Atual candidato à Presidência defendeu a legalização dos jogos durante o governo do pai e integrou viagem oficial a Las Vegas em meio ao interesse de grupos internacionais no mercado brasileiro
Da Redação com informações do Drops de Jogos
Muito antes de as bets se tornarem um problema de saúde pública e endividamento no Brasil, Flávio Bolsonaro (PL) já participava das discussões sobre a ampliação do mercado de jogos no país. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o atual candidato à Presidência defendeu publicamente a legalização dos jogos de azar e participou de uma viagem oficial aos Estados Unidos que incluiu reuniões com representantes da Las Vegas Sands, uma das maiores empresas de cassinos do mundo.
O histórico voltou ao debate a partir de artigos publicados pelo jornalista Pedro Zambarda no Drops de Jogos. A documentação disponível confirma a atuação de Flávio em favor da legalização dos jogos e sua participação nas articulações com o setor. É necessário, porém, distinguir esse movimento da legalização das apostas esportivas de quota fixa, as bets, que ocorreu por meio de uma lei sancionada em 2018, antes de Flávio assumir seu mandato no Senado.
As bets foram legalizadas ainda no governo Temer
As apostas esportivas de quota fixa foram autorizadas no Brasil pela Lei 13.756, sancionada em dezembro de 2018 pelo então presidente Michel Temer. A norma criou a modalidade e estabeleceu que ela seria regulamentada posteriormente.
Portanto, não seria preciso atribuir a Flávio a criação ou a legalização inicial das bets. Quando a lei foi sancionada, ele ainda era deputado estadual no Rio de Janeiro e havia acabado de ser eleito senador.
O problema surgiu nos anos seguintes. A regulamentação prevista não foi concluída dentro do prazo originalmente estabelecido, enquanto empresas estrangeiras passaram a oferecer apostas pela internet aos brasileiros. O resultado foi uma expansão acelerada do mercado em uma situação regulatória incompleta.
O governo Lula estabeleceu posteriormente uma regulamentação mais abrangente para o setor, com regras tributárias, exigências para autorização das empresas, mecanismos contra lavagem de dinheiro e normas de publicidade e proteção aos apostadores.
Flávio defendia uma abertura ainda maior para os jogos
Embora a criação das bets não possa ser atribuída ao senador, a posição política de Flávio sobre jogos de azar está amplamente documentada. Durante o governo Bolsonaro, ele se tornou um dos defensores da legalização de cassinos e de uma abertura mais ampla desse mercado.
Em 2021, reportagem do Estadão registrava que Flávio fazia lobby favorável à legalização dos jogos. A discussão colocava setores do Centrão e integrantes do governo em conflito com parlamentares evangélicos, que argumentavam que a expansão da jogatina poderia aumentar dependência, endividamento e problemas familiares.
Flávio defendia especialmente o modelo de resorts integrados, nos quais hotéis, centros de convenções, restaurantes e outras estruturas turísticas funcionariam associados a cassinos.
Viagem oficial levou Flávio a Las Vegas
Em janeiro de 2020, Flávio viajou aos Estados Unidos em missão oficial ao lado do senador Irajá e de integrantes da estrutura de turismo do governo Bolsonaro. A agenda passou por Miami e Las Vegas e foi custeada com recursos públicos.
Segundo registros do Senado citados pela imprensa, a missão incluía reuniões relacionadas ao turismo, cruzeiros marítimos e atração de investimentos. Flávio recebeu diárias do Senado para participar da viagem.
Em Las Vegas, a comitiva brasileira manteve reuniões com a Las Vegas Sands. O grupo tinha interesse declarado em entrar no mercado brasileiro caso o país autorizasse a instalação de cassinos associados a grandes resorts.
Depois da viagem, Flávio divulgou publicamente o interesse da companhia em investir bilhões de dólares no Brasil e defendeu que o país fizesse seu “dever de casa” para viabilizar os investimentos.
Quem era Sheldon Adelson
A Las Vegas Sands havia sido fundada pelo bilionário Sheldon Adelson, um dos empresários mais influentes da indústria mundial de cassinos. Adelson também possuía uma atuação política expressiva nos Estados Unidos e foi um dos principais financiadores do Partido Republicano e de Donald Trump.
O empresário tinha interesse antigo no Brasil. Antes mesmo da eleição de Jair Bolsonaro, já mantinha contatos com autoridades brasileiras e defendia a autorização de resorts integrados a cassinos.
Em 2018, Adelson discutiu a possibilidade de um empreendimento bilionário no Rio de Janeiro. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o empresário defendia um modelo específico: cassinos instalados dentro de grandes resorts, exatamente o segmento de atuação da Las Vegas Sands.
Família Bolsonaro entrou na articulação
Durante o governo Bolsonaro, o interesse empresarial encontrou interlocutores dentro da própria família presidencial. Reportagem da Agência Pública mostrou que Flávio e Eduardo Bolsonaro participaram das articulações pela legalização dos cassinos em resorts.
Segundo a apuração, os dois assumiram protagonismo na movimentação parlamentar durante o segundo semestre de 2020. Assessores do Ministério do Turismo ouvidos pela Pública afirmaram, na época, que havia interesse da própria Casa Branca no avanço da pauta.
A reportagem também mostrou que Donald Trump chegou a conversar com Jair Bolsonaro sobre o tema durante encontro realizado em Washington, em março de 2019. Adelson mantinha relação próxima com Trump e estava entre seus maiores financiadores políticos.
Projeto apresentado depois da viagem seguia modelo dos resorts
O senador Irajá, que acompanhou Flávio na viagem, apresentou posteriormente o PL 4.495/2020, destinado a permitir resorts integrados com cassinos no Brasil.
Irajá afirmou à Agência Pública que a viagem a Las Vegas havia servido para estudar o sistema americano e que elementos observados nos Estados Unidos foram incorporados à proposta elaborada posteriormente.
O projeto coincidia com o modelo defendido pela Las Vegas Sands para entrar no mercado brasileiro. Isso não significa, por si só, que a empresa tenha redigido ou controlado a proposta. Mostra, entretanto, que a viagem ocorreu dentro de uma articulação política e empresarial concreta pela abertura do mercado brasileiro de cassinos.
Cassinos e bets não são a mesma coisa
Essa distinção é importante para compreender o papel de Flávio sem atribuir a ele algo que os registros não demonstram. Bets são plataformas de apostas de quota fixa, originalmente associadas principalmente a eventos esportivos. Cassinos envolvem jogos como roleta, cartas e máquinas, embora atualmente as fronteiras comerciais entre diferentes modalidades de apostas online tenham se tornado mais complexas.
Flávio não foi o autor da lei de 2018 que autorizou as bets. Sua atuação documentada ocorreu principalmente na defesa de uma abertura mais ampla do mercado de jogos, particularmente dos cassinos e resorts integrados.
O histórico é relevante no debate atual porque o crescimento das apostas passou a produzir consequências que ganharam dimensão social. Endividamento, comportamento compulsivo e comprometimento da renda familiar levaram o governo a aumentar as restrições e o SUS a ampliar o atendimento destinado a pessoas com problemas relacionados ao jogo.
Assim, há elementos suficientes para afirmar que Flávio Bolsonaro foi um defensor ativo da expansão dos jogos de azar no Brasil e participou de articulações com representantes da indústria internacional de cassinos. Atribuir a ele a responsabilidade direta pela criação das bets, porém, mistura processos legislativos distintos e vai além do que a cronologia e os documentos permitem afirmar.

