Guerra espalha o medo do Ebola no Congo após milhares abandonarem campo de deslocados

Campo de Kigonze, que abrigava cerca de 19 mil pessoas, fica praticamente vazio após operação militar e confrontos; fuga dispersa centenas de pessoas monitoradas por possível contato com o vírus e mostra como décadas de guerra transformaram uma emergência sanitária numa catástrofe ainda mais difícil de controlar

Da Redação

Milhares de pessoas abandonaram às pressas um campo de deslocados atingido pelo Ebola no leste da República Democrática do Congo depois que forças de segurança entraram no local em busca de armas e suspeitos de ligação com grupos armados. O êxodo praticamente esvaziou Kigonze, na periferia de Bunia, província de Ituri, onde aproximadamente 19 mil pessoas que já haviam perdido suas casas para a violência tentavam reconstruir alguma forma de vida.

Agora, parte dessa população voltou a fugir.

O problema é que Kigonze não é apenas mais um campo de deslocados numa das regiões mais violentas da África. O local está dentro da área atingida pela atual epidemia de Ebola e abrigava cerca de mil pessoas identificadas pelas equipes sanitárias como contatos de casos da doença. Depois da dispersão da população, apenas aproximadamente um quinto dessas pessoas havia sido localizado novamente, segundo autoridades de saúde ouvidas pela imprensa internacional.

A consequência é uma combinação particularmente perigosa. Pessoas que deveriam permanecer sob acompanhamento epidemiológico estão se espalhando por comunidades, casas de parentes e outras localidades justamente quando as autoridades tentam interromper as cadeias de transmissão do vírus.

Não significa que essas mil pessoas estejam infectadas. Um contato é alguém que teve exposição suficientemente relevante a um caso para precisar ser acompanhado durante o período de incubação. A diferença é fundamental. Mas perder centenas desses contatos significa perder uma das principais ferramentas utilizadas para impedir que o Ebola circule silenciosamente.

O que aconteceu em Kigonze, portanto, ultrapassa a destruição de um campo.

A guerra atingiu diretamente a capacidade de controlar uma epidemia.

Um campo de 19 mil pessoas ficou praticamente vazio

A crise se agravou ao longo da última semana, depois que forças de segurança congolesas entraram em Kigonze procurando armas e pessoas suspeitas de participação em grupos armados não estatais. Houve confrontos e disparos. Famílias começaram a abandonar o local e buscar abrigo em outras regiões.

Quando a Organização das Nações Unidas avaliou a situação, encontrou um campo praticamente abandonado.

Muitas dessas pessoas já eram deslocadas.

Isso significa que estão fugindo pela segunda, terceira ou quarta vez de conflitos que atravessam há décadas o leste congolês. Famílias que haviam procurado Kigonze porque suas comunidades anteriores já não eram seguras agora precisam encontrar novamente algum lugar onde possam dormir.

Mas existe uma diferença dramática desta vez.

Elas estão deixando uma área sob vigilância epidemiológica.

Antes da fuga, equipes de saúde conseguiam saber onde determinadas pessoas estavam. Conseguiriam visitá-las, verificar sintomas, realizar testes e encaminhar rapidamente casos suspeitos para isolamento e tratamento.

Quando uma população inteira se dispersa, essa rede se rompe.

Uma pessoa pode passar a viver na casa de parentes.

Outra pode seguir para uma comunidade rural.

Outra pode procurar outro campo.

Outra simplesmente desaparece dos registros.

Em uma epidemia de Ebola, perder o contato significa perder tempo. E tempo pode signific novas cadeias de transmissão.

Até o centro de atendimento ao Ebola foi destruído

A situação tornou-se ainda mais grave porque um centro de trânsito para casos suspeitos de Ebola instalado em Kigonze foi incendiado.

A estrutura era utilizada para receber pessoas com sintomas, realizar testes, mantê-las temporariamente isoladas e encaminhar os casos confirmados para tratamento adequado.

O centro possuía oito leitos.

Era pequeno diante da dimensão da crise, mas cumpria uma função estratégica: permitia separar rapidamente casos suspeitos da população geral enquanto os exames eram realizados.

Agora essa estrutura não existe mais.

A ONU informou que a destruição do centro representa mais um obstáculo para uma operação sanitária que já enfrentava enormes dificuldades de acesso.

As circunstâncias exatas do incêndio ainda precisam ser completamente esclarecidas. Autoridades das Nações Unidas relacionaram o episódio à operação de segurança realizada no campo, mas nem todos os detalhes sobre responsabilidades foram estabelecidos de maneira independente.

O fato objetivo é devastador.

No mesmo momento em que milhares de pessoas potencialmente expostas se dispersaram, desapareceu uma das estruturas construídas justamente para impedir a propagação da doença.

A epidemia já é a mais mortal da história congolesa

O episódio acontece durante uma epidemia de proporções extraordinárias.

A atual emergência começou em maio e já se transformou na epidemia de Ebola mais mortal registrada na história da República Democrática do Congo.

Dados divulgados pelas autoridades sanitárias e pelas Nações Unidas indicavam no final de setembro mais de 8 mil casos confirmados e aproximadamente 3,9 mil mortes. Ituri permanece como o principal epicentro, embora outras províncias também tenham registrado transmissão.

O tamanho dessa tragédia precisa ser compreendido em perspectiva.

A República Democrática do Congo possui uma longa experiência com o Ebola. Foi no antigo Zaire, em 1976, que o vírus foi identificado pela primeira vez, próximo ao rio Ebola, que acabou dando nome à doença.

Desde então, o país enfrentou sucessivos surtos.

A experiência acumulada permitiu construir equipes especializadas, sistemas de vigilância, protocolos de isolamento e capacidade laboratorial. Também existem hoje vacinas e tratamentos que não estavam disponíveis nas primeiras epidemias.

Mesmo assim, nenhuma tecnologia sanitária consegue funcionar plenamente quando o território está submetido à guerra.

É justamente essa contradição que aparece novamente em Ituri.

A medicina avançou.

O contexto social e militar destrói parte das condições necessárias para utilizá-la.

Ebola encontra na guerra seu ambiente mais perigoso

O vírus não é transmitido pelo ar da mesma maneira que uma gripe. A transmissão ocorre principalmente pelo contato direto com sangue e outros fluidos corporais de uma pessoa infectada ou com materiais contaminados.

Isso significa que o controle depende muito da capacidade de identificar rapidamente os casos, isolar pacientes, proteger profissionais de saúde, acompanhar contatos e realizar sepultamentos seguros.

Em condições normais, essas medidas conseguem interromper cadeias de transmissão.

Num território em guerra, tudo fica mais difícil.

Equipes médicas não conseguem chegar a determinadas comunidades.

Populações inteiras mudam de lugar.

Postos de saúde deixam de funcionar.

Estradas tornam-se inseguras.

Profissionais são ameaçados.

Famílias escondem doentes por medo ou desconfiança.

Corpos podem ser enterrados sem protocolos de segurança.

E pessoas que deveriam permanecer sob observação simplesmente desaparecem.

Kigonze representa praticamente todos esses problemas concentrados num único lugar.

Nos campos de deslocados congoleses, a situação já era particularmente grave. Dados fornecidos pela agência da ONU para refugiados indicavam 88 casos confirmados de Ebola e 56 mortes em locais destinados a populações deslocadas, incluindo Kigonze. As próprias autoridades admitem que o número real pode ser maior.

Em outros campos acompanhados pela Organização Internacional para as Migrações, a letalidade registrada entre os casos chegou a ultrapassar 80%.

Não porque o vírus se torne biologicamente mais agressivo dentro de um campo.

Mas porque pobreza, deslocamento, demora no diagnóstico e dificuldade de acesso ao tratamento tornam a doença muito mais mortal.

A epidemia está acontecendo dentro de uma das guerras esquecidas do mundo

É impossível compreender o Ebola no Congo olhando apenas para o vírus.

Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul atravessam décadas de violência envolvendo forças governamentais, grupos armados locais, organizações estrangeiras, disputas comunitárias e interesses econômicos sobre uma das regiões mais ricas em recursos minerais do planeta.

Mais de cinco milhões de pessoas estão deslocadas nessas três províncias.

Somente em Ituri, mais de 1,1 milhão tiveram de abandonar suas casas por causa dos conflitos e da violência. Centenas de milhares vivem em campos.

É nesse território que profissionais de saúde precisam localizar cada contato de Ebola.

A tarefa seria complexa mesmo em paz.

Em guerra, transforma-se numa corrida quase impossível.

A riqueza mineral da região acrescenta outra contradição brutal à história. O leste congolês possui ouro, coltan, estanho e outros minerais estratégicos para cadeias industriais globais. Alguns deles estão presentes em produtos tecnológicos utilizados diariamente em diferentes partes do planeta.

Ao mesmo tempo, grande parte da população vive sem serviços públicos básicos.

É uma das grandes contradições estruturais da República Democrática do Congo: uma população extremamente pobre vivendo sobre uma das maiores concentrações de riqueza mineral do mundo.

A violência que atravessa o território também está ligada, direta ou indiretamente, à disputa por esses recursos, às rotas comerciais e ao controle de áreas economicamente estratégicas.

E agora a epidemia se move dentro desse mesmo mapa.

O perigo está na dispersão

O maior temor das autoridades sanitárias nas próximas semanas será descobrir para onde foram as pessoas que deixaram Kigonze.

Esse trabalho é quase invisível, mas decisivo.

Equipes precisarão reconstruir listas.

Procurar famílias.

Identificar novos endereços.

Conversar com comunidades.

Verificar sintomas.

Testar casos suspeitos.

Reconstruir cadeias de contato que foram literalmente espalhadas pelo território.

Quanto mais tempo esse processo demorar, maior será a possibilidade de que pessoas infectadas desenvolvam sintomas longe das estruturas de vigilância.

Isso não significa que uma expansão explosiva seja inevitável.

Também não significa que todos os deslocados representem risco sanitário.

A enorme maioria provavelmente não está infectada.

Mas epidemiologia trabalha justamente com aquilo que ainda não se sabe.

Se centenas de contatos deixam de ser acompanhados, aumenta a área de incerteza. E, numa epidemia com milhares de mortos, essa incerteza precisa ser reduzida o mais rapidamente possível.

Uma tragédia dentro de outra tragédia

Talvez Kigonze revele melhor do que qualquer estatística aquilo que está acontecendo no Congo.

Ali vivem pessoas que primeiro perderam suas casas para a guerra.

Depois foram colocadas num campo de deslocados.

Então o Ebola chegou.

Quando começaram a ser monitoradas para impedir a expansão da epidemia, uma operação de segurança desencadeou novos confrontos.

Elas fugiram novamente.

E o centro construído para receber suspeitos da doença foi destruído.

Não existe uma crise isolada.

Existe uma sequência de crises que se multiplicam.

A guerra produz deslocamento.

O deslocamento produz condições sanitárias precárias.

Essas condições tornam epidemias mais difíceis de controlar.

A epidemia exige estruturas de saúde.

A violência destrói essas estruturas.

A população foge.

E o vírus ganha novas oportunidades para escapar da vigilância.

É esse ciclo que as autoridades congolesas e as organizações internacionais precisam interromper.

A República Democrática do Congo possui conhecimento médico para combater o Ebola. Possui profissionais que passaram por epidemias anteriores. A comunidade internacional possui vacinas, tratamentos, laboratórios e protocolos muito mais avançados do que aqueles disponíveis décadas atrás.

O problema é que nenhuma dessas ferramentas consegue substituir aquilo que continua faltando no leste congolês.

Segurança.

A possibilidade de uma enfermeira chegar até um paciente.

A possibilidade de uma família permanecer no mesmo lugar durante algumas semanas.

A possibilidade de um centro de saúde continuar de pé.

A possibilidade de acompanhar uma pessoa potencialmente exposta sem que ela precise fugir novamente para salvar a própria vida.

Em Kigonze, essa estrutura mínima desapareceu.

Um campo que abrigava aproximadamente 19 mil pessoas está praticamente vazio. Centenas de contatos de Ebola ainda precisam ser encontrados. Um centro de atendimento foi destruído. E uma população que já havia sido expulsa de casa pela violência está novamente espalhada por uma das regiões mais instáveis do continente africano.

A ameaça sanitária é real.

Mas o vírus não criou sozinho essa emergência.

No leste do Congo, o Ebola encontrou aquilo que toda epidemia procura para se tornar mais difícil de controlar: uma sociedade fragmentada pela guerra, populações em movimento e um Estado incapaz de garantir segurança permanente justamente onde a vigilância epidemiológica mais precisa dela.