Da Redação
Sanções, recompensas milionárias, isolamento financeiro e pressão diplomática marcam o fim de 2025 para a Venezuela. Do ponto de vista do Sul Global, a política dos Estados Unidos aprofunda uma estratégia de coerção que atinge a soberania do país e penaliza diretamente sua população.
o cenário entre Estados Unidos e Venezuela permanece marcado por uma escalada de medidas coercitivas adotadas por Washington contra Caracas. Ao longo do ano, o governo norte-americano reforçou sanções econômicas, ampliou mecanismos de pressão diplomática e manteve instrumentos de perseguição política que, na prática, consolidam um cerco prolongado ao Estado venezuelano. Para além da narrativa oficial de defesa da democracia, o que se observa, sob a ótica do Sul Global, é a continuidade de uma política de punição coletiva e de intervenção indireta nos assuntos internos de um país soberano.
O momento mais recente dessa ofensiva ocorreu no início de dezembro, quando os Estados Unidos reafirmaram sanções contra autoridades venezuelanas e mantiveram recompensas financeiras elevadas por informações que levem à captura de lideranças do governo, incluindo o presidente Nicolás Maduro. A utilização desse tipo de expediente, que transforma chefes de Estado em alvos formais de perseguição internacional, é vista por diversos países do Sul Global como um grave precedente, pois rompe princípios básicos do direito internacional e normaliza a lógica de mudança de regime por meios não militares.
Ao longo de 2025, as sanções norte-americanas seguiram impactando de forma estrutural a economia venezuelana. Embora Washington sustente o discurso de que as medidas seriam “direcionadas”, a realidade mostra um efeito sistêmico. O bloqueio financeiro dificulta transações bancárias, encarece importações, restringe seguros e logística internacional e afasta empresas estrangeiras por medo de sanções secundárias. O resultado prático é um bloqueio econômico de facto, que limita severamente a capacidade do país de operar no sistema financeiro global.
Para a população venezuelana, os impactos são diretos. A escassez de insumos, as dificuldades no abastecimento, o aumento do custo de vida e as limitações no acesso a medicamentos e equipamentos médicos seguem como consequências indiretas de uma política externa desenhada fora do país. Mesmo com esforços do governo venezuelano para reorganizar sua economia, flexibilizar controles internos e buscar novas parcerias internacionais, o cerco imposto por Washington continua sendo um obstáculo central à recuperação plena do país.
A dimensão geopolítica dessa ofensiva é incontornável. A Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo e ocupa posição estratégica no tabuleiro energético global. Ao restringir a capacidade do país de exportar livremente seu petróleo e acessar o sistema financeiro internacional, os Estados Unidos exercem influência direta sobre fluxos energéticos, preços e alianças regionais. Para o Sul Global, trata-se menos de uma disputa sobre democracia e mais de um conflito sobre controle de recursos estratégicos e autonomia política.
Em 2025, a pressão sobre Caracas também funcionou como sinal regional. Governos e analistas da América Latina, África e Ásia observam o caso venezuelano como um exemplo de como instrumentos financeiros, jurídicos e diplomáticos podem ser utilizados para disciplinar países que buscam caminhos soberanos ou alinhamentos fora da órbita de Washington. Essa lógica reforça a percepção de que o sistema internacional atual opera com pesos e medidas distintos, penalizando seletivamente governos não alinhados.
Nos fóruns multilaterais, cresce a crítica às medidas coercitivas unilaterais. Países do Sul Global reiteram que sanções impostas fora do marco das Nações Unidas enfraquecem o multilateralismo e concentram poder nas mãos de poucos Estados que controlam o sistema financeiro internacional. A Venezuela, nesse contexto, tornou-se um dos casos mais emblemáticos de como a economia pode ser utilizada como arma política sem a necessidade de intervenção militar direta.
Ao final de 2025, os canais diplomáticos entre Washington e Caracas seguem praticamente paralisados. As tentativas de diálogo foram substituídas por condicionantes, exigências unilaterais e ameaças explícitas. Em resposta, a Venezuela intensificou esforços para fortalecer relações com países e blocos que defendem uma ordem internacional multipolar, buscando alternativas comerciais, financeiras e tecnológicas para reduzir sua dependência de estruturas dominadas pelos Estados Unidos.
O balanço deste fim de ano revela um impasse prolongado. Os Estados Unidos mantêm a estratégia de cerco e pressão; a Venezuela resiste, adapta-se e tenta preservar margens mínimas de soberania. No centro dessa disputa assimétrica permanece a população venezuelana, que continua pagando o preço mais alto de uma política externa que, sob o olhar do Sul Global, não promove democracia nem estabilidade, mas aprofunda crises, desigualdades e tensões regionais.


