Atitude Popular

“Eu me sinto como um guerreiro na trincheira em defesa da cultura e da democracia”

Almanaque Tupynanquim reúne cordel, arte gráfica e crítica social para valorizar a identidade nordestina e dialogar com o presente

Em um cenário em que a cultura popular ainda enfrenta barreiras de circulação e reconhecimento, iniciativas independentes seguem abrindo caminhos e reinventando linguagens. Foi nesse contexto que o programa Café com Democracia, da rede Atitude Popular, recebeu o escritor, ilustrador e editor cearense Klévisson Viana para discutir sua principal criação: o almanaque Tupynanquim, uma publicação que mistura tradição e contemporaneidade com forte identidade nordestina.

Durante a entrevista, exibida na programação da emissora comunitária, Klévisson apresentou sua trajetória e detalhou como o projeto nasceu de uma inquietação criativa que remonta à infância, quando teve contato com antigos almanaques populares. “A vontade de criar um almanaque vem desde menino. Sempre fui encantado com essa ideia de reunir vários conteúdos em um só lugar, como uma grande vitrine”, afirmou.

Um balaio cultural com sotaque nordestino

O Tupynanquim é definido por seu criador como uma “miscelânea de estilos”, reunindo cordéis, crônicas, fábulas, artigos e artes visuais. A proposta é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: oferecer uma leitura acessível, plural e conectada ao ritmo contemporâneo, sem abrir mão das raízes culturais.

“São textos curtos, leitura rápida. Isso dialoga com o mundo de hoje, em que as pessoas têm pouco tempo. Mas, ao mesmo tempo, o conteúdo carrega profundidade”, explicou.

A publicação também se destaca pela construção coletiva. Embora o primeiro número tenha sido feito praticamente de forma individual, as edições seguintes passaram a incorporar colaboradores de diferentes áreas e regiões. “Hoje o almanaque é uma vitrine de muitos olhares, muitos autores. Alguns permanecem, outros vão chegando”, disse.

Contra o estereótipo: outro Nordeste possível

Um dos pontos centrais da obra de Klévisson é a disputa simbólica sobre a imagem do Nordeste. Ele critica a visão limitada e estigmatizada frequentemente reproduzida nos meios de comunicação.

“O nosso Nordeste não é aquele lugar seco, esturricado, com caveira de boi na estrada. Existe isso, claro, mas também existe festa, alegria, cultura vibrante”, destacou.

As capas e conteúdos do almanaque reforçam essa perspectiva: referências a figuras como Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré, Ariano Suassuna e personagens do imaginário popular convivem com cenas festivas, religiosas e cotidianas, compondo um retrato mais amplo e diverso da região.

Tradição reinventada para novos públicos

A xilogravura, o cordel e outras expressões tradicionais ocupam espaço central no projeto, mas são constantemente ressignificadas. Klévisson explicou que busca adaptar essas linguagens para dialogar com públicos mais jovens e com as redes digitais.

“Trazer a xilogravura, o cordel, mas também abrir espaço para novas linguagens. O almanaque é esse encontro”, afirmou.

Além disso, a publicação tem servido como espaço de memória e registro cultural. Ao longo dos anos, passou a reunir produções de artistas de diferentes estados, funcionando como uma espécie de arquivo vivo da cultura popular contemporânea.

Cultura, política e compromisso social

Mais do que uma iniciativa editorial, o Tupynanquim também assume um posicionamento político. Klévisson não esconde o caráter engajado de sua obra, especialmente em defesa da democracia e das camadas mais vulneráveis.

“Minha obra é voltada para a defesa do mais frágil, do mais vulnerável. A gente precisa construir um país melhor, e a cultura tem um papel nisso”, afirmou.

Ele também alertou para o crescimento de discursos autoritários e reforçou a importância da produção cultural como ferramenta de resistência. Para o autor, o Brasil vive um momento que exige atenção, sobretudo em períodos eleitorais.

Circulação alternativa e reconhecimento crescente

Apesar de ainda operar em circuitos independentes, o almanaque tem ampliado seu alcance. Parte das edições já está esgotada, e a obra começa a despertar interesse acadêmico e institucional.

“A circulação ainda é tímida, mas tem chegado nas mãos certas. E isso é o mais importante”, avaliou.

Com mais de 60 livros publicados e centenas de folhetos de cordel, Klévisson também destacou conquistas como a seleção de obras em editais do Ministério da Educação, garantindo presença em bibliotecas públicas de todo o país.

Um projeto que resiste e floresce

Ao longo da entrevista, ficou evidente que o Tupynanquim é mais do que um produto editorial: é um projeto de vida, uma síntese entre arte, memória e militância cultural.

Entre versos, desenhos e reflexões, Klévisson reafirma o compromisso com uma cultura viva, popular e crítica — uma cultura que não se limita ao passado, mas dialoga com o presente e projeta futuros.

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