Professora Edvânia Ângela de Souza analisa, no Democracia no Ar, como a chamada Indústria 4.0 aprofunda a precarização do trabalho, amplia o poder das plataformas e repõe velhas desigualdades sob novas formas tecnológicas
No programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Sara Goes, a professora e pesquisadora Edvânia Ângela de Souza debateu os principais argumentos do livro Capitalismo e Indústria 4.0: consequências para a classe trabalhadora, obra que organiza ao lado de outras pesquisadoras e que propõe uma leitura crítica das transformações tecnológicas em curso no capitalismo contemporâneo. A entrevista contou ainda com comentário de Sandra Helena.
Ao longo da conversa, Edvânia desmontou a ideia de que a tecnologia, por si só, produziria progresso social, melhoria das condições de vida ou redução do esforço humano. A pesquisadora sustentou que, sob a lógica do capital, a inovação tende a ser apropriada como instrumento de intensificação da exploração, ampliação do controle e reconfiguração de desigualdades históricas, inclusive raciais e regionais.
A autora explicou que o livro nasce de uma investigação realizada no Brasil e no Chile, desenvolvida inicialmente durante a pandemia, quando o crescimento das plataformas digitais e a reorganização do trabalho sob mediação algorítmica ganharam centralidade ainda maior. Segundo ela, a pesquisa buscou ouvir especialistas, estudiosos do tema, representantes do Estado e agentes ligados ao empresariado, compondo um mosaico sobre o avanço da chamada Indústria 4.0 no Sul global.
Edvânia situou a obra dentro de uma tradição crítica das Ciências Sociais e do Serviço Social, recusando tanto o encantamento ingênuo com a tecnologia quanto uma rejeição abstrata aos meios técnicos. Para ela, o problema não está na existência da tecnologia, mas na forma como ela é incorporada por relações sociais orientadas pela valorização do capital. “A tecnologia pode ser usada a nosso favor”, afirmou, ao defender que os trabalhadores e os meios de comunicação comprometidos com a democracia precisam disputar também esse terreno.
Essa formulação aparece como eixo de uma reflexão mais ampla: não se trata de aceitar o discurso empresarial segundo o qual as plataformas apenas ofereceriam eficiência, flexibilidade e modernização. Na leitura apresentada pela pesquisadora, o que se vê é a conversão de recursos técnicos sofisticados em novas ferramentas de subordinação. O trabalho continua central, mas agora mais fragmentado, mais invisibilizado e muitas vezes mais inseguro.
Ao detalhar a estrutura do livro, Edvânia lembrou que a publicação reúne contribuições de pesquisadores de referência, como Ricardo Antunes, Davidson Faustino, Adrián Sotelo e Ursula Huws, entre outros autores que examinam a reestruturação produtiva, a financeirização da economia, a superexploração do trabalho e o papel das plataformas digitais. A proposta é mostrar que, apesar do verniz futurista, a chamada nova economia não aboliu as velhas relações de dominação. Ao contrário, em muitos casos as radicalizou.
Um dos pontos mais fortes de sua análise diz respeito ao vínculo entre tecnologia, extração de riqueza e dependência. Edvânia ressaltou que o capitalismo digital não paira acima da matéria, nem vive apenas de códigos, aplicativos e interfaces. Ele depende de infraestrutura, energia, extração mineral e controle territorial. “Não existe software sem hardware”, resumiu, ao destacar que a expansão das big techs se conecta à disputa por minérios, dados e recursos naturais situados, em grande medida, em países periféricos.
Nessa chave, o debate sobre colonialismo digital ganha relevância decisiva. A pesquisadora explicou que as grandes empresas de tecnologia transformaram os dados em uma mercadoria estratégica e concentraram um poder sem precedentes sobre circulação de informação, organização do trabalho e definição de padrões de consumo. Não se trata apenas de inovação, mas de uma nova etapa da dependência, em que países como o Brasil fornecem matéria-prima, mercado consumidor e força de trabalho precarizada, enquanto o comando e a apropriação dos ganhos se mantêm concentrados.
A entrevista avançou também sobre o papel da ideologia nesse processo. Para Edvânia, a naturalização do empreendedorismo e da autogestão individual como solução universal para a sobrevivência encobre a deterioração dos vínculos de trabalho e desloca para o indivíduo a responsabilidade por riscos que são estruturais. Em vez de segurança, estabilidade ou direitos, oferece-se a promessa de autonomia. Em vez de cidadania social, vende-se a narrativa da liberdade para “se virar”.
Foi nesse ponto que a pesquisadora chamou atenção para um dado crucial da realidade brasileira: uma parte expressiva da classe trabalhadora jamais chegou, de fato, a experimentar plenamente o modelo de proteção associado ao emprego formal. Ao lembrar a história da exclusão de trabalhadores rurais, empregadas domésticas e amplos segmentos informais do sistema de direitos, Edvânia argumentou que o trabalho por plataformas não surge sobre um terreno neutro. Ele se apoia em uma estrutura histórica de desigualdade, racialização e desproteção.
A observação ajuda a compreender por que setores profundamente precarizados podem, ao mesmo tempo, manifestar resistência à regulamentação. Segundo a autora, não se pode reduzir esse fenômeno a uma escolha individual ou a uma suposta adesão espontânea à exploração. Há uma experiência histórica de informalidade, insegurança e “viração” que antecede os aplicativos e que ajuda a explicar por que a flexibilidade aparente pode ser percebida, em certos contextos, como alívio diante da rigidez também exploratória de outras formas de trabalho.
Ainda assim, a pesquisadora foi taxativa ao descrever a tendência em curso. “A tendência da informalidade, da insegurança social e da vida, ela se torna presente de forma muito central”, afirmou. Para ela, motoristas e entregadores são hoje a face mais visível de um processo mais amplo, em que metas, avaliações, disponibilidade permanente e remuneração rebaixada convergem para intensificar a exploração sob uma aparência de liberdade.
A crítica se aprofunda quando Edvânia articula essa realidade ao desgaste físico e psíquico do presente. Em um dos momentos mais marcantes da entrevista, ela recuperou uma formulação da jornalista Eliane Brum para sintetizar o espírito do tempo: “Estamos exaustos e correndo”. A frase, incorporada pela autora como chave interpretativa, resume uma sociedade em que o corpo passa a ser tratado como obstáculo a ser ajustado por estimulantes, ansiolíticos e remédios para dormir, de modo que o trabalhador continue produzindo apesar do sofrimento.
Não se trata apenas de uma metáfora. Na visão exposta pela pesquisadora, a aceleração constante, a pressão por produtividade e a dissolução das fronteiras entre tempo de vida e tempo de trabalho criam uma sociabilidade marcada por adoecimento, ansiedade e esgotamento. O que aparece como inovação organizacional é, em muitos casos, a imposição de um ritmo incompatível com a experiência humana.
Outro aspecto importante levantado por Edvânia diz respeito à produção de discurso sobre a tecnologia na grande imprensa. A partir do levantamento realizado para o livro, ela mostrou que a cobertura de veículos empresariais, como a Folha de S.Paulo, tratou a Indústria 4.0 predominantemente sob a ótica da inovação e da adaptação exigida aos trabalhadores, quase sem ouvir representantes da classe trabalhadora. Em anos de recorte pesquisado, foram raríssimos os momentos em que vozes críticas ou sindicais apareceram com algum destaque.
Esse silenciamento não é secundário. Ele faz parte da disputa política pelo sentido das transformações em curso. Quando apenas empresários, investidores e gestores falam sobre o futuro do trabalho, a precarização pode ser reembalada como modernização inevitável, e a corrosão de direitos passa a ser vendida como atualização necessária.
Apesar do diagnóstico duro, a entrevista não se encerrou em tom fatalista. Edvânia insistiu que a tecnologia deve ser compreendida como produto histórico do trabalho humano e, portanto, como campo de disputa. Meios digitais, redes e plataformas podem ser apropriados criticamente por trabalhadores, movimentos e veículos comprometidos com a democracia, desde que não se perca de vista a estrutura social em que operam. Sua fala, nesse sentido, recusa tanto a celebração ingênua do “novo” quanto a fuga romântica da técnica.
Ao final, a pesquisadora reafirmou a importância do Serviço Social e das tradições críticas que seguem pensando o trabalho, a desigualdade e a vida social para além do discurso encantado da inovação. E deixou claro que compreender a Indústria 4.0 exige mais do que acompanhar modismos tecnológicos. Exige observar quem trabalha, quem lucra, quem adoece, quem é silenciado e quem continua sendo tratado como peça descartável de uma modernização que promete futuro, mas frequentemente repõe o passado sob novas interfaces.
Livro citado na entrevista, Capitalismo e indústria 4.0: consequências para a classe trabalhadora, foi publicado pela Editora Cortez e reúne reflexões sobre trabalho, plataformas digitais, financeirização, colonialismo digital, racismo algorítmico e os impasses impostos à classe trabalhadora em uma etapa do capitalismo que se apresenta como inovação, mas aprofunda antigas formas de dominação.
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