Da Redação
Ministro de Minas e Energia defende que terras raras, nióbio, lítio e outros minerais críticos sejam usados para impulsionar a industrialização nacional, gerar tecnologia e ampliar a autonomia do país na transição energética
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que o Brasil não abrirá mão da soberania sobre seus minerais estratégicos e que a exploração dessas riquezas precisa estar vinculada ao desenvolvimento nacional, à industrialização e à agregação de valor dentro do próprio país. A declaração recoloca no centro do debate uma das questões mais importantes da geopolítica contemporânea: o controle sobre os insumos indispensáveis à transição energética, à indústria de alta tecnologia e aos sistemas de defesa. Segundo o Ministério de Minas e Energia, o Brasil possui uma das maiores reservas de minerais críticos do mundo, incluindo cerca de 25% das reservas conhecidas de terras raras.
Esses minerais são utilizados na fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, baterias, equipamentos eletrônicos, satélites, sistemas militares e tecnologias digitais. Por isso, deixaram de ser apenas commodities minerais e passaram a ocupar posição estratégica nas disputas entre grandes potências. A fala de Silveira indica que o governo pretende evitar que o Brasil repita o padrão histórico de exportar matéria-prima barata e importar produtos de alto valor agregado.
Minerais críticos viraram questão de soberania
O debate ocorre em meio à disputa internacional por terras raras, lítio, nióbio, cobre, grafite, urânio e outros minerais essenciais à economia do século XXI. Países industrializados buscam garantir acesso a essas cadeias produtivas para reduzir dependências externas, especialmente em relação à China, que hoje domina etapas decisivas do refino e processamento global desses insumos.
Silveira defende que o Brasil deve receber investimentos estrangeiros, mas sem abrir mão do controle nacional sobre suas riquezas. Em declarações anteriores, o ministro afirmou que parcerias com Estados Unidos ou qualquer outro país só fazem sentido se preservarem a soberania brasileira e os interesses estratégicos do Estado nacional.
Do minério bruto à indústria de ponta
A principal preocupação do governo é impedir que o país permaneça preso à condição de fornecedor de minerais brutos. Para Silveira, a riqueza mineral precisa servir como base para uma nova etapa de industrialização, com pesquisa, beneficiamento, processamento, fabricação de componentes e desenvolvimento tecnológico no território brasileiro.
Essa estratégia busca integrar mineração, transição energética, indústria de defesa, semicondutores, armazenamento de energia, data centers, mobilidade elétrica e inovação. A lógica é simples: quem controla apenas a extração fica com a parte menor do valor econômico; quem domina processamento, tecnologia e produção industrial fica com a maior parcela da riqueza.
Política nacional em debate
O tema ganhou força com a discussão da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, aprovada na Câmara dos Deputados e em tramitação no Senado. Silveira classificou o projeto como uma afirmação da soberania nacional e defendeu a preservação das medidas aprovadas pelos deputados, que buscam alinhar a exploração mineral aos interesses do país.
O governo também prepara instrumentos para fortalecer a capacidade de planejamento do Estado sobre o setor, incluindo regras para evitar a entrega de ativos estratégicos sem análise de impacto nacional, maior controle sobre dados geológicos e estímulo à formação de cadeias produtivas internas. Em março, Silveira criticou acordos isolados envolvendo governos estaduais e potências estrangeiras, lembrando que os recursos minerais pertencem à União e que informações geológicas sensíveis não podem ser tratadas como ativos locais desconectados da estratégia nacional.
Disputa global aumenta pressão sobre o Brasil
A posição brasileira ganha relevância porque a transição energética abriu uma corrida mundial por minerais críticos. Veículos elétricos, parques eólicos, painéis solares, redes inteligentes, chips e sistemas de armazenamento dependem desses insumos. Sem eles, não há reindustrialização verde, defesa tecnológica nem autonomia energética.
Nesse cenário, o Brasil aparece como território cobiçado. Suas reservas de terras raras, nióbio, lítio, urânio, grafite e outros minerais colocam o país em posição privilegiada. Mas essa vantagem pode se transformar em dependência se a exploração for conduzida apenas por empresas estrangeiras e voltada à exportação de matéria-prima sem desenvolvimento tecnológico interno.
Soberania mineral como projeto de país
A fala de Alexandre Silveira reforça uma mudança de paradigma. O país não pode tratar minerais estratégicos como simples produtos de exportação. Eles são parte de uma política industrial, energética, científica, ambiental e geopolítica.
O desafio será combinar atração de investimentos, proteção ambiental, respeito aos territórios, inovação tecnológica e controle nacional sobre cadeias sensíveis. Se conseguir avançar nessa direção, o Brasil poderá transformar sua riqueza mineral em base para uma nova etapa de desenvolvimento. Se não conseguir, corre o risco de repetir, em pleno século XXI, a velha lógica colonial: exportar recursos estratégicos e importar dependência.






