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Lukyanov: crise em torno da Groenlândia expõe problemas do NATO

Da Redação

O analista russo Fyodor Lukyanov afirma que a controvérsia sobre a Groenlândia revela fragilidades estruturais na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), sugerindo que a aliança — criada na Guerra Fria — enfrenta problemas de relevância, coesão e propósito diante das mudanças no cenário geopolítico global.

O analista russo Fyodor Lukyanov escreveu que a recente crise envolvendo a Groenlândia e as tensões transatlânticas desencadeadas pela postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à ilha expõem “o verdadeiro problema do NATO”. Para ele, a controvérsia evidencia que a aliança militar, fundada em 1949 para enfrentar a União Soviética, pode estar ultrapassada e “incapaz de voltar ao que era antes” diante de uma nova ordem geopolítica que não se baseia mais exclusivamente em uma lógica de Guerra Fria e cooperação ocidental consolidada.

Lukyanov, que é editor-chefe da revista Russia in Global Affairs e presidente do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia, usou a disputa em torno da Groenlândia — e a maneira como Trump tem abordado o tema — para criticar a coerência e a relevância da OTAN hoje. Ele sugeriu que, embora a aliança ainda exista, muitos dos fatores que lhe deram sentido no século XX já se transformaram, e que tensões internas como essa poderiam indicar que a organização está “num período de crise”, em que o impulso histórico que sustentou sua unidade já não é tão forte quanto antes.

Segundo Lukyanov, o discurso norte-americano sobre a Groenlândia — que envolve interesses estratégicos no Ártico e rivalidades com parceiros europeus — pode ter mudado a dinâmica interna da aliança, deslocando sua função tradicional de cooperação militar coletiva para uma competição geopolítica mais fragmentada. Ele aponta que, se as instituições fundadas no pós-Segunda Guerra Mundial já enfrentavam desafios, a atual crise ilustra que a OTAN pode não estar totalmente preparada para responder a um mundo com múltiplos centros de poder, interesses divergentes e prioridades estratégicas em mudança.

Essa análise se insere em um momento em que vários líderes europeus e militares também discutem a necessidade de reforçar gastos com defesa e rever papéis dentro da aliança. Autoridades apontaram que temas como segurança do Ártico e relações com potências como Rússia e China exigem atenção coletiva, mas as divergências sobre como conduzir essas prioridades — evidenciadas pelo atrito transatlântico provocado pela questão da Groenlândia — ilustram a complexidade de manter a OTAN coesa e relevante.

Lukyanov enfatizou que, embora a OTAN provavelmente continue existindo por causa de seu “momento histórico e inércia institucional”, eventos como a disputa sobre a Groenlândia colocam questões fundamentais sobre o papel futuro da aliança — como ela se adaptará a novos desafios, como reconciliará interesses divergentes entre seus membros e se permanecerá como um centro eficaz de segurança coletiva no contexto de um mundo multipolar.