Por Sara Goes
Há um padrão que se repete e expõe mais os intérpretes do que o próprio governo. Diante de cada tensão, instala-se uma pressa em explicar que dispensa mediação, apaga o tempo necessário à apuração e ignora qualquer método. O objetivo parece ser ocupar o espaço antes dos outros, com a voz mais alta e a pose de quem fala de dentro do poder. Nesse ambiente, prospera um jornalismo apressado, frequentemente assinado por nomes que conferem verniz de autoridade, mas entregam textos extensos e bem acabados na forma, embora pobres em análise. São leituras que reciclam lugares-comuns e circulam como se fossem interpretação qualificada do processo político.
Longe de ser uma percepção isolada. Em entrevista à Rádio e TV Atitude Popular, em 6 de março, a jornalista e pesquisadora Ângela Carrato apontou que o jornalismo atravessa uma fase crítica, em que redações passaram a reproduzir disputas políticas e interesses econômicos, abandonando sua função central de investigação e mediação qualificada dos fatos, e foi direta ao afirmar que “ou o jornalismo se reinventa ou perderá completamente a credibilidade”, o que ajuda a explicar por que, no lugar de análise, proliferam versões fragmentadas, leituras apressadas e interpretações moldadas mais pela urgência do engajamento do que pelo compromisso com a realidade.
A essa leitura se soma um elemento estrutural que muitas vezes é ignorado no debate público, que é a forma como a lógica comercial das plataformas digitais passou a reorganizar prioridades dentro da própria mídia progressista, porque, ao migrar do formato de blog para o YouTube, muitos desses veículos não apenas mudaram de linguagem, mas alteraram profundamente sua capacidade de produção, já que a manutenção operacional de uma webTV contínua se tornou mais rentável e previsível do que investir na contratação de repórteres, equipes de investigação ou pequenas redações dedicadas à produção própria, o que, na prática, desidratou a capacidade investigativa e reflexiva desse campo e o empurrou para um modelo baseado em comentário, opinião e reação, em detrimento da apuração original, criando um ambiente em que a repetição substitui a descoberta e em que a velocidade passa a ser mais valorizada do que a profundidade.
Dentro desse cenário, poucas experiências tentam romper com esse sufocamento estrutural, como o GGN, cuja persistência investigativa liderada por Luís Nassif enfrenta um nível de assédio jurídico e financeiro que torna essa insistência quase anedótica diante das condições adversas, e o ICL Notícias, que, mesmo em um processo de correção de rumo após uma fase de hiperpersonalização em torno de Eduardo Moreira, se apresenta sem pudor como rival declarado de outros canais da mídia progressista, reproduzindo, ainda que em escala distinta, a lógica competitiva e predatória que marca a grande imprensa, o que revela que o problema não é apenas de modelo de funcionamento, mas principalmente de posição política.
Desse arranjo emerge um padrão consistente de reorganização do debate público. O caso do Banco Master, que envolve investigações da Polícia Federal, movimentações financeiras atípicas e conexões políticas relevantes, deixa de ocupar o centro do debate sempre que uma nova crise correlata é acionada ou amplificada. Nas últimas semanas, esse deslocamento pode ser observado de forma encadeada: o foco migra para a conduta de ministros do Supremo, como Moraes e Toffoli, avança para discussões sobre a suspeição de Toffoli, passa pela escolha de André Mendonça como relator, deriva para proposta de criação de código de conduta para a Corte e, em seguida, se reconfigura como narrativa de perseguição a Moraes, incluindo indiciamento dele e outros ministros do próprio Supremo Tribunal Federal.
A cada novo episódio, o anterior perde densidade, e o núcleo do escândalo se dilui em meio a controvérsias sucessivas. Um suposto tensionamento entre Lula e Moraes, por exemplo, foi tratado como ruptura em análises sem que se sustentasse em evidência concreta proporcional à gravidade da hipótese. Mais recentemente, chegou-se a sugerir um afastamento de Moraes de todo o campo progressista, como se houvesse uma espécie de mandato político informal que teria sido revogado, uma leitura que diz mais sobre o ambiente interpretativo do que sobre fatos verificáveis.
O resultado não é apenas dispersão. É substituição progressiva do objeto central por uma sequência de disputas interpretativas que se alimentam mutuamente. Nesse fluxo, o caso Master deixa de ser acompanhado como processo e passa a existir apenas como pano de fundo, acionado de forma episódica, enquanto o debate se concentra em suas reverberações laterais.,
O caso envolvendo Jorge Messias escancarou essa dinâmica, já que parte expressiva da esquerda digital não começou pela correlação de forças no Senado, não começou pelo dado elementar de que dois terços da Casa são estruturalmente contrários a qualquer indicação feita pelo presidente Lula, e preferiu iniciar o debate por outro lugar, a ausência de uma mulher negra na indicação, como se o problema central fosse simbólico quando o obstáculo era numérico, institucional e material, o que não torna o tema irrelevante, mas revela uma inversão de prioridade que desloca o debate da realidade concreta, já que o governo não perdeu uma votação por falta de virtude, e sim porque não dispõe de votos suficientes, algo que deveria ser o ponto de partida de qualquer análise minimamente honesta.
Nesse ambiente deslocado, instalou-se uma caça a culpados com alvos muito bem escolhidos, e o senador Jaques Wagner passou a ser tratado como personagem preferencial, enquanto a Bahia, que sustenta há duas décadas um ciclo político consistente com Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, foi convertida em problema e não em base, não em ativo eleitoral decisivo, o que se torna ainda mais revelador quando se observa que a crise envolvendo o banco Master ajudou a alimentar esse deslocamento de foco ao criar um ambiente propício para mirar no PT da Bahia, como se fosse plausível explicar derrotas nacionais a partir de um território que entrega uma das maiores votações ao presidente Lula no país, com cerca de setenta e cinco por cento de votos válidos em um dos maiores estados brasileiros, o que não é detalhe retórico, mas estrutura eleitoral concreta que sustenta vitórias.
Há uma insistência em ignorar esse dado porque admiti-lo implica reconhecer que o jogo político não se resolve em timelines nem em estúdios improvisados de análise, e nesse vácuo proliferou outro fenômeno em que canais que se apresentam como alternativa passaram a operar como uma versão paralela do mesmo problema que criticam, pois recebem hoje, com naturalidade, figuras que até pouco tempo eram oposição direta ao governo Lula, oferecem espaço, conferem legitimidade e permitem que essas figuras opinem sobre quem o presidente deve ou não indicar, deslocando de forma informal e arbitrária uma prerrogativa que pertence ao Executivo e ao Senado para uma mesa de debate digital, o que não se trata de pluralidade, mas de normalização de uma distorção que corrói a compreensão institucional do processo político.
Ao mesmo tempo, esses mesmos espaços produzem uma inundação de textos sobre a ausência de alternativas ao presidente Lula, com latitudes inteiras de reflexão sobre sucessão, vazio de liderança e esgotamento de ciclo, criando uma obsessão quase performática em decretar a falta de substitutos enquanto o próprio presidente segue sendo o principal organizador político do campo progressista, o que revela um tipo de análise que depende da manutenção dessa tese para continuar existindo e circular com relevância, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, promove uma espécie de extrema-unção política do presidente a cada crise, como se cada episódio fosse tratado como prenúncio de fim, como se fosse necessário administrar simbolicamente um governo que, na prática, segue operando e produzindo resultados concretos.
O que se observa, portanto, é a instalação de uma crise cognitiva que ultrapassa a divergência e alcança a incapacidade de organizar o pensamento a partir da realidade concreta, produzindo textos que precisariam ser reescritos desde a primeira linha não por estilo, mas por fundamento, e que ainda assim classificam qualquer tentativa de recolocar o debate no eixo como governismo, passador de pano ou tentativa de nivelamento por baixo, numa inversão em que justamente aqueles que mais simplificam acusam os outros de simplificação, reforçando um circuito de leitura empobrecida que se retroalimenta.
Essa dinâmica fica ainda mais evidente quando se observa a lista recente de conflitos que são tratados como se fossem expressão de um único problema, já que a escolha de Geraldo Alckmin como vice, o arcabouço fiscal, medidas sobre importação, o pente fino em benefícios sociais, o debate sobre o ensino médio e temas estratégicos como terras raras são jogados no mesmo pacote, apesar de pertencerem a arenas distintas, com restrições próprias e decisões que respondem a contextos diferentes, o que facilita a sustentação de uma narrativa de desvio contínuo, mas impede qualquer compreensão séria do que está em curso no interior do governo.
Carrato lembra ainda que essa crise tem raízes históricas, ao destacar o papel ativo de grandes conglomerados de mídia em momentos decisivos da política nacional, como no período que antecedeu o suicídio de Getúlio Vargas, no golpe de 1964 e no impeachment de Dilma Rousseff, o que indica que o alinhamento político de parte da imprensa não é exceção, mas tradição, e ajuda a entender por que determinadas narrativas encontram terreno fértil mesmo quando descoladas da realidade factual.
No meio desse quadro, persiste um fetiche pelos bons modos da esquerda, com uma exigência permanente de pureza discursiva, comportamento impecável e crítica higienizada, como se a política pudesse ser reduzida a um exercício de etiqueta mesmo diante de um cenário de disputa dura, o que não resiste à realidade de processos eleitorais e institucionais que exigem disposição para conflito real, enfrentamento de distorções internas e externas e nomeação clara de problemas sem a necessidade de validação de quem se beneficia da confusão, o que implica reconhecer que sujar as mãos faz parte do processo político e não constitui um desvio dele, mas sim uma condição inerente à disputa por poder.
Defender o governo do presidente Lula, nesse contexto, não é um ato de adesão cega, mas um exercício de lucidez que reconhece limites institucionais, correlação de forças adversa e escolhas difíceis sendo feitas, ao mesmo tempo em que identifica um projeto em curso que reorganizou o Estado, retomou políticas públicas, recolocou o Brasil no cenário internacional e reconstruiu alguma previsibilidade após um período de ruptura institucional profunda, o que recoloca o debate em um patamar mais concreto e menos performático, já que o que está em jogo não é apenas uma decisão pontual, mas a capacidade de distinguir análise de performance, realidade de projeção e política como prática concreta em oposição à política como espetáculo contínuo que hoje organiza uma parte relevante do debate público.












