Atitude Popular

Fortaleza reúne bancos comunitários e fortalece economia solidária nacional

Da Redação

VI Encontro Nacional da Rede Brasileira de Bancos Comunitários reuniu em Fortaleza representantes de todo o país para discutir crédito popular, moedas sociais, tecnologia, transição energética e soberania econômica dos territórios.

Fortaleza se transformou, nesta semana, em um dos principais centros nacionais de debate sobre economia solidária, finanças populares e desenvolvimento territorial. Entre os dias 4 e 7 de maio, a capital cearense sediou o VI Encontro Nacional da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, reunindo representantes de iniciativas de crédito popular, moedas sociais, pesquisadores, gestores públicos, lideranças comunitárias e organizações sociais de diversas regiões do país. O encontro consolidou não apenas a força crescente dos bancos comunitários brasileiros, mas também a tentativa de construção de um modelo econômico alternativo baseado em autonomia territorial, inclusão financeira e reorganização produtiva das periferias urbanas e rurais.

O evento ocorreu em um momento particularmente simbólico para a economia solidária brasileira. Após anos de enfraquecimento institucional durante os governos anteriores, políticas públicas ligadas à economia popular voltaram a ganhar espaço no governo federal, especialmente com a recriação de estruturas voltadas ao setor dentro do Ministério do Trabalho e Emprego e com a retomada de debates sobre finanças solidárias, moedas sociais e desenvolvimento local. Nesse contexto, o encontro em Fortaleza funcionou como espaço estratégico de articulação nacional entre experiências que há décadas operam em territórios periféricos muitas vezes ignorados pelo sistema financeiro tradicional.

A programação do encontro demonstrou a amplitude do debate atual envolvendo bancos comunitários. O tema deixou de se restringir apenas ao acesso ao crédito popular e passou a dialogar diretamente com tecnologia, soberania digital, transição energética, mudanças climáticas, pesquisa científica e novas formas de organização econômica. Uma das atividades que mais chamou atenção foi o lançamento da plataforma “Palma da Mão”, desenvolvida pela equipe do E-dinheiro Brasil, sistema que utiliza biometria como ferramenta de inclusão financeira e ampliação do acesso a pagamentos digitais em territórios populares.

O lançamento possui dimensão estratégica importante. Em um cenário global no qual sistemas financeiros digitais se tornaram instrumentos centrais de controle econômico e circulação de dados, a construção de plataformas próprias ligadas à economia solidária passa a ter significado que ultrapassa o campo tecnológico. O debate apresentado em Fortaleza apontou justamente para a necessidade de construir infraestruturas digitais populares capazes de ampliar autonomia econômica dos territórios sem depender exclusivamente das grandes plataformas financeiras privadas.

Os bancos comunitários brasileiros surgiram historicamente como resposta à exclusão financeira estrutural presente nas periferias urbanas e regiões empobrecidas do país. O caso mais conhecido é o do Banco Palmas, criado no Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, no final dos anos 1990, experiência que se tornou referência internacional em finanças solidárias e moedas sociais. A lógica central dessas iniciativas sempre foi fortalecer economias locais por meio da circulação territorial da renda, do crédito popular e da criação de instrumentos financeiros vinculados às necessidades concretas das comunidades.

Ao longo dos anos, a experiência se espalhou pelo Brasil e deu origem à Rede Brasileira de Bancos Comunitários, que reúne iniciativas em diferentes estados e contextos sociais. O encontro em Fortaleza mostrou justamente essa diversidade territorial. Participaram representantes de experiências do Ceará, Pará, Paraíba, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Alagoas e outros estados, reforçando o caráter nacional da articulação.

Mas o encontro foi além da celebração de experiências locais. O que se viu em Fortaleza foi uma tentativa de formular um projeto mais amplo de reorganização econômica popular em um momento de profundas transformações tecnológicas e sociais. Os debates incluíram temas como Sistema Nacional de Finanças Solidárias, cooperação entre bancos comunitários e universidades, transição energética em territórios periféricos, uso de tecnologias sociais e impactos das mudanças climáticas sobre populações vulneráveis.

Essa ampliação do debate revela uma mudança importante no próprio papel dos bancos comunitários. Eles deixam de ser vistos apenas como mecanismos alternativos de microcrédito e passam a operar como estruturas territoriais de reorganização econômica, social e tecnológica. Em muitos territórios, essas iniciativas já articulam produção local, agricultura familiar, moedas sociais, capacitação profissional, cooperativismo, cultura e plataformas digitais de pagamento.

Um dos eixos mais relevantes do encontro foi justamente a discussão sobre soberania tecnológica e inclusão digital. A presença de pesquisadores, universidades e centros de pesquisa mostrou que parte significativa da economia solidária brasileira começa a compreender que o futuro das disputas econômicas também passa pelo controle das infraestruturas digitais. O debate sobre biometria, plataformas financeiras próprias e sistemas de pagamento populares apareceu ligado à necessidade de impedir que territórios periféricos fiquem completamente subordinados às grandes fintechs e plataformas financeiras internacionais.

Outro tema central foi a relação entre bancos comunitários e transição energética. Os debates abordaram experiências ligadas a energias renováveis, financiamento popular de projetos ambientais e moedas sociais vinculadas a práticas sustentáveis. A discussão parte de uma constatação crescente dentro da economia solidária: a crise climática afetará de forma mais intensa justamente as populações periféricas e vulneráveis, tornando necessário construir modelos de desenvolvimento territorial capazes de combinar inclusão econômica e sustentabilidade ambiental.

A presença de representantes do governo federal também demonstrou que o tema voltou a ocupar espaço institucional relevante. Participaram representantes da Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária, vinculada ao Ministério do Trabalho, além de integrantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário e de outras estruturas públicas ligadas ao desenvolvimento territorial. O encontro também dialogou com a retomada mais ampla das políticas públicas voltadas à economia solidária no atual governo.

O próprio Banco do Nordeste aparece como ator importante nesse cenário. Em Fortaleza, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, participou de agenda ligada à articulação federativa e à integração de políticas públicas no Ceará, reforçando a tentativa do governo federal de ampliar coordenação institucional em áreas ligadas ao desenvolvimento regional e inclusão econômica.

A dimensão política do encontro também merece atenção. Os bancos comunitários historicamente surgiram a partir de movimentos populares, associações de moradores, pastorais sociais e organizações de base ligadas às periferias urbanas brasileiras. Diferentemente do sistema bancário tradicional, sua lógica de funcionamento parte do território e da organização comunitária. Isso faz com que essas experiências carreguem forte dimensão política, mesmo quando operam essencialmente no campo econômico.

No contexto atual, marcado por financeirização extrema, concentração bancária e expansão das plataformas digitais privadas, o fortalecimento dos bancos comunitários representa também uma disputa sobre quem controla a circulação da riqueza nos territórios populares. Enquanto grandes bancos e fintechs operam segundo lógica de extração financeira e centralização de dados, os bancos comunitários tentam construir circuitos econômicos locais baseados em circulação territorial da renda e fortalecimento das economias populares.

Essa diferença apareceu claramente nos discursos das lideranças presentes em Fortaleza. Gelvane Santiago, diretor executivo do Conselho Gestor de Fundos Rotativos, afirmou que os bancos comunitários demonstram na prática que o crédito pode funcionar como instrumento de transformação social quando está conectado às necessidades concretas dos territórios. Já Pedro Vinicius, presidente do Banco Comunitário ÉDG, de Alagoas, destacou que o compartilhamento de experiências fortalece a capacidade coletiva de construção de soluções econômicas populares.

O encontro também reforçou o papel histórico de Fortaleza como um dos principais centros da economia solidária brasileira. Foi justamente na capital cearense que nasceram algumas das experiências mais emblemáticas de moedas sociais e bancos comunitários do país. O Banco Palmas, fundado por Joaquim Melo, tornou-se referência internacional ao demonstrar que comunidades periféricas poderiam criar sistemas próprios de circulação econômica, fortalecendo produção, comércio e consumo locais.

A atual expansão do debate sobre bancos comunitários ocorre em um contexto global de transformação profunda do capitalismo contemporâneo. Crises financeiras recorrentes, desigualdade social crescente, avanço da automação e concentração tecnológica têm levado diferentes países a discutir alternativas de reorganização econômica local. Nesse cenário, experiências brasileiras de moedas sociais e finanças solidárias passaram a despertar interesse internacional justamente por oferecerem mecanismos de fortalecimento econômico territorial em regiões historicamente marginalizadas pelo sistema financeiro convencional.

Parte da programação do encontro foi transmitida ao vivo pelo canal do Instituto Palmas no YouTube, ampliando o alcance das discussões e permitindo participação remota de iniciativas espalhadas pelo país.

O VI Encontro Nacional da Rede Brasileira de Bancos Comunitários terminou consolidando uma percepção importante: as finanças solidárias brasileiras deixaram de ser vistas apenas como experiências periféricas e passaram a ocupar espaço crescente no debate sobre desenvolvimento, tecnologia, soberania econômica e reorganização produtiva dos territórios populares.

Mais do que discutir crédito, o encontro em Fortaleza revelou uma disputa maior sobre o futuro da economia brasileira. De um lado, um sistema financeiro altamente concentrado, orientado por plataformas globais, financeirização e extração de dados. Do outro, experiências que tentam construir circuitos econômicos populares baseados em cooperação, território, moedas sociais, tecnologia comunitária e fortalecimento das economias locais.

Em um momento no qual inclusão financeira, soberania digital e desigualdade social se tornaram temas centrais da disputa política contemporânea, os bancos comunitários brasileiros parecem buscar um novo salto histórico: deixar de ser apenas experiências locais de resistência econômica e se transformar em parte estruturante de um projeto nacional de desenvolvimento popular, territorial e tecnologicamente soberano.

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