Atitude Popular

“Eu fico muito triste quando eu vejo a prefeitura gastar milhões e milhões trazendo gente de fora”

No Café com Democracia, Tiago Porto e Nilo Jr. defendem carnaval de rua, fortalecimento de blocos e valorização da música cearense

O carnaval de rua de Fortaleza, com seus blocos, cortejos e comunidades ocupando a cidade, foi o centro do debate no programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, com os convidados Tiago Porto, percussionista e organizador do Bloco Luxo da Aldeia, e Nilo Jr., administrador de empresas, cantor e compositor. A conversa, exibida na TV Atitude Popular, colocou em pauta desde a tradição dos blocos que “andam” até as políticas de incentivo cultural e as escolhas de programação do poder público.

A seguir, o texto foi elaborado a partir da transcrição do programa Café com Democracia (TV Atitude Popular), com reorganização jornalística e edição para clareza, preservando fielmente as falas citadas.

Bloco que anda, cidade que participa

Logo no início, Luiz Regadas apresenta a proposta: discutir o carnaval como festa popular em movimento, “carnaval com bloco na rua”, e chama a audiência a participar com mensagens e comentários, reforçando a identidade do programa como parte de uma rede de comitês populares.

Nilo Jr. puxa a memória afetiva do carnaval fortalezense e marca uma linha do tempo do que viveu: os desfiles na Duque de Caxias, o banho de mela-mela, e depois a força dos blocos e maracatus na Domingos Olímpio. Ele se coloca como participante ativo do bloco É só isso mesmo, e traduz o valor do cortejo como algo que atravessa gerações e bairros.

Tiago Porto, por sua vez, conta que sua relação com a festa não começou em Fortaleza, mas em Aracati, onde viveu por muitos anos. Ele descreve a experiência de ter crescido no carnaval de rua e lembra que, nos anos 1990, Aracati ganhou dimensões maiores, com uma lógica parecida com carnavais de trio elétrico. A partir desse repertório, explica como nasceu a ideia do Luxo da Aldeia, ainda nos anos 2006/2007, inspirado por lideranças e “mestres carnavalescos” do próprio meio.

Luxo da Aldeia e a escolha de cantar o Ceará

Tiago define o projeto do bloco como uma celebração da música cearense, inclusive de canções “não carnavalescas” que o grupo “carnavaliza” para a rua e para os palcos:

“A ideia do Luxo da Aldeia [é] um bloco que canta as músicas dos compositores cearenses de carnaval ou não carnavalescas.” (Tiago Porto)

Ele explica que o Luxo da Aldeia tem uma dinâmica específica: costuma se apresentar em palcos por diferentes pontos da cidade, em programações de editais e agendas públicas. Ao longo dos anos, o bloco deu visibilidade a repertórios associados a nomes como Fausto Nilo e Ednardo, além de composições próprias e parcerias.

Entre as canções citadas como queridas pelo público, Tiago menciona “Carneiro”, “Maresia” e músicas que já viraram marca do bloco. No meio do relato, ele compartilha uma cena típica de carnaval: o bloco tocando sob chuva forte, a ironia do público cantando “um sol” enquanto o aguaceiro desaba, e o aprendizado de quem faz festa popular com “um olho na agenda e outro na previsão do tempo”.

Editais, diálogo e a necessidade de entender “a particularidade dos blocos”

Ao ser questionado sobre incentivo cultural, Tiago retoma a história dos editais municipais no período de criação do Luxo da Aldeia e situa o pré-carnaval como tradição forte na capital, lembrando fenômenos de rua que atraíam multidões. Na visão dele, mais do que apenas “colocar palco”, a política pública precisa compreender a forma como cada bloco constrói a festa e o papel de quem circula pela cidade:

“É bom entender a particularidade também desses blocos que circulam, que andam pela cidade.” (Tiago Porto)

Na mesma linha, ele defende que fortalecer iniciativas e multiplicar blocos cria um efeito de rede, em que um puxa público do outro e a rua ganha densidade cultural. Para ele, bloco pode nascer de tudo: de um bairro, de uma esquina, de uma batucada simples, e a cidade deveria estimular esse ecossistema.

“Não tem que botar mais palco. Tem que botar mais bloco.” (Tiago Porto)

“Anistia é meus ovos” e a política cantada na rua

O programa também abre espaço para um exemplo de como a música de carnaval pode carregar mensagem política. Nilo Jr. conta como surgiu a canção “Anistia é meus ovos”, associada a Maurício (citado como figura criativa e central no bloco É só isso mesmo). Ele relata que a frase nasceu de um impulso político anterior (“impeachment meus ovos”), e que depois virou música com composição, melodia e interpretação que repercutiu bem entre o público.

A música é apresentada no programa e comentada como atual num contexto de disputa política e eleitoral, reafirmando a ideia de que carnaval e democracia se cruzam na rua, no refrão e na memória coletiva.

O que falta ao carnaval de Fortaleza

Na reta final, Luiz Regadas pergunta diretamente o que falta para o carnaval de Fortaleza melhorar. Tiago responde com a defesa do fortalecimento dos blocos e da ocupação territorial da festa, com mais circulação e mais iniciativas de bairro. Ele também destaca uma limitação prática do Luxo da Aldeia para virar “bloco andando”: a formação musical (metais, guitarra, baixo e estrutura de palco) torna mais complexa a saída em cortejo tradicional, embora ele deixe aberta a possibilidade de pensar formatos futuros, especialmente com a aproximação dos 20 anos do bloco.

Nilo Jr. amplia a crítica para a lógica de gastos públicos e escolhas de atrações, defendendo que o investimento deveria priorizar a cena local e a cultura de rua. Ele resume o incômodo com uma frase forte, que virou a espinha do debate:

“Eu fico muito triste quando eu vejo a prefeitura gastar milhões e milhões trazendo gente de fora.” (Nilo Jr.)

Ele também afirma que o carnaval fortalezense tem identidade própria, muito ligada ao pré-carnaval e aos blocos, e que a festa de rua representa o tipo de democracia que se quer: plural, misturada, com gente de todas as classes e idades.

“É a participação do povo nas ruas, participação de todo tipo de gente, de todas as classes.” (Nilo Jr.)

Programação do Luxo da Aldeia citada no programa

No Café com Democracia, Tiago Porto informou três apresentações do Luxo da Aldeia durante o carnaval: no polo Benfica (sábado à tarde e segunda no fim da tarde) e na terça-feira, na Domingos Olímpio, abrindo show antes de Chico César, citado como artista admirado pelo bloco e com quem já dividiram palco.

A cena que resume a rua

Ao fim, Nilo Jr. descreve o que, para ele, é a imagem mais bonita do bloco andando: quando o cortejo passa e as senhoras idosas saem à calçada para dançar e acenar. Uma cena pequena, mas que carrega o sentido do carnaval popular: o bairro virando plateia e protagonista ao mesmo tempo.


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📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
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