Governador defendeu o legado de vinte anos do grupo governista, enquanto adversário concentrou críticas na segurança e adotou uma moderação inesperada durante boa parte do encontro
Da Redação
O primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Ceará colocou frente a frente dois políticos que conhecem profundamente a administração estadual, mas enxergam de maneiras opostas a situação do estado. Elmano de Freitas (PT) apresentou sua candidatura como continuidade de um projeto iniciado com Cid Gomes e ampliado por Camilo Santana. Ciro Gomes (PSDB) tentou se estabelecer como representante de uma mudança capaz de preservar os avanços na educação e corrigir problemas na segurança, na saúde e no desenvolvimento econômico.
Promovido pela Band Ceará na noite deste domingo (9), no auditório do Senac Aldeota, em Fortaleza, o encontro também revelou uma versão inesperadamente controlada de Ciro. O candidato elevou o tom em momentos pontuais, fez acusações graves contra o governo e protagonizou atritos com Elmano, mas passou boa parte do debate evitando o confronto explosivo que costuma marcar suas participações eleitorais. A moderação, embora calculada, retirou parte da intensidade esperada de seu retorno aos debates.
Pedro Brito, candidato do Novo, não compareceu. Segundo a emissora, sua assessoria justificou a ausência como resultado do “planejamento estratégico” da campanha, apesar de ter participado da reunião na qual foram aprovadas as regras do programa. O púlpito vazio reduziu o encontro a um confronto direto entre Elmano e Ciro e reforçou a percepção de que a disputa pelo Palácio da Abolição será organizada em torno dos dois principais candidatos.
A segurança pública dominou o debate desde o primeiro bloco. Ciro apresentou o Ceará como um estado submetido ao avanço das facções criminosas e afirmou que o modelo adotado durante os últimos dez anos não conseguiu impedir a expansão dessas organizações.
“O Ceará hoje é quase um narcoestado dominado pelas facções criminosas”, declarou.
Elmano contestou o diagnóstico e enumerou investimentos realizados durante sua gestão. O governador afirmou ter contratado 6 mil profissionais para as forças de segurança, ampliado o setor de inteligência e implementado um sistema de metas com reconhecimento funcional e financeiro para policiais. Também sustentou que o Ceará registra a maior redução de homicídios e roubos do país.
Ciro respondeu que o enfrentamento às facções não pode se limitar à contratação de policiais e ao aluguel ou à compra de viaturas. Propôs ampliar a inteligência policial, integrar câmeras a sistemas de reconhecimento e utilizar tecnologia para localizar chefes de organizações criminosas e rastrear a lavagem de dinheiro.
“Crime organizado não se enfrenta com aparato. Enfrenta-se com inteligência”, afirmou.
A discussão passou rapidamente das propostas para a disputa sobre números. Ciro disse que apenas 27 de cada cem homicídios seriam solucionados no Ceará. Elmano respondeu que todos os assassinatos são investigados e que o índice estadual de elucidação estaria acima da média nacional. O governador também afirmou que 5 mil integrantes de facções foram presos em 2025 e que R$ 3,3 bilhões teriam sido retirados das organizações criminosas.
Sem uma verificação independente durante o programa, os dados apresentados permaneceram em disputa. Ambos prometeram publicar documentos em suas redes sociais.
Elmano tentou atribuir a Ciro parte da responsabilidade histórica pelo problema, afirmando que a primeira célula do Comando Vermelho teria chegado ao Ceará em 1993, quando o adversário era governador. Ciro classificou a declaração como mentira e acusou a atual gestão de ter permitido que as facções assumissem o controle de territórios e atividades econômicas.
Os registros da época contradizem o candidato. Uma pesquisa realizada pelo acervo de O POVO localizou uma reportagem publicada em 17 de outubro de 1993, durante a gestão de Ciro, sobre a tentativa do Comando Vermelho de se estabelecer em Fortaleza. Na ocasião, a Polícia Militar encontrou no bairro Álvaro Weyne um imóvel descrito pelos agentes como “reduto” da organização criminosa. Segundo a reportagem, o local era utilizado para guardar documentos roubados, embalagens destinadas a drogas e roupas usadas em assaltos. As paredes do imóvel também apresentavam inscrições com as letras “CV”. A presença dessas marcas havia levado policiais a investigar a atuação do grupo carioca na capital cearense. O levantamento histórico foi publicado por O POVO em 2019.
Elmano, por sua vez, procurou explorar a contradição política mais sensível da candidatura adversária: a aliança de Ciro com setores bolsonaristas no Ceará. O governador mencionou repetidamente o PL, Capitão Wagner e os apoiadores locais de Jair Bolsonaro. Também passou a chamar o adversário de “Cironaro”, apelido usado para aproximá-lo da direita que combateu em eleições anteriores.
Ciro respondeu tentando restringir a discussão ao Ceará. Admitiu que sua coligação apresenta contradições quando observada nacionalmente, mas afirmou que os partidos deixaram suas divergências de lado para construir uma alternativa ao grupo governista.
“Aqui nós deixamos todas as nossas diferenças para lá para juntar em favor de uma mudança profunda do Ceará”, declarou nas considerações finais.
A aproximação de Ciro com o bolsonarismo ultrapassa a aliança eleitoral. Aparece no discurso de restauração da autoridade, na exploração do medo da violência e na escolha do Mossad como referência para a segurança pública. Também se manifesta na misoginia. Ciro foi condenado por violência política de gênero após chamar Janaína Farias de “cortesã” e “assessora para assuntos de cama”. No debate, repetiu outro método conhecido: lançou acusações de corrupção sem apresentar provas e negou a presença de facções no Ceará durante seu governo, contrariando registros de 1993.
A tentativa de regionalizar a eleição encontrou resistência de Elmano. Apoiado pelo Presidente Lula, o governador vinculou os investimentos estaduais à parceria com o governo federal e apresentou a eleição cearense como parte da disputa nacional entre o campo petista e o bolsonarismo.
“Eu sou do time do Lula com muito orgulho. Eu sou do time do Cid. Eu sou do time da Luizianne. Eu sou do time de Camilo”, afirmou Elmano.
A inclusão de Cid Gomes e Luizianne Lins na mesma fala teve significado político. O governador procurou exibir uma frente ampla e minimizar as divergências recentes dentro de sua base. Ao citar Luizianne, também respondeu indiretamente às tentativas de Ciro de explorar tensões entre a ex-prefeita e integrantes do grupo governista.
Na saúde, Elmano defendeu a interiorização dos atendimentos de média e alta complexidade e destacou a abertura de hospitais regionais e a expansão do tratamento contra o câncer. O governador apresentou essas iniciativas como uma mudança na vida de moradores que antes precisavam viajar para Fortaleza em busca de atendimento.
Ciro reconheceu a importância da descentralização, mas acusou a gestão de priorizar a construção de prédios sem garantir seu funcionamento integral. Citou o Hospital Universitário do Ceará e afirmou que parte dos leitos previstos ainda não estaria disponível. Também criticou a regulação de cirurgias e exames, que classificou como sujeita à interferência política.
Elmano rebateu lembrando que Ciro, quando secretário da Saúde, teria fechado um hospital. O adversário afirmou que abriu vinte unidades municipais e acusou o governador de distorcer sua passagem pela pasta. A discussão terminou com novas acusações de corrupção e pedidos de direito de resposta.
Ao criticar a atual rede de saúde, Ciro afirmou que “deve ter” construído mais de vinte hospitais municipais, mas não apresentou a relação das unidades. Durante seu governo, entre 1991 e 1994, não foi entregue nenhum hospital regional estadual de alta complexidade. A rede hoje criticada por ele começou a ser implantada em administrações posteriores.
Educação como ringue entre irmãos
O debate sobre educação produziu um dos poucos pontos de reconhecimento explícito. Ciro admitiu os resultados positivos alcançados pelo Ceará, mas atribuiu a formulação do modelo a Ivo Gomes e afirmou que o êxito decorreu da transformação da educação em política de Estado. Também acusou a atual gestão de entregar coordenadorias regionais a indicações partidárias.
Elmano atribuiu os avanços a uma construção iniciada no governo Cid Gomes, desenvolvida por Camilo Santana e Izolda Cela e ampliada em sua administração. O governador prometeu concluir o mandato com todas as escolas estaduais de ensino médio em tempo integral e avançar na oferta de educação profissionalizante.
Elmano mostra o resultado de sua gestão enquanto Ciro está preso nos anos 1990
Os dois também divergiram sobre emprego, renda e desenvolvimento. Elmano disse ter criado 175 mil postos com carteira assinada e apresentou o atual volume de investimentos públicos como o maior da trajetória do Ceará. Ciro questionou a apropriação direta desse resultado pelo governador e mencionou o fechamento de fábricas, a perda de posições na renda domiciliar por pessoa e as consequências da reforma tributária para os incentivos estaduais.
Na infraestrutura, Ciro criticou a demora na conclusão do Anel Viário de Fortaleza, falou em 657 obras paradas e cobrou intervenções para integrar a Ferrovia Transnordestina às cidades do Cariri. Elmano respondeu que parte dos atrasos decorreu da falta de repasses durante o governo Bolsonaro e disse que a parceria com o Presidente Lula permitiu retomar projetos federais no Ceará.
O tom se alterou no último bloco. Ciro acusou a administração estadual de corrupção generalizada e disse que apresentaria documentos ao longo da campanha. Elmano respondeu mencionando decisões judiciais contra o adversário por violência política contra mulheres e episódios anteriores de sua carreira.
Os dois tiveram pedidos de direito de resposta aceitos. Ciro negou ter cometido agressão contra mulheres, afirmou que a condenação mencionada por Elmano corresponde a uma multa da qual recorre e acusou o grupo governista de tentar retirar seus direitos políticos. Elmano sustentou que o adversário não respeita seus oponentes e voltou a cobrar críticas de Ciro a Flávio Bolsonaro e aos participantes dos atos golpistas.
Foi nesse trecho final que apareceu uma versão mais reconhecível de Ciro, impaciente com a mediação e disposto a interromper o adversário. Ainda assim, a explosão esperada não veio por completo. O candidato chegou a explicar sua própria contenção ao dizer que aquele era apenas o primeiro debate e que não pretendia “esquentar muito agora”.
A postura pode ter sido parte de uma estratégia para reduzir a rejeição e recuperar eleitores que se afastaram dele nos últimos anos. Mas, em um encontro aguardado pela possibilidade de um confronto imprevisível, a calma também produziu certa decepção. Ciro apresentou muitos números e críticas, porém evitou levar vários embates até as últimas consequências.
Elmano saiu do debate sustentando a continuidade e a força eleitoral de sua aliança. Ciro deixou o palco como o candidato da mudança, mas ainda pressionado a explicar sua proximidade com o bolsonarismo cearense. O primeiro confronto não definiu a eleição, mas apresentou o roteiro que deverá acompanhar a campanha: segurança pública contra legado administrativo, disputa permanente sobre dados e uma eleição estadual que dificilmente ficará separada do embate nacional.


