Da Redação
Representantes do setor produtivo brasileiro demonstram preocupação com a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na audiência pública que discutirá, nos Estados Unidos, a possível imposição de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A avaliação entre empresários é que a presença do senador pode transformar um debate técnico e comercial em mais um capítulo da disputa política brasileira, dificultando ainda mais o diálogo com o governo Donald Trump.
A audiência será conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, órgão responsável por investigações comerciais do governo norte-americano. Mais de 80 interessados estão inscritos para participar da sessão, incluindo representantes empresariais, setores exportadores, entidades comerciais e atores políticos. Além de Flávio Bolsonaro, também está prevista a participação de Paulo Figueiredo, aliado do bolsonarismo nos Estados Unidos.
O receio do empresariado é simples: uma audiência que deveria tratar de tarifas, cadeias produtivas, exportações, empregos e relações comerciais pode ser capturada por um discurso eleitoral. Para os setores que dependem do mercado norte-americano, a prioridade é reduzir danos, evitar novas barreiras e preservar canais de negociação. Já a presença de figuras diretamente ligadas à oposição bolsonarista pode deslocar o foco para ataques ao governo Lula, ao Judiciário brasileiro e à política externa nacional.
A preocupação aumenta porque Flávio Bolsonaro não chega à audiência como um participante neutro. O senador já defendeu sanções contra autoridades brasileiras e vem atuando politicamente em sintonia com setores da direita norte-americana. O governo Lula acusa integrantes da família Bolsonaro de estimular pressões de Washington contra o Brasil, em uma estratégia que mistura disputa eleitoral, relações internacionais e interesses econômicos nacionais.
Para empresários, o problema central não é apenas a divergência política. É o risco de que a politização da audiência ofereça ao governo Trump novos argumentos para endurecer sua posição contra produtos brasileiros. Em vez de apresentar uma frente nacional voltada à defesa de exportadores, empregos e empresas, o Brasil pode aparecer dividido diante de uma potência estrangeira justamente no momento em que precisa negociar com máxima coesão.
O caso expõe uma contradição cada vez mais visível na política brasileira. Enquanto setores empresariais tentam preservar mercados e evitar prejuízos, parte do bolsonarismo aposta na internacionalização do conflito interno como forma de pressionar o governo Lula. Essa estratégia pode produzir ganhos políticos de curto prazo para a oposição, mas carrega custos econômicos concretos para o país.
A eventual tarifa de 25% teria impacto direto sobre empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos. Dependendo dos setores atingidos, a medida pode reduzir competitividade, encarecer produtos, afetar contratos, pressionar margens de lucro e comprometer empregos ligados ao comércio exterior. Por isso, entidades empresariais preferem uma abordagem técnica, baseada em argumentos econômicos, e não em discursos ideológicos.
A audiência também ocorre em um contexto mais amplo de tensão entre Brasil e Estados Unidos. Nos últimos meses, Washington ampliou pressões comerciais e políticas contra Brasília, enquanto aliados de Jair Bolsonaro buscaram apoio em setores republicanos para criticar decisões do Supremo Tribunal Federal, defender sanções e associar a política comercial norte-americana à disputa eleitoral brasileira.
O episódio recoloca a soberania no centro do debate. Disputas internas fazem parte da democracia, mas quando atores políticos nacionais buscam interferência externa contra o próprio país, a fronteira entre oposição legítima e sabotagem econômica torna-se cada vez mais sensível. Para o setor produtivo, o resultado prático pode ser desastroso: menos previsibilidade, mais insegurança e maior dificuldade para defender os interesses brasileiros no exterior.
A audiência nos Estados Unidos, portanto, será observada com atenção não apenas por diplomatas e empresários, mas também pelo governo brasileiro. O que estará em jogo não será apenas uma tarifa. Será a capacidade do Brasil de apresentar uma posição nacional diante de uma pressão externa ou, ao contrário, permitir que uma disputa doméstica fragmente sua defesa comercial no palco internacional.






