Atitude Popular

Irã resiste a ofensiva de EUA e Israel e expõe crise do poder ocidental

Da redação

Nas últimas 24 e 48 horas, a guerra entrou em nova fase: Israel ampliou bombardeios sobre território iraniano, os EUA reforçaram tropas e meios navais na região, o Irã seguiu retaliando, e a entrada dos houthis no confronto ampliou o custo geopolítico da ofensiva. Longe de uma vitória-relâmpago vendida por Washington e Tel Aviv, o que se vê é um ataque devastador contra um país soberano, uma crise humanitária em expansão e o aprofundamento de uma ruptura histórica entre o Ocidente armado e o Sul Global.

No dia 28 de março de 2026, a fotografia mais honesta da guerra é dura para Washington e Tel Aviv. O que começou em 28 de fevereiro como uma ofensiva conjunta dos Estados Unidos e de Israel, vendida como operação de choque para quebrar rapidamente a capacidade iraniana de reação, entrou em seu segundo mês com sinais claros de prolongamento, expansão regional e desgaste político para o bloco agressor. Em vez de capitulação iraniana, o que emergiu foi um conflito de alta intensidade que já matou mais de 1.900 pessoas no Irã e deixou ao menos 20 mil feridos, segundo dados citados pela Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.

As últimas 24 horas foram especialmente reveladoras. A notícia mais importante deste sábado, 28 de março, foi a entrada formal dos houthis do Iêmen na guerra com o lançamento de mísseis contra Israel, apresentado pelo grupo como resposta à continuidade dos ataques dos EUA e de Israel contra Irã, Líbano, Iraque e Palestina. A entrada desse novo ator não é detalhe lateral. Ela confirma que a ofensiva ocidental, longe de “estabilizar” a região, está abrindo novas frentes e convertendo a guerra num incêndio cada vez mais difícil de conter. Reuters e Associated Press registraram que esse movimento aumenta o risco de disrupção do comércio marítimo também na rota do Bab el-Mandeb, somando-se ao impacto já produzido no Estreito de Ormuz.

Também neste 28 de março, Reuters informou que Israel intensificou seus bombardeios e atingiu mais de 100 alvos no Irã, inclusive instalações ligadas a mísseis e infraestrutura em Teerã, além de ataques com consequências letais em cidades como Borujerd e Zanjan. Ao mesmo tempo, Israel continuou sua campanha militar em outros teatros, inclusive no Líbano. O dado é importante porque desmonta qualquer narrativa de “ataque cirúrgico”. O que está em curso é uma campanha ampliada, com profundidade territorial, múltiplos alvos e efeito cumulativo sobre a infraestrutura e a vida civil iraniana.

A Associated Press, por sua vez, descreveu neste sábado o que essa guerra significa para a população iraniana comum. Um mês depois do início dos bombardeios, famílias enfrentam destruição de casas e negócios, deslocamento interno, escassez de suprimentos, colapso econômico e um cotidiano marcado por explosões e incerteza. Isso ajuda a recolocar a questão em seu eixo moral e político: a agressão contra o Irã não é um jogo abstrato de xadrez geopolítico. É uma guerra que recai sobre civis, trabalhadores, comerciantes, estudantes e famílias inteiras, isto é, sobre o povo concreto de uma nação soberana.

Nas últimas 48 horas, outro fato central foi a prova de que o Irã continua longe de estar militarmente neutralizado. Na sexta-feira, 27 de março, um ataque iraniano com mísseis balísticos e drones atingiu a base aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita, ferindo militares dos EUA e danificando aeronaves americanas de reabastecimento. A AP relatou ao menos 10 feridos nessa ação, enquanto outro balanço do mesmo dia apontou 15 militares norte-americanos feridos, cinco deles com gravidade. O episódio expôs algo que a retórica triunfalista da Casa Branca tenta esconder: o Irã segue capaz de impor custos reais à máquina militar dos Estados Unidos.

Esse ponto ficou ainda mais evidente em uma revelação da Reuters publicada em 27 de março. Segundo fontes de inteligência dos próprios EUA, Washington só consegue confirmar com segurança a destruição de cerca de um terço do arsenal de mísseis do Irã. Outro terço estaria danificado ou enterrado em instalações subterrâneas, e uma parcela relevante seguiria operacional. Em outras palavras, a distância entre a propaganda da vitória e a realidade do campo de batalha é grande. A mesma potência que anunciava o Irã como “obliterado” agora precisa admitir, pelos canais de inteligência, que a capacidade iraniana de resposta continua de pé em grau muito superior ao reconhecido publicamente pela liderança política americana.

Isso ajuda a entender por que os Estados Unidos voltaram a reforçar sua presença militar na região. Segundo a AP, os EUA já somam cerca de 50 mil militares no Oriente Médio, o maior número em mais de 20 anos, e continuam deslocando meios adicionais, incluindo o USS Tripoli com 2.500 fuzileiros navais e outros contingentes aerotransportados. Outro despacho relatou preparação para o envio de mais de 6 mil militares adicionais, incluindo unidades da 82ª Divisão Aerotransportada e dois agrupamentos de Marines. Oficialmente, Washington diz que não precisa de invasão terrestre. Na prática, porém, está acumulando força porque sabe que a guerra não produziu o resultado rápido que prometera.

Esse acúmulo de tropas e plataformas militares não aponta para paz, mas para coerção ampliada. E aqui entra a dimensão Sul Global da crise. O que está em curso é mais uma tentativa de uma potência ocidental e seu principal aliado regional de impor pela força uma nova hierarquia política no Oriente Médio, tutelando soberanias, atacando infraestrutura crítica e redesenhando equilíbrios de poder à margem de qualquer legitimidade universal. O Irã, goste-se ou não de seu regime político, é um Estado soberano submetido a bombardeios externos de larga escala. Para o Sul Global, isso reabre uma velha ferida histórica: a normalização do uso seletivo da violência por potências que se apresentam como guardiãs da ordem enquanto violam a própria ideia de ordem internacional.

O argumento de que a guerra seria necessária para desmontar rapidamente o aparato militar iraniano também vem perdendo sustentação. Além da continuidade das respostas iranianas, o bloqueio e a restrição de tráfego no Estreito de Ormuz seguem impondo uma crise energética mundial. Reuters relatou alta acumulada de mais de 50% nos preços do petróleo desde o início da guerra e, em 25 de março, registrou o Brent fechando em US$ 108,01 e o WTI em US$ 94,48 diante do medo de escalada. Um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo passa por Ormuz. Quando Washington e Tel Aviv atacam o Irã, não atacam apenas um Estado adversário. Eles atingem a circulação energética global, pressionam importadores do Sul e exportam inflação e instabilidade para o resto do planeta.

É por isso que o custo da guerra já transborda o Oriente Médio. A Coreia do Sul, altamente dependente das rotas que cruzam Ormuz, anunciou nesta semana recompra extraordinária de títulos e ampliação de subsídios e incentivos fiscais sobre combustíveis para amortecer o choque energético. Quando um conflito provoca esse tipo de resposta em economias asiáticas altamente industrializadas, fica claro que não se trata apenas de uma disputa regional, mas de uma convulsão com capacidade de reordenar preços, cadeias logísticas e decisões macroeconômicas em escala global.

Outro elemento das últimas 48 horas é a dificuldade dos próprios EUA em encontrar uma saída política honrosa. Reuters e AP relataram que Donald Trump, pressionado politicamente em casa e vendo objetivos de guerra seguirem incompletos, passou a sinalizar interesse maior em encerrar o conflito, ao mesmo tempo em que conserva ameaças e reforços militares. Foi nesse contexto que surgiu a proposta de paz em 15 pontos, transmitida por intermediação paquistanesa. Teerã, no entanto, tratou a proposta com forte ceticismo. A razão é evidente: negociar sob bombardeio permanente, depois de uma ofensiva que matou lideranças e devastou infraestrutura, não é propriamente uma mesa de paz. É uma tentativa de impor rendição com outro nome.

Pakistan, Turquia, Arábia Saudita e Egito passaram a se mover diplomaticamente, o que mostra que a região entende a gravidade do momento. Mas os sinais públicos ainda apontam mais para contenção do incêndio do que para solução real. O problema central é que a ofensiva americano-israelense criou um nível de destruição e de desconfiança que tornou qualquer arranjo estável muito mais difícil. Mesmo fontes ocidentais reconhecem que a guerra pode durar semanas ou mais. E se os houthis de fato mantiverem a promessa de ampliar ações, a lógica de frente múltipla tende a se aprofundar.

Sob uma ótica pró-Irã e pró-Sul Global, o quadro é cristalino. O que se chama de “segurança” em Washington e Tel Aviv tem significado, na prática, o direito autoconcedido de bombardear outro país, devastar seu território e depois exigir que a vítima aceite termos ditados pelos agressores. A retórica da defesa preventiva volta a cumprir seu velho papel ideológico: encobrir um ato de força. O Irã, por sua vez, demonstrou que não seria reduzido em poucos dias, que ainda dispõe de capacidade de retaliação e que a tentativa de enquadrá-lo pela pura superioridade aérea não eliminou sua profundidade estratégica.

Também é preciso dizer com clareza que chamar esses ataques de covardes não é figura de estilo. Covarde é a lógica de quem fala em paz enquanto mantém bombardeios sobre cidades, instalações e redes vitais de um país já submetido a sanções, cerco e pressão militar permanente. Covarde é a normalização de uma guerra que mata milhares no Irã e depois é narrada como “gestão de risco” pelas potências que a iniciaram. Covarde é a assimetria de quem dispõe de coalizões, porta-aviões, bases espalhadas, satélites e superioridade aérea massiva, mas continua tratando a resistência do alvo como se fosse o problema central do mundo. Os dados das últimas 24 e 48 horas não sugerem civilização liberal em ação. Sugerem a persistência nua do poder imperial.

A consequência política mais profunda talvez seja esta: cada nova rodada de ataques reforça no Sul Global a percepção de que a ordem internacional continua funcionando com duas réguas. Uma, moralista e punitiva, para os países fora do eixo atlântico. Outra, permissiva e militarizada, para os aliados centrais do Ocidente. O Irã virou novamente palco dessa pedagogia brutal. Só que, desta vez, a resistência militar iraniana, a entrada de novos atores regionais e o custo econômico internacional estão tornando a narrativa ocidental cada vez menos convincente.

Neste 28 de março de 2026, portanto, a conclusão provisória é simples. A guerra está longe de acabar. Israel intensificou ataques. Os EUA reforçaram tropas, navios e contingentes. O Irã continua retaliando. Os houthis entraram formalmente no confronto. As mortes e os feridos no Irã seguem subindo. O petróleo continua pressionado. E o mundo periférico paga, mais uma vez, a conta de uma ofensiva decidida no centro do poder militar ocidental. Quem olha o mapa a partir de Teerã, de Beirute, de Sanaa, de Bagdá ou de qualquer capital do Sul Global não vê “estabilidade”. Vê um ataque prolongado a uma soberania nacional e a confirmação de que o século XXI segue sendo disputado também contra a arrogância armada do império.