Da Redação
Nova rodada da pesquisa BTG Pactual/Nexus mostra uma mudança importante em um dos segmentos mais decisivos da disputa presidencial: Flávio Bolsonaro continua liderando com ampla vantagem entre os eleitores evangélicos, mas caiu de 49% para 43% em duas semanas, enquanto Lula aparece com 27%. A diferença entre os dois, que chegou a 21 pontos no início de agosto, diminuiu para 16. O movimento ocorre justamente quando Augusto Cury avança para 13% entre os evangélicos e começa a disputar espaço em um eleitorado historicamente fundamental para o campo bolsonarista.
A nova pesquisa BTG Pactual/Nexus acrescenta uma peça importante ao cenário eleitoral revelado nesta segunda-feira. Além de mostrar Lula na liderança nacional, com 39%, Flávio Bolsonaro com 33% e o crescimento de Augusto Cury para 11%, o levantamento identifica uma movimentação dentro de um dos grupos sociais mais importantes para a candidatura do senador: o eleitorado evangélico. Flávio continua sendo, com larga margem, o candidato mais forte nesse segmento, mas encerra agosto abaixo do patamar que havia alcançado duas semanas antes.
A série das quatro últimas pesquisas permite enxergar melhor o movimento. Em 10 de agosto, Flávio tinha 47% das intenções de voto entre os evangélicos, contra 26% de Lula. Uma semana depois, chegou a 49%, enquanto Lula alcançou 30%. Em 24 de agosto, o senador recuou para 47% e o presidente marcou 29%. Agora, Flávio aparece com 43% e Lula, com 27%. A distância entre os dois, portanto, passou de 21 pontos no início desse período para 16 pontos na rodada atual.
O dado precisa ser interpretado com cuidado porque não representa uma transferência automática de eleitores de Flávio para Lula. O próprio presidente também oscilou negativamente na última semana, de 29% para 27%. A movimentação mais pronunciada está do lado de Flávio, que perdeu quatro pontos desde a pesquisa anterior e seis em relação ao pico de 49% registrado em 17 de agosto.
É justamente aí que aparece outra variável da eleição: Augusto Cury.
O escritor, que chegou a 11% no conjunto do eleitorado e assumiu a terceira posição nacional no BTG/Nexus, alcança 13% entre os evangélicos. Ronaldo Caiado tem 4%, Renan Santos aparece com 3%, enquanto Romeu Zema e Samara Martins registram 1% cada. Outros candidatos somam 2%; brancos e nulos são 4%, e 3% não souberam ou preferiram não responder.
Isso torna o recorte religioso particularmente interessante. Não há elementos suficientes para afirmar que os votos perdidos por Flávio migraram diretamente para Cury — para isso seria necessário acompanhar os mesmos eleitores ou dispor de cruzamentos mais detalhados sobre movimentação do voto. Mas os números mostram que existe agora uma terceira candidatura com presença relevante dentro de um eleitorado no qual Flávio Bolsonaro mantém sua maior vantagem sobre Lula.
Evangélicos continuam sendo a principal fortaleza de Flávio
Seria precipitado interpretar os números como uma ruptura dos evangélicos com Flávio Bolsonaro. O senador continua com 43%, dezesseis pontos à frente de Lula nesse grupo, e a vantagem fica ainda maior quando a pesquisa elimina os demais candidatos e pergunta diretamente sobre um eventual segundo turno.
Nesse cenário, Flávio registra 58% entre os evangélicos, contra 35% de Lula. A diferença é de 23 pontos.
A estabilidade dessa preferência fica evidente na série histórica recente. Flávio tinha 58% contra 32% de Lula em 10 de agosto; chegou a 59% contra 34% no dia 17; permaneceu com 59%, enquanto Lula caiu para 33%, em 24 de agosto; e agora retorna a 58%, enquanto Lula sobe para 35%.
Há, portanto, duas fotografias diferentes dentro do mesmo eleitorado.
No primeiro turno, Flávio apresenta uma perda mais perceptível e enfrenta agora a presença de Cury com 13%. No segundo turno, quando os demais candidatos desaparecem da cédula hipotética, o eleitorado evangélico volta a se concentrar fortemente no senador.
Essa diferença sugere que uma parcela dos evangélicos hoje disposta a experimentar outras candidaturas no primeiro turno ainda pode escolher Flávio numa disputa direta contra Lula. A pesquisa não permite saber quantos dos eleitores de cada candidato fariam essa migração, mas a diferença entre os dois cenários deixa claro que o comportamento muda substancialmente quando a escolha é reduzida aos dois principais nomes.
O peso eleitoral desse segmento é considerável. Na amostra do BTG/Nexus, 31% dos entrevistados se identificam como evangélicos, enquanto 48% se declaram católicos, 10% seguem outras religiões e 11% afirmam não possuir religião.
Isso explica por que qualquer alteração relevante entre evangélicos pode produzir consequências nacionais. Não se trata de um nicho eleitoral pequeno, mas de aproximadamente três em cada dez entrevistados da pesquisa.
Entre católicos, movimento favorece Lula
Se entre os evangélicos Flávio continua na frente apesar do recuo, entre os católicos a situação é inversa — e a mudança da última semana foi mais acentuada.
Na rodada de 24 de agosto, Lula aparecia com 44% dos votos católicos e Flávio com 36%, uma diferença de oito pontos. Agora, Lula marca 45% e Flávio cai para 30%. A distância entre ambos praticamente dobra, chegando a 15 pontos.
A série mostra que Lula esteve à frente de Flávio entre os católicos durante todo o período analisado. Em 10 de agosto, eram 44% contra 32%. No dia 17, 46% contra 34%. Em 24 de agosto, a diferença havia diminuído para 44% contra 36%, antes de voltar a crescer nesta rodada.
O padrão reaparece no eventual segundo turno. Entre os católicos, Lula registra 51% contra 41% de Flávio. Na semana anterior, eram 48% para o presidente e 43% para o senador.
A divisão religiosa, portanto, permanece bastante visível: Flávio possui vantagem expressiva entre os evangélicos, enquanto Lula lidera entre os católicos. Mas a rodada atual mostra que a intensidade dessas vantagens pode mudar durante a campanha.
É essa movimentação, mais do que uma fotografia isolada, que merece atenção.
No conjunto nacional, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, Flávio com 33%, Augusto Cury com 11%, Ronaldo Caiado com 5%, Renan Santos com 3%, e Zema e Samara com 1% cada. Num eventual segundo turno entre os dois líderes, o cenário é muito mais apertado: Lula tem 46% e Flávio, 45%, situação de empate técnico considerando a margem de erro da pesquisa.
O contraste ajuda a dimensionar a importância do eleitorado religioso. Uma eleição nacional separada por apenas um ponto numa simulação de segundo turno pode ser profundamente afetada por deslocamentos relativamente pequenos dentro de grupos que representam parcelas grandes da população.
A pesquisa também permite perceber que a disputa religiosa não deve ser tratada simplesmente como uma divisão automática entre “evangélicos bolsonaristas” e “católicos lulistas”. Os próprios números mostram contingentes expressivos que atravessam essa fronteira: Lula alcança 35% dos evangélicos no segundo turno, enquanto Flávio chega a 41% dos católicos.
A religião é uma variável relevante do comportamento eleitoral, mas não é a única. Renda, escolaridade, região, idade, avaliação do governo, identificação ideológica, prioridades econômicas e rejeição aos candidatos também interferem na decisão do voto.
O elemento novo desta rodada está justamente na combinação desses movimentos. Flávio Bolsonaro continua dominando o eleitorado evangélico, mas perdeu força no primeiro turno; Lula não foi o beneficiário direto dessa queda, pois também oscilou negativamente; e Augusto Cury surge com 13%, abrindo uma disputa que praticamente não existia nesse segmento algumas semanas atrás.
Ao mesmo tempo, o segundo turno mostra que a base evangélica de Flávio continua bastante resistente: 58% escolheriam o senador contra Lula. Isso significa que, por enquanto, a novidade está muito mais na fragmentação do primeiro turno do que numa mudança consolidada da preferência entre os dois principais candidatos.
Será necessário acompanhar as próximas pesquisas para saber se os 43% de Flávio representam apenas uma oscilação ou o começo de uma tendência. O mesmo vale para os 13% de Cury: depois do crescimento acelerado registrado nas últimas rodadas, a questão passa a ser saber se o escritor conseguirá manter esse eleitorado quando a campanha entrar em sua fase decisiva.
O levantamento BTG Pactual/Nexus ouviu 2.005 eleitores de todo o Brasil entre 28 e 30 de agosto, por telefone. A margem de erro divulgada para a amostra total é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-08900/2026. Como os recortes religiosos são subamostras do levantamento geral, suas estimativas estão sujeitas a incerteza maior do que a margem informada para o total da pesquisa.
A fotografia desta segunda-feira não mostra o desaparecimento da vantagem de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos. Mostra algo mais específico: essa vantagem diminuiu no primeiro turno justamente no momento em que uma terceira candidatura começa a ganhar espaço dentro desse eleitorado. Numa eleição nacional que o próprio BTG/Nexus aponta como tecnicamente empatada em eventual segundo turno entre Lula e Flávio, acompanhar para onde caminham esses eleitores pode se tornar uma das chaves para compreender a reta final da disputa presidencial.

