Quando vocês perceberem, será tarde demais

As eleições contemporâneas não começam quando as candidaturas são anunciadas. Elas começam quando alguém consegue moldar a percepção pública e definir, antecipadamente, o terreno onde o adversário será obrigado a lutar.

Por Reynaldo Aragon 

O maior erro de uma campanha não é subestimar um adversário, mas compreender tarde demais qual é o verdadeiro campo de batalha. Se a hipótese apresentada neste artigo estiver correta, Michelle Bolsonaro não é o centro da estratégia. Ela é seu principal instrumento. Enquanto o debate permanece concentrado na personagem, uma arquitetura política e psicológica pode estar reorganizando silenciosamente a disputa eleitoral muito antes do início oficial da campanha.

O campo de batalha mudou

Toda guerra possui um centro de gravidade. Na política contemporânea, ele deixou de estar apenas nas urnas. Hoje, o verdadeiro campo de batalha é a percepção. Quem compreende isso chega à eleição meses antes dos adversários. Quem não compreende começa a campanha quando ela já está, em grande parte, decidida.

É esse o erro que vejo sendo cometido neste momento. A atenção permanece concentrada nos nomes, nas pesquisas e nas futuras candidaturas. Mas as eleições contemporâneas raramente começam quando o calendário eleitoral determina. Elas começam quando uma personagem política passa a ocupar um lugar na imaginação coletiva antes mesmo de disputar um voto.

É nesse momento que estratégia e psicologia deixam de caminhar separadas. O objetivo já não é apenas convencer o eleitor. É organizar antecipadamente a forma como ele perceberá os acontecimentos futuros. Quando isso acontece, o adversário deixa de disputar apenas votos. Passa a disputar significados dentro de um terreno cuidadosamente preparado pelo outro lado.

Toda operação política sofisticada procura produzir um efeito muito específico: fazer com que o adversário reaja exatamente da maneira prevista. Quando isso acontece, o confronto deixa de ser uma disputa de argumentos e passa a obedecer ao roteiro elaborado por quem conseguiu definir antecipadamente o significado dos acontecimentos. A partir desse momento, o problema já não é o ataque em si, mas a interpretação que o público fará dele.

É sob essa perspectiva que os movimentos recentes em torno de Michelle Bolsonaro merecem atenção. Independentemente de uma candidatura se confirmar ou não, sua imagem parece reunir atributos que tornam a crítica convencional muito mais complexa. Em determinadas circunstâncias, críticas estritamente políticas poderão ser percebidas por parte do eleitorado como perseguição, injustiça ou ataques que extrapolam a disputa política, ainda que essa não seja a intenção de quem as formula. Quando isso acontece, o debate deixa de girar em torno do projeto representado pela liderança e passa a concentrar-se na defesa da própria personagem.

É justamente aí que reside a armadilha. O adversário acredita estar impondo desgaste, quando pode estar fortalecendo a arquitetura simbólica construída ao redor daquela liderança. O centro de gravidade da disputa desloca-se silenciosamente: deixa de estar na crítica e passa a estar na reação que essa crítica produz. Em estratégia, esse costuma ser um dos sinais mais claros de que o terreno da batalha já não pertence mais ao oponente.

Essa reflexão também dialoga com as análises desenvolvidas por Sara Goes, jornalista que considero uma das pessoas que mais profundamente vêm estudando o fenômeno Michelle Bolsonaro e a construção de sua imagem pública. Seu trabalho tem sido uma importante bússola para compreender como diferentes elementos simbólicos, religiosos, afetivos e comunicacionais se articulam na consolidação dessa personagem política. Ainda que as interpretações aqui apresentadas sejam de minha inteira responsabilidade, muitas das questões levantadas por Sara ajudam a iluminar aspectos que frequentemente passam despercebidos no debate público.

Existe, porém, um recurso ainda mais poderoso do que a comunicação: o tempo. Em operações de natureza psicológica, percepção não se impõe. Ela se sedimenta. Identidades políticas não surgem de um único discurso. São construídas pela repetição, pela familiaridade e, principalmente, pela redução gradual da resistência do público. O tempo não serve apenas para ampliar visibilidade. Serve para transformar estranhamento em reconhecimento e reconhecimento em confiança.

Sob essa lógica, permanecer fora da disputa formal pode representar uma vantagem estratégica. Enquanto o debate político continua concentrado em pesquisas, alianças e candidaturas, a disputa psicológica avança silenciosamente. Cada aparição pública, cada episódio de conflito e cada tentativa de desqualificação podem contribuir para consolidar uma determinada percepção antes mesmo que a campanha exista oficialmente. Quando a candidatura finalmente surgir, ela já encontrará um ambiente cognitivo parcialmente organizado para recebê-la.

É nesse ponto que a analogia com a Blitzkrieg deixa de ser apenas militar. A velocidade do ataque final só produz efeito porque sua preparação aconteceu antes, quase sempre de forma invisível. Na política, ocorre algo semelhante. Quando todos percebem que a campanha começou, o trabalho mais importante pode já ter sido realizado.

É justamente aqui que reside o maior risco para o campo progressista. Se essa hipótese estiver correta, o erro não será subestimar Michelle Bolsonaro. O erro será aceitar disputar a eleição no terreno simbólico previamente preparado para ela. Em guerra psicológica, a vitória mais sofisticada não é convencer o adversário de uma mentira. É levá-lo a reagir exatamente da maneira que a estratégia previa desde o início.

Se parte das críticas dirigidas a Michelle passar a ser percebida por segmentos do eleitorado como perseguição ou como ataques que extrapolam a disputa política, pouco importará a intenção original de quem as formulou. O efeito político poderá ser outro. A discussão deixará de girar em torno do projeto representado por ela para concentrar-se na defesa da personagem. Quando isso acontece, a agenda da campanha muda de mãos. Já não é mais o opositor quem define o debate. É a narrativa construída pelo próprio adversário que passa a organizar toda a disputa.

Essa talvez seja a operação mais inteligente de todas: deslocar o centro de gravidade da eleição do campo programático para o campo emocional. Em vez de obrigar a sociedade a discutir governo, projeto de país ou interesses representados por uma eventual candidatura, a disputa passa a girar em torno de sentimentos como injustiça, solidariedade, perseguição e proteção. É uma mudança aparentemente sutil, mas estrategicamente devastadora, porque transforma a emoção em filtro para a interpretação dos fatos.

É por isso que o foco deste artigo nunca foi Michelle Bolsonaro. Personagens mudam. Estratégias permanecem. Quem observa apenas os nomes enxerga a superfície da política. Quem observa a arquitetura das narrativas percebe onde a disputa realmente está acontecendo.

Se essa hipótese estiver correta, ainda há tempo para evitar essa armadilha. Mas isso exige uma mudança profunda de perspectiva. A disputa não pode ser travada contra a personagem. Precisa ser travada contra o projeto político que ela eventualmente represente, contra os interesses que o sustentam e contra a arquitetura narrativa que procura deslocar o debate para o terreno emocional. Quando o confronto abandona a estratégia para concentrar-se na figura pública, o risco é transformar a crítica em matéria-prima da própria campanha adversária.

Em política, assim como em operações psicológicas, quase nunca vence quem fala mais alto. Vence quem consegue definir onde a batalha será travada. Quem escolhe o terreno costuma obrigar o adversário a lutar em desvantagem. E poucas derrotas são tão difíceis de reverter quanto aquelas em que se entra em combate sem perceber que o campo já havia sido preparado pelo outro lado.

Talvez essa seja a principal lição para a esquerda brasileira neste momento. Antes de perguntar quem será o candidato da direita, talvez seja mais importante compreender qual estratégia está em curso e qual papel cada personagem desempenha dentro dela. Porque, se o diagnóstico apresentado aqui estiver correto, a disputa decisiva não começará quando a campanha eleitoral for oficialmente aberta. Ela já terá começado muito antes.

E, quando vocês perceberem, será tarde demais.