Da Redação
Assessor de Lula vê conflito sem horizonte de fim, risco de escalada regional e impacto global no petróleo e na economia, em meio a tensões crescentes entre Irã, EUA e Israel.
A avaliação do assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, sobre o conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel é direta e inquietante. Para o diplomata, não há qualquer indicativo de que a guerra seja curta. Ao contrário, o cenário aponta para um impasse prolongado, marcado por desconfiança, destruição crescente e risco real de expansão regional com efeitos globais profundos.
O conflito, iniciado após ataques coordenados de Estados Unidos e Israel contra alvos estratégicos iranianos no fim de fevereiro de 2026, rapidamente se transformou em uma guerra de múltiplas frentes. A ofensiva inicial atingiu centros militares, instalações nucleares e lideranças do país, desencadeando uma resposta imediata de Teerã com mísseis e drones contra bases americanas e aliados no Golfo.
Esse tipo de dinâmica, segundo Amorim, dificulta qualquer previsão de desfecho. Ele considera “muito complexo” arriscar um prazo para o fim da guerra, destacando que a ruptura das negociações diplomáticas e a perda de confiança entre os atores tornam um acordo praticamente inviável no curto prazo.
O ponto central da análise é político e estrutural. A guerra não começou em um vácuo, mas no meio de negociações sobre o programa nuclear iraniano. Esse fator, para Amorim, destruiu as bases mínimas de confiança necessárias para qualquer entendimento. A eliminação de lideranças e a radicalização das posições tornam ainda mais difícil que qualquer concessão seja aceita internamente no Irã, criando um ciclo de endurecimento contínuo.
Ao mesmo tempo, a guerra assume uma dimensão econômica global. Um dos principais instrumentos de pressão iraniana tem sido o controle do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. O bloqueio ou restrição do tráfego marítimo eleva os preços internacionais e impacta diretamente economias em todo o planeta, inclusive o Brasil.
Esse elemento transforma o conflito em algo muito além de uma disputa regional. Trata-se de uma guerra com capacidade de reorganizar fluxos energéticos, pressionar cadeias produtivas e alimentar crises inflacionárias globais. A guerra, portanto, não se limita ao campo militar, mas se desdobra como instrumento de disputa geoeconômica.
Amorim também rejeita leituras simplistas que tentam separar o papel de Estados Unidos e Israel. Para ele, essa distinção é artificial diante do grau de coordenação estratégica entre os dois países. A ofensiva conjunta e a convergência de interesses indicam uma atuação integrada, com implicações diretas para o equilíbrio de poder no Oriente Médio.
Outro fator crítico é o risco de alastramento. O próprio diplomata alerta que o conflito pode se expandir para outros países da região, envolvendo atores indiretos e grupos armados aliados ao Irã. Essa possibilidade já começa a se materializar com ataques e tensões em países como Catar, Bahrein, Iraque e Emirados Árabes Unidos.
A escalada, nesse sentido, rompe a lógica de guerra localizada e se aproxima de um cenário de conflagração regional ampliada. Amorim chega a afirmar que o mundo deve “se preparar para o pior”, destacando o aumento vertiginoso das tensões e a ausência de mecanismos eficazes de contenção.
Do ponto de vista histórico, o diplomata compara o momento atual a alguns dos períodos mais críticos da geopolítica mundial. Ele afirma que, em décadas de atuação, raramente presenciou um cenário tão instável e imprevisível, marcado pela ausência de diálogo efetivo entre grandes potências e pela crescente militarização das relações internacionais.
Essa combinação de fatores leva a uma conclusão inquietante: o conflito pode representar não apenas uma guerra prolongada, mas um ponto de inflexão na ordem internacional. A possibilidade de uma escalada para dimensões ainda maiores, inclusive com impacto sistêmico global, não está descartada.
No plano diplomático, a posição brasileira, reforçada por Amorim, mantém a defesa do multilateralismo e da negociação como únicos caminhos possíveis. O assessor critica a opção militar adotada pelos Estados Unidos e Israel, argumentando que ela fragiliza a estabilidade internacional e cria precedentes perigosos para o sistema global.
A leitura estratégica é clara: guerras iniciadas sem consenso internacional, em meio a negociações, tendem a produzir ciclos de instabilidade prolongada, dificultando soluções políticas e ampliando os custos humanos e econômicos.
No limite, a análise de Amorim aponta para um cenário em que a guerra deixa de ser um evento pontual e passa a operar como mecanismo estrutural de reorganização do poder global. A disputa não é apenas militar, mas envolve energia, tecnologia, influência regional e controle de rotas estratégicas.
Nesse contexto, a afirmação de que não se trata de uma guerra de curta duração não é apenas uma previsão conjuntural. É um diagnóstico sobre a natureza do conflito contemporâneo, marcado por disputas prolongadas, múltiplos atores e impactos sistêmicos.






