Da Redação
Em 2025, os Estados Unidos intensificaram pressões políticas, militares, econômicas e informacionais sobre a América Latina, ao mesmo tempo em que reformularam sua doutrina de defesa nacional. Sob o discurso de segurança hemisférica, Washington reposiciona a região como espaço estratégico de contenção geopolítica, reacendendo práticas intervencionistas e ameaçando a soberania dos países latino-americanos.
Uma mudança estrutural na postura dos Estados Unidos
O ano de 2025 marca um ponto de inflexão na relação entre os Estados Unidos e a América Latina. Sob a nova formulação de sua doutrina de defesa, Washington passou a tratar o hemisfério ocidental não apenas como área de influência histórica, mas como zona prioritária de contenção estratégica diante do avanço da multipolaridade global.
Essa reorientação não é retórica. Ela se traduz em ações concretas: pressões diplomáticas diretas, sanções econômicas seletivas, reativação de narrativas de segurança nacional, ampliação da presença militar indireta e uso crescente de instrumentos jurídicos, financeiros e informacionais para condicionar governos latino-americanos.
Do ponto de vista do Sul Global, trata-se de uma reedição adaptada do intervencionismo clássico, agora revestido de linguagem tecnológica, jurídica e moral.
A nova doutrina de defesa dos EUA: América Latina como “fronteira estratégica”
A atualização da doutrina de defesa norte-americana redefine prioridades globais. Embora China e Rússia sigam como adversários centrais, a América Latina passou a ser enquadrada como território sensível, onde Washington busca evitar a consolidação de alianças autônomas, projetos soberanos e integração Sul–Sul.
Os pilares centrais dessa nova doutrina são:
- defesa do “hemisfério ocidental” como espaço de segurança exclusiva dos EUA;
- combate ampliado a “ameaças híbridas”, conceito vago que inclui governos progressistas, regulação digital, soberania informacional e políticas externas independentes;
- instrumentalização do narcotráfico, da corrupção e da migração como justificativas de pressão política;
- uso intensivo de sanções, restrições financeiras e coerção diplomática;
- fortalecimento de operações de inteligência e guerra informacional.
Na prática, a doutrina redefine soberania latino-americana como risco estratégico, não como direito legítimo.
Pressões diretas sobre governos da região
Ao longo de 2025, os Estados Unidos intensificaram ações diretas contra governos que adotaram posições autônomas em política externa, economia, tecnologia ou integração regional.
Colômbia
O governo colombiano passou a ser alvo de retórica agressiva, ameaças veladas e acusações públicas relacionadas ao combate às drogas. A pressão não se limita à segurança: envolve também o reposicionamento diplomático do país e sua recusa em alinhar-se automaticamente a Washington.
Brasil
O Brasil tornou-se alvo indireto, mas estratégico. A defesa da soberania informacional, a regulação de plataformas digitais, a aproximação com o Sul Global e o protagonismo diplomático brasileiro provocaram reações de setores do establishment norte-americano. Sanções simbólicas, ataques retóricos e tentativas de constrangimento institucional marcaram o ano.
Venezuela e Cuba
Continuam sendo tratados como inimigos estruturais, com manutenção de sanções, cerco econômico e narrativa permanente de criminalização de seus governos, apesar dos impactos humanitários amplamente documentados.
México
O México enfrenta crescente pressão sob o pretexto de segurança de fronteira, migração e crime organizado. Na prática, Washington busca subordinar decisões internas mexicanas à sua agenda eleitoral e de segurança doméstica.
A instrumentalização da “segurança” como ferramenta política
O discurso da segurança é o eixo central da nova ofensiva. A doutrina norte-americana amplia artificialmente o conceito de ameaça, incorporando:
- políticas de desenvolvimento autônomo;
- regulação de big techs;
- controle soberano de dados;
- cooperação com China, Rússia e países do Sul Global;
- fortalecimento de empresas estatais e políticas industriais.
Tudo passa a ser enquadrado como risco à segurança hemisférica. Esse alargamento conceitual permite intervenções indiretas sem declaração formal de conflito.
Guerra híbrida e pressão informacional
Outro elemento central da ofensiva é o uso sistemático da guerra híbrida. Em 2025, observou-se:
- campanhas de desinformação contra governos latino-americanos;
- criminalização midiática de lideranças progressistas;
- uso seletivo de narrativas anticorrupção;
- articulação com setores internos alinhados a interesses externos;
- pressão sobre sistemas judiciais e legislativos.
Do ponto de vista do Sul Global, trata-se de uma estratégia de desestabilização de baixa intensidade, menos visível que intervenções militares clássicas, mas igualmente eficaz para enfraquecer projetos soberanos.
O papel das sanções como arma política
As sanções voltaram a ocupar lugar central. Diferentemente do passado, agora são:
- mais seletivas;
- direcionadas a indivíduos, instituições e setores específicos;
- combinadas com ameaças financeiras e restrições de vistos;
- utilizadas como sinal político, não apenas econômico.
Esse modelo busca criar medo, isolamento e divisão interna, ao mesmo tempo em que evita custos diretos para os EUA.
Reação da América Latina e do Sul Global
Apesar da ofensiva, 2025 também foi marcado por reações importantes:
- fortalecimento de fóruns regionais sem tutela externa;
- maior coordenação diplomática entre países do Sul Global;
- rejeição pública à lógica de “quintal geopolítico”;
- retomada do discurso de soberania e não intervenção;
- defesa de uma América Latina como zona de paz.
A região começa a compreender que o enfrentamento não é apenas militar ou econômico, mas informacional, institucional e civilizacional.
O impacto humano e social da ofensiva
Do ponto de vista do Sul Global, a ofensiva norte-americana não é abstrata. Ela produz efeitos concretos:
- aumento da instabilidade política;
- retração de investimentos produtivos;
- agravamento de crises sociais;
- pressão sobre políticas públicas;
- limitação da autonomia democrática.
Esses custos recaem majoritariamente sobre as populações, não sobre as elites que promovem a coerção externa.
América Latina como território em disputa global
A ofensiva de 2025 deixa claro que a América Latina voltou ao centro do tabuleiro geopolítico. Não como protagonista autônoma, mas como território disputado.
A diferença em relação ao passado é que, agora, há maior consciência política, memória histórica e articulação internacional para resistir. A narrativa de inevitabilidade da tutela externa começa a ruir.
Conclusão
Em 14 de dezembro de 2025, a América Latina vive um momento decisivo. A nova doutrina de defesa dos Estados Unidos consolida uma visão de mundo que nega a autonomia regional e trata projetos soberanos como ameaças estratégicas.
Sob o olhar do Sul Global, essa ofensiva representa não apenas um conflito geopolítico, mas uma disputa profunda sobre o direito dos povos de escolher seus próprios caminhos. A resposta latino-americana, ainda em construção, passa pela integração, pela soberania informacional, pela defesa das instituições democráticas e pela recusa em aceitar que o futuro da região seja decidido fora dela.
A história mostra que ciclos de intervenção não são eternos. O desafio colocado em 2025 é transformar resistência em projeto, e soberania em política concreta.


