Da Redação
O senador Flávio Bolsonaro comemorou a vitória do ultradireitista Abelardo de la Espriella na eleição presidencial da Colômbia e afirmou que a direita “segue triunfando” na América Latina. A declaração foi feita após o candidato conservador derrotar, em disputa apertada, o representante da esquerda Iván Cepeda.
Pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio tratou o resultado colombiano como sinal de avanço regional da direita. Em suas redes, o filho de Jair Bolsonaro apresentou a vitória de De la Espriella como parte de uma onda conservadora no continente e voltou a usar uma linguagem marcada pela divisão moral da política entre “bem” e “mal”.
Abelardo de la Espriella construiu sua campanha com discurso de linha dura na segurança pública, crítica ao governo de Gustavo Petro e defesa de pautas próximas ao trumpismo. Advogado milionário e figura conhecida na política colombiana, ele se projetou como candidato antissistema, embora tenha recebido apoio de setores tradicionais da direita e de lideranças internacionais conservadoras.
A eleição colombiana ocorre em um ambiente de forte polarização, crescimento da violência ligada ao narcotráfico e disputa sobre os rumos do acordo de paz firmado no país. A vitória da ultradireita encerra o ciclo iniciado com Petro, primeiro presidente progressista da história colombiana, e recoloca Bogotá no eixo político de governos conservadores da região.
A comemoração de Flávio e o espelho latino-americano
A celebração de Flávio Bolsonaro tem relação direta com a disputa presidencial brasileira de 2026. Ao elogiar De la Espriella, o senador busca vincular sua própria candidatura a uma rede internacional de lideranças de direita que inclui Donald Trump, Javier Milei e outros nomes conservadores da América Latina.
A estratégia não é nova. O bolsonarismo costuma transformar eleições estrangeiras em peças de mobilização interna, apresentando vitórias da direita em outros países como sinais de uma tendência continental. O objetivo é reforçar a ideia de que o campo conservador estaria em ascensão e que o Brasil deveria acompanhar esse movimento.
No entanto, a experiência recente da região mostra que vencer eleições não significa governar bem. Em vários países latino-americanos, governos de direita chegaram ao poder com promessas de ordem, crescimento e estabilidade, mas passaram a enfrentar crises sociais, fome, protestos, violência e deterioração das condições de vida.
Direita no poder, crise certa
Na Argentina, Javier Milei reduziu a inflação em relação ao pico herdado, mas sua política de choque aprofundou a crise social. A população enfrenta queda do poder de compra, insegurança alimentar e dependência crescente de cozinhas comunitárias e redes de solidariedade. Para milhões de argentinos, o ajuste fiscal chegou como fome, desemprego e perda de direitos.
No Chile, José Antonio Kast chegou à Presidência com uma agenda conservadora centrada em segurança pública, imigração e endurecimento político. Sua vitória expressou o avanço da direita chilena, mas também ocorreu em um país ainda atravessado pela crise de representação aberta desde as grandes manifestações de 2019.
Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz enfrenta grave crise política e econômica agravada por mais de 50 dias de protestos. Os bloqueios de rodovias afetaram o abastecimento de alimentos, combustíveis e medicamentos. Paz decretou estado de emergência, medida aprovada pelo Parlamento. Após acordo com a principal central sindical, os bloqueios diminuíram, mas a situação continua tensa.
No Paraguai, Santiago Peña governa sob a hegemonia do Partido Colorado, força conservadora que domina a política nacional há décadas. O país mantém estabilidade macroeconômica, mas convive com desigualdade persistente, informalidade elevada e forte dependência de setores exportadores.
No Equador, Daniel Noboa chegou ao poder prometendo restaurar a segurança, mas o país segue mergulhado em uma crise marcada pela expansão do narcotráfico, assassinatos, estados de exceção e militarização de áreas urbanas.
O próprio Brasil já conhece o resultado concreto de um governo de extrema direita. Sob Jair Bolsonaro, o país enfrentou uma pandemia marcada por negacionismo, atraso na compra de vacinas e sabotagem de medidas sanitárias. Centenas de milhares de brasileiros morreram enquanto o então presidente minimizava a gravidade da Covid-19. No mesmo período, o Brasil voltou ao Mapa Mundial da Fome, com milhões de famílias sem garantia de comida na mesa.
