revolução Russa de 1917, foi relacionada às tradições socialistas, comunistas, democráticas e populares.

A extrema direita contemporânea, entretanto, teria ampliado deliberadamente o conceito de esquerda para classificar como comunistas até mesmo setores liberais que fazem oposição ao autoritarismo.

“A extrema direita alargou o conceito de esquerda para se favorecer ideologicamente e angariar votos. Ela colocou até os liberais como esquerda e como comunistas”, explicou.

Esse deslocamento permite que a extrema direita apresente qualquer forma de regulação econômica, proteção social ou defesa das instituições como ameaça revolucionária. Na prática, o rótulo deixa de descrever uma posição política e passa a funcionar como instrumento de intimidação.

Flávio Bolsonaro representa a continuidade da extrema direita

Alberto definiu a candidatura de Flávio Bolsonaro como uma expressão da extrema direita brasileira e uma tentativa de preservar o grupo organizado em torno de Jair Bolsonaro.

“Não há dúvida de que é uma candidatura que nasceu da construção de um movimento extremista”, afirmou.

Segundo o historiador, essa força cresceu a partir das crises econômicas, da perda de legitimidade dos partidos tradicionais e da insatisfação acumulada em diferentes setores da sociedade. A partir de 2013, uma combinação de protestos, conflitos institucionais e campanhas de deslegitimação criou as condições para o avanço de posições autoritárias.

Alberto relacionou esse processo ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e à eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Para ele, o afastamento da presidenta envolveu setores empresariais, grandes veículos de comunicação, representantes do Judiciário e forças políticas presentes no Congresso Nacional.

O historiador observou que esse processo possui diferenças importantes em relação ao golpe de 1964, embora identifique a participação de grupos econômicos e institucionais em ambos os períodos.

A candidatura de Flávio procura manter viva essa base política após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022. Mesmo sem apresentar um programa inteiramente novo, ela permite que o grupo continue ocupando espaço público, elegendo representantes e influenciando o debate nacional.

“Eles precisam manter essa narrativa para continuar como opção da extrema direita”, disse Alberto.

Crise econômica e radicalização política

Para explicar a relação entre crise e autoritarismo, Alberto recorreu aos estudos de Rui Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos. Os pesquisadores se dedicaram à análise da dependência econômica latino-americana e das limitações enfrentadas pelos países periféricos no sistema capitalista internacional.

O historiador destacou o livro Socialismo ou fascismo, de Theotonio dos Santos, que examina os caminhos políticos abertos durante períodos de crise profunda. Nesses momentos, segundo a interpretação apresentada pelo entrevistado, o enfraquecimento das instituições e o aumento das desigualdades podem favorecer tanto saídas baseadas na proteção social quanto movimentos autoritários.

Alberto também mencionou a crise de 1929 e a crise financeira de 2008 para argumentar que governos defensores do liberalismo recorrem ao Estado quando bancos e empresas enfrentam risco de colapso.

“Os liberais criticam o Estado, mas, quando se veem encurralados, não têm dúvida em utilizar os meios que criticaram”, afirmou.

Na crise de 2008, governos de diferentes países utilizaram recursos públicos para socorrer instituições financeiras. Para o entrevistado, esse comportamento demonstra que a oposição à atuação estatal é aplicada com maior rigor quando estão em discussão políticas destinadas aos trabalhadores e às populações de baixa renda.

Uma candidatura inserida num movimento internacional

A presença da extrema direita no Brasil também foi relacionada por Alberto a um processo internacional. O historiador apontou a proximidade do bolsonarismo com Donald Trump e criticou as tentativas de obter apoio político nos Estados Unidos.

A busca por auxílio estrangeiro seria, em sua avaliação, contraditória com o nacionalismo utilizado pela direita em seus discursos. Enquanto se apresenta como defensora da pátria, essa força política procuraria pressionar o governo brasileiro por meio de autoridades e instituições norte-americanas.

“A candidatura obedece a uma lógica internacional. Eles foram pedir ajuda àquele que está destruindo o mundo, Donald Trump, para tentar interferir na vida política brasileira”, declarou.

Alberto afirmou que os Estados Unidos possuem um longo histórico de interferências políticas na América Latina. Ele citou a atuação da Agência Central de Inteligência, a CIA, em operações destinadas a desestabilizar governos considerados contrários aos interesses de Washington.

“O que os governos norte-americanos querem dos demais países é submissão, sem questionamento”, disse.

Em oposição a essa perspectiva, o historiador avaliou positivamente a política externa adotada pelo governo Lula. Destacou as relações com países da América Latina, da África e da Ásia, além da participação brasileira no BRICS e da defesa de uma atuação internacional soberana.

Os atos no ABC e em Copacabana

Os primeiros eventos oficiais das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro foram definidos pelo convidado como representações das trajetórias políticas dos dois candidatos.

Lula escolheu o Estádio Primeiro de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. O local está ligado às mobilizações dos metalúrgicos do ABC durante o fim da década de 1970 e o começo dos anos 1980, período em que o atual presidente se projetou como liderança sindical.

“Lula voltou ao lugar que o constituiu como político. Voltou ao ABC como metalúrgico e como uma grande liderança”, avaliou Alberto.

Para o historiador, a escolha reforçou a coerência entre a origem social de Lula e sua trajetória política. Ele comparou o retorno ao ABC à volta de Leonel Brizola do exílio e à posterior eleição do trabalhista para o Governo do Rio de Janeiro, em 1982.

Alberto também destacou a capacidade de Lula para conversar com diferentes setores sociais e forças políticas, inclusive com adversários.

“O Lula tem um carisma e uma coerência na atuação política que o credenciam para conversar com todas as classes sociais. Ele aprendeu a fazer política fazendo”, afirmou.

Flávio Bolsonaro realizou seu ato na praia de Copacabana, cenário frequente das manifestações organizadas pelo bolsonarismo. A presença de banhistas e pessoas que normalmente circulam pela orla dificultou, segundo o historiador, a identificação do público mobilizado diretamente pela campanha.

O entrevistado também rejeitou a tentativa de apropriação das cores nacionais por uma única candidatura.

“O verde e amarelo não é patrimônio de um candidato. Todo brasileiro veste verde e amarelo”, declarou.

Alberto considerou que o ato de Flávio apresentou baixa mobilização quando comparado a manifestações anteriormente realizadas pelo bolsonarismo no mesmo local. A atividade cumpriu a função de preservar a visibilidade da candidatura, mas não demonstrou o mesmo poder de convocação observado durante o governo de Jair Bolsonaro.

Marçal, Renan e Zema ampliam uma narrativa comum

Questionado sobre Pablo Marçal, Renan Santos e Romeu Zema, Alberto afirmou que essas candidaturas podem contribuir para ampliar o discurso da direita durante a campanha.

Embora apresentem diferenças de estilo e disputem parcelas do mesmo eleitorado, os candidatos defendem propostas semelhantes em temas econômicos e sociais. O historiador citou as privatizações e a manutenção da escala de trabalho 6 por 1 como exemplos dessa convergência.

“São candidaturas que tentam reforçar o discurso do candidato mais bem colocado nas pesquisas e cercar o candidato principal”, analisou.

A presença de vários nomes alinhados à direita oferece vantagens durante debates e entrevistas. Cada candidato pode abordar Lula com acusações semelhantes, repetir determinadas mensagens e aumentar a impressão de que existe uma maioria política favorável àquela agenda.

“Talvez a estratégia da extrema direita seja essa. Pode ter existido um combinado ou uma tentativa de verificar se essa narrativa consegue alcançar a população”, afirmou.

Alberto ponderou que não possui elementos para assegurar a existência de uma coordenação formal entre as campanhas. Sua análise trata do efeito político produzido pela presença simultânea de candidaturas com agendas próximas.

Esses nomes também precisam permanecer na disputa para conservar seus próprios grupos, ampliar bancadas parlamentares e negociar alianças. A Presidência não é o único objetivo de uma campanha nacional. O tempo de exposição pode ser convertido em influência, votos para candidatos estaduais e fortalecimento partidário.

Lula deve evitar debates no primeiro turno, defende historiador

Alberto avaliou que Lula não deveria participar dos debates no primeiro turno. Para o historiador, o formato pode ser utilizado pelas demais candidaturas para promover ataques, provocar confrontos e obter visibilidade, sem uma discussão efetiva sobre projetos para o país.

“Elas não vão ao debate para discutir ideias, vão tentar destruir a candidatura Lula”, afirmou.

Na avaliação do convidado, os debates realizados durante as primeiras eleições posteriores à redemocratização reuniam candidaturas com maior diversidade programática. O cenário atual seria marcado por uma polarização concentrada em Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto os outros participantes procurariam crescer alguns pontos atacando o candidato governista.

“Não faz sentido neste momento, porque a opção da extrema direita é destruir a candidatura Lula. Não é construir uma opinião sobre o Brasil nem apresentar uma ideia de nação soberana, desenvolvida e independente”, disse.

Alberto considera que um debate poderia ganhar maior relevância no segundo turno, quando restassem apenas duas candidaturas e houvesse mais tempo para confrontar programas.

O historiador também concordou com a necessidade de checagem rápida das afirmações apresentadas durante esses encontros. Sem verificação, dados falsos ou distorcidos podem circular durante todo o programa e alcançar milhões de eleitores antes de qualquer correção.

Ao relembrar a eleição de 1989, Alberto citou o tratamento dado pela TV Globo ao debate entre Lula e Fernando Collor. A edição exibida no Jornal Nacional foi criticada por favorecer Collor e se tornou uma referência recorrente nas discussões sobre o poder da televisão nas campanhas eleitorais.

“Foi assim que Lula foi prejudicado em 1989, com mentiras na disputa com Fernando Collor”, afirmou.

A extrema direita cresceu porque o PT não soube governar?

Durante a entrevista, também foi apresentada a interpretação de que a extrema direita teria crescido por falhas dos governos do PT. Alberto não descartou a existência de erros, mas rejeitou que eles sejam suficientes para explicar todo o fenômeno.

Na avaliação do historiador, o crescimento da extrema direita envolve a crise econômica, a atuação de grupos empresariais, a comunicação digital, o comportamento de instituições do Estado e a reorganização internacional de movimentos conservadores.

A experiência do governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, deveria ser considerada pelo eleitor. Alberto classificou o período como desastroso, sobretudo diante da condução da pandemia e do número de mortes registradas.

“Eles não conseguiram se reeleger porque foram completamente desastrosos no governo. Hoje tentam retornar ao cenário político mais importante, que é a Presidência da República”, declarou.

Para Alberto, a candidatura de Flávio procura manter o sobrenome Bolsonaro como referência eleitoral mesmo após o desgaste provocado pela gestão anterior. O objetivo imediato seria impedir a dispersão da base e garantir continuidade ao grupo.

Disputa entre projetos continuará polarizada

O historiador não identifica, no momento, uma terceira via com capacidade real de romper a polarização. As candidaturas menores podem crescer, pautar assuntos e influenciar o segundo turno, mas a disputa principal continua organizada entre o projeto liderado por Lula e a extrema direita representada por Flávio Bolsonaro.

Nesse cenário, Alberto defendeu uma campanha baseada na conversa com a população e na apresentação de propostas sociais. Para ele, o enfrentamento à direita não pode permanecer restrito às redes sociais ou aos debates entre pessoas já convencidas.

A disputa precisa alcançar trabalhadores, movimentos sociais e eleitores que ainda não acompanham a política cotidianamente. Também deve relacionar as decisões econômicas às condições concretas de vida, como renda, alimentação, trabalho e acesso aos serviços públicos.

“Vamos em frente, debatendo com a população e construindo o Brasil que queremos, democrático e popular, no qual cada pessoa consiga ter suas refeições diárias e o direito de formar seu próprio pensamento”, concluiu.

Referências

Socialismo ou fascismo: o novo caráter da dependência e o dilema latino-americano, de Theotonio dos Santos, 1969
Karl Marx, filósofo, economista e teórico socialista alemão
Friedrich Engels, filósofo e teórico socialista alemão
Rui Mauro Marini, cientista social e formulador da teoria marxista da dependência
Vânia Bambirra, cientista política e pesquisadora da dependência latino-americana
Theotonio dos Santos, economista e cientista social brasileiro

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