Da Redação
Uma extensa reportagem da revista de fim de semana do Financial Times coloca a família Bolsonaro no centro de uma análise sobre poder, sucessão, conflitos internos e a tentativa de Flávio Bolsonaro de herdar a liderança política construída pelo pai. O jornal britânico descreve o grupo como “tão radical quanto disfuncional” e compara sua combinação de política, redes sociais, celebridade e relações familiares à experiência da família Trump. A reportagem aparece a uma semana do primeiro turno, quando pesquisas mostram Lula e Flávio em disputa apertada. As caracterizações são avaliações do Financial Times e das fontes ouvidas pelo periódico, não conclusões factuais sobre a família. Financial Times
A fotografia escolhida para contar a história não é a de um comício. Tampouco é a de Jair Bolsonaro diante de uma multidão ou de Flávio Bolsonaro no palanque de sua campanha presidencial. O ponto de partida escolhido pelo Financial Times é uma briga de família.
A revista de fim de semana do jornal britânico dedicou sua capa deste sábado, 26 de setembro, aos Bolsonaro. A reportagem, assinada pelo jornalista Michael Pooler, chefe do escritório do periódico no Brasil, recebeu o título Scandal and succession in the House of Bolsonaro, ou “Escândalo e sucessão na Casa dos Bolsonaro”. A chamada apresenta a família como “tão radical quanto disfuncional” e atribui aos seus integrantes aquilo que define como um “estilo paranoico de política”. Financial Times
São expressões do próprio jornal e constituem a interpretação editorial que orienta a reportagem. O texto tenta sustentá-la reconstruindo episódios da trajetória política de Jair Bolsonaro, as diferenças entre seus filhos, a ascensão de Michelle Bolsonaro, o conflito entre ela e Flávio e os problemas recentes enfrentados pelo candidato presidencial do PL.
A comparação central é com a família de Donald Trump. Para o FT, os dois grupos representam uma forma contemporânea de política em que vida familiar, celebridade, redes sociais e disputa institucional pelo poder deixam de ocupar espaços separados. UOL Notícias
A escolha do momento para publicar a reportagem também é significativa. O primeiro turno brasileiro está marcado para 4 de outubro. Pesquisas recentes mostram uma disputa estreita entre Lula e Flávio Bolsonaro. No Datafolha divulgado na quinta-feira, Lula aparecia com 40% e Flávio com 36% no primeiro turno. Numa simulação de segundo turno, eram 47% para Lula e 45% para Flávio, diferença dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Outros institutos também registraram cenários estatisticamente apertados. Esses levantamentos descrevem o quadro no momento das entrevistas e não permitem antecipar o resultado das urnas. Al Jazeera
É nesse ambiente que o Financial Times transforma a história dos Bolsonaro em uma reportagem sobre sucessão.
A briga entre Michelle e Flávio como porta de entrada para a família
A reportagem começa com o episódio que expôs publicamente uma divisão que já vinha sendo relatada nos bastidores.
Em junho, Michelle Bolsonaro publicou um vídeo acusando Flávio de tê-la desrespeitado durante uma disputa sobre a condução política do PL e alianças regionais. A ex-primeira-dama disse ter sofrido uma “facada nas costas” e posteriormente deixou o comando do PL Mulher. A crise não ficou restrita à imprensa brasileira: a Reuters registrou naquele momento que o conflito complicava a estratégia eleitoral de Flávio, especialmente porque Michelle havia construído uma presença própria entre mulheres conservadoras e eleitoras evangélicas. Reuters
O Financial Times usa esse episódio para mostrar que a sucessão de Jair Bolsonaro não ocorre dentro de uma estrutura familiar politicamente homogênea.
Segundo fontes ouvidas pelo jornal, a relação de Michelle com Flávio e Eduardo seria fria, embora civilizada, enquanto Carlos não manteria contato com a madrasta. O pastor Silas Malafaia, aliado histórico de Jair Bolsonaro e responsável pela celebração de seu casamento com Michelle, disse ao FT que a disputa envolve a própria herança política construída pelo ex-presidente. Correio Braziliense
Michelle e Flávio fizeram posteriormente uma reconciliação pública, depois de semanas de intervenção de aliados. Mas a reportagem interpreta o episódio como revelador de um problema maior: Jair continua sendo a referência comum do grupo, porém sua impossibilidade de disputar a Presidência tornou inevitável a discussão sobre quem representa politicamente seu legado. Correio Braziliense
A situação do ex-presidente mudou radicalmente desde a eleição de 2022.
Jair Bolsonaro foi condenado no processo sobre a tentativa de impedir a transferência de poder depois de sua derrota eleitoral. Atualmente cumpre pena de 27 anos em prisão domiciliar por razões de saúde. A Reuters registra que a condenação decorre da tentativa de reverter o resultado da eleição de 2022. Reuters
O FT constrói sua narrativa em torno dessa mudança. O personagem que antes concentrava praticamente toda a autoridade política da família permanece como referência, mas já não pode ocupar diretamente o lugar que ocupava.
A reportagem descreve os demais integrantes a partir de suas funções dentro desse sistema familiar.
Flávio aparece como aquele que procura apresentar uma versão menos confrontadora do bolsonarismo. Ele próprio já utilizou expressões como “Bolsonaro vacinado” para diferenciar seu estilo do pai. Pessoas próximas ouvidas pelo jornal o descrevem como mais tranquilo e menos agressivo, enquanto o ex-vice-presidente Hamilton Mourão afirma que ele nunca se caracterizou por discursos particularmente hostis. UOL Notícias
Carlos aparece associado à máquina de comunicação digital da família. O FT recorda seu papel nas redes sociais e registra que parentes o chamam de “pit bull da família”. Eduardo é apresentado como o filho cujo estilo político mais se aproxima do pai e como responsável por parte importante das conexões construídas com a direita norte-americana. UOL Notícias
A situação de Eduardo, porém, também mudou. Ele perdeu o mandato de deputado depois de ultrapassar o limite constitucional de faltas e, em junho, foi condenado pelo Supremo a quatro anos e dois meses de prisão por sua atuação nos Estados Unidos buscando pressionar autoridades norte-americanas durante o processo contra o pai. Eduardo contesta a interpretação da Justiça e afirma que sua atuação pretendia responsabilizar autoridades brasileiras que, segundo ele, violavam a Constituição. A condenação foi confirmada pela Reuters e o deixa sujeito à prisão caso retorne ao Brasil. Reuters
Michelle ocupa outro espaço na narrativa. O FT recupera sua origem social, sua atuação entre evangélicos e mulheres e a transformação de uma primeira-dama inicialmente discreta em personagem com capital político próprio. Em 2026, ela concorre ao Senado pelo Distrito Federal. Correio Braziliense
O resultado é uma família que compartilha um sobrenome politicamente poderoso, mas cujos integrantes possuem interesses, estratégias e posições institucionais diferentes.
É essa tensão que o Financial Times chama de “disfuncional”.
Não se trata de uma categoria objetiva ou jurídica. É uma caracterização jornalística sustentada pelo periódico a partir dos conflitos que descreve.
Vorcaro, o filme sobre Jair e o problema da tentativa de apresentar um “Bolsonaro moderado”
Um dos trechos mais sensíveis da reportagem trata de Flávio.
O candidato tenta simultaneamente preservar a identificação com o pai e construir uma personalidade política própria. O problema apontado pelo FT é que essa operação ocorre enquanto episódios recentes voltam a conectá-lo a controvérsias que dificultam a apresentação de uma candidatura renovada.
O caso mais importante envolve Daniel Vorcaro e o filme Dark Horse, produção em língua inglesa sobre Jair Bolsonaro protagonizada pelo ator norte-americano Jim Caviezel.
A existência da negociação não depende apenas do relato do Financial Times.
Em maio, a Reuters confirmou que Flávio reconheceu ter procurado Vorcaro para financiar o projeto. O senador afirmou que buscava investimento privado para um filme privado sobre a trajetória do pai, disse que o contato aconteceu antes de os problemas judiciais do banqueiro se tornarem públicos e negou qualquer contrapartida política. Reuters
Reportagem do Intercept, posteriormente parcialmente corroborada pela Reuters quanto à autenticidade de mensagens apreendidas pela Polícia Federal, afirmou que Vorcaro havia se comprometido a colocar US$ 24 milhões no projeto e que aproximadamente metade teria sido paga. A produtora GOUP Entertainment declarou, porém, que não recebeu dinheiro diretamente de Vorcaro ou de suas empresas. Flávio confirmou o acordo, mas negou irregularidades. Portanto, há diferenças importantes entre o contrato negociado, os valores efetivamente desembolsados e quem teria recebido os recursos. Reuters
É nesse ponto que a reportagem do FT coloca lado a lado a tentativa de moderação de Flávio e um dos maiores escândalos financeiros recentes de Brasília.
Vorcaro foi preso em março sob suspeita de comandar uma fraude multibilionária relacionada ao Banco Master. A existência de uma relação financeira anterior entre ele e o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro tornou-se parte da campanha, embora o simples contato ou financiamento privado não demonstre, por si só, a existência de crime por parte de Flávio. Reuters
Essa ressalva é essencial.
O FT constrói uma narrativa política em torno do episódio. A apuração disponível estabelece que Flávio participou da busca por financiamento, que Vorcaro assumiu um compromisso com o projeto e que mensagens entre os dois foram apreendidas. Flávio afirma que não ofereceu benefício público em troca do investimento e que se tratava de uma negociação privada. Reuters
A reportagem também situa a candidatura de Flávio dentro de uma disputa mais ampla da direita brasileira.
Durante parte do ciclo pré-eleitoral, setores empresariais e lideranças de centro-direita discutiram alternativas como Tarcísio de Freitas. Flávio, porém, acabou assumindo a candidatura presidencial do campo político construído pelo pai e chegou à última semana de campanha disputando as primeiras posições nas pesquisas. Reuters
Isso produz uma contradição que atravessa a reportagem.
Para se diferenciar, Flávio precisa convencer parte do eleitorado de que não é simplesmente uma repetição de Jair.
Para manter a base política herdada, precisa demonstrar justamente o contrário: que continua representando o projeto político do pai.
O próprio ritual da convenção partidária explicitou essa tensão. Como Jair não podia participar normalmente da campanha, sua imagem apareceu por meio de um avatar produzido com inteligência artificial para apresentar Flávio como sucessor. Correio Braziliense
O pai estava ausente fisicamente, mas presente como fundamento simbólico da candidatura.
Uma reportagem sobre a sucessão de um movimento político
É nesse ponto que a matéria do Financial Times ultrapassa o inventário de conflitos familiares.
A pergunta que organiza o texto é o que acontece com um movimento político fortemente identificado com uma pessoa quando essa pessoa deixa de poder disputar diretamente o poder.
Jair Bolsonaro passou mais de três décadas na política institucional antes de chegar à Presidência em 2018. Durante seu governo, construiu uma relação estreita com Donald Trump, enfrentou fortes críticas por sua condução da pandemia e governou num período em que o desmatamento da Amazônia aumentou. O FT recupera também declarações anteriores do ex-presidente em defesa da ditadura militar e da tortura e suas conhecidas declarações ofensivas contra adversários políticos. UOL Notícias
O periódico utiliza esse histórico para explicar por que emprega o termo “radical”. Trata-se, novamente, da classificação adotada pelo jornal britânico, não de uma qualificação que precise ser aceita para compreender os fatos relatados.
O mesmo cuidado vale para a comparação com Trump.
Existem conexões políticas documentadas entre as duas famílias. Jair Bolsonaro cultivou proximidade com Trump quando ambos estavam na Presidência. Eduardo estabeleceu relações com integrantes da direita norte-americana. Mais recentemente, Flávio e Eduardo estiveram com Trump na Casa Branca. Reuters
Mas o Financial Times vai além da existência desses contatos ao propor uma analogia política: em sua interpretação, as duas famílias transformaram o sobrenome, a exposição midiática, as redes sociais e as relações familiares em componentes de uma estrutura de poder.
É uma tese da reportagem.
A disputa brasileira, entretanto, possui instituições, legislação eleitoral, sistema partidário e história política próprios. A analogia ajuda a compreender o enquadramento adotado pelo FT, mas não torna os dois fenômenos idênticos.
O jornal britânico também apresenta diferentes hipóteses sobre o futuro político da família dependendo do resultado das eleições. Essas projeções devem ser entendidas como cenários construídos pela reportagem, não como previsões. Com o primeiro turno ainda por realizar, não existe base factual para afirmar qual delas ocorrerá. As pesquisas disponíveis mostram uma disputa apertada e têm margens de erro que precisam ser consideradas. Al Jazeera
Há, contudo, um fato político que independe do resultado eleitoral: a candidatura de Flávio transformou a sucessão de Jair Bolsonaro de uma discussão abstrata em um processo concreto.
Michelle possui capital eleitoral próprio e concorre ao Senado. Carlos mantém influência no ecossistema digital ligado à família. Eduardo continua politicamente ativo a partir dos Estados Unidos apesar da condenação e da perda do mandato. Flávio ocupa o lugar de candidato presidencial. E Jair, mesmo condenado e afastado da disputa eleitoral, permanece como principal referência simbólica desse campo. Correio Braziliense
A reportagem de capa do Financial Times registra justamente esse momento.
Por isso, o aspecto mais relevante do texto não está necessariamente nos adjetivos escolhidos pelo jornal britânico. “Radical”, “disfuncional” e “paranoico” são caracterizações editoriais que podem ser discutidas e contestadas.
O material jornalístico que sustenta a reportagem é mais concreto: a briga pública entre Michelle e Flávio, a disputa pela herança política do ex-presidente, a tentativa de Flávio de combinar continuidade e moderação, a atuação internacional de Eduardo, o papel digital de Carlos, as negociações relacionadas ao filme financiado por Vorcaro e a permanência de Jair como referência central mesmo depois de condenado.
A uma semana do primeiro turno, um dos principais jornais econômicos internacionais decidiu colocar essa história na capa não apenas para explicar quem são os Bolsonaro, mas para examinar como uma liderança política construída em torno de Jair tenta sobreviver à impossibilidade de o próprio Jair voltar às urnas agora.
Nesse sentido, a capa do Financial Times é menos um retrato doméstico de uma família do que uma reportagem sobre a institucionalização de uma herança política. O que as urnas farão com essa herança permanece uma decisão dos eleitores brasileiros.


