Atitude Popular

Lula amplia verba para big techs e gera críticas sobre soberania digital

Da Redação

Decisão do governo de aumentar gastos publicitários em plataformas estrangeiras levanta críticas sobre contradição estratégica, dependência tecnológica e fragilidade na disputa pela soberania informacional.

A decisão do governo de Luiz Inácio Lula da Silva de ampliar os investimentos em publicidade direcionada às big techs reacendeu um debate profundo e incômodo sobre estratégia, soberania e coerência política. Em um momento histórico marcado pela disputa global por controle informacional, a medida é vista por críticos como um movimento contraditório e potencialmente prejudicial aos interesses nacionais.

O problema não é financeiro. E é justamente aí que reside o núcleo da crítica.

As grandes plataformas digitais globais não operam com base em escassez de recursos. Empresas como Google, Meta e outras gigantes do setor acumulam receitas bilionárias e exercem poder estrutural sobre fluxos de informação, dados e comportamento social. Direcionar mais verba pública para esses atores não altera sua posição nem constrói capacidade nacional. Ao contrário, aprofunda a dependência.

O Brasil, hoje, ocupa uma posição singular no cenário internacional. Mesmo com avanços ainda limitados, o país se tornou uma das principais referências globais na tentativa de regulação das plataformas digitais. Esse protagonismo não surgiu por acaso. Ele é resultado direto de um acúmulo institucional e investigativo sem precedentes.

O Supremo Tribunal Federal possui hoje um dos maiores conjuntos de evidências do mundo sobre os impactos das big techs na democracia. Os inquéritos sobre fake news, a gestão da pandemia de COVID-19 e os desdobramentos dos ataques de 8 de janeiro formam um corpo robusto de provas que apontam para um padrão de atuação dessas plataformas.

Esse padrão envolve, entre outros fatores, a amplificação de desinformação, a modulação algorítmica de comportamento coletivo e a interferência indireta em processos políticos e institucionais. Não se trata apenas de falhas pontuais. Trata-se de um modelo de negócio baseado na captura da atenção e na exploração de vulnerabilidades cognitivas.

Diante disso, a estratégia de ampliar investimentos publicitários nessas mesmas plataformas soa, para muitos analistas, como um erro de leitura estrutural.

O conflito entre Brasil e big techs não é um conflito econômico convencional. Não se resolve com mais contratos, mais anúncios ou mais recursos. É um conflito político, regulatório e civilizacional. Está relacionado ao controle da esfera pública, à soberania informacional e à capacidade de um Estado democrático de proteger sua população de dinâmicas predatórias.

Ao investir mais nessas plataformas, o governo envia um sinal ambíguo. De um lado, busca regular, investigar e limitar o poder dessas empresas. De outro, fortalece economicamente seu ecossistema, aumentando sua relevância e dependência dentro da comunicação estatal.

Essa contradição fragiliza a posição estratégica do país.

Além disso, há uma dimensão simbólica importante. O Brasil tem a oportunidade de liderar um novo paradigma global de regulação digital, especialmente a partir do Sul Global. Um paradigma que enfrente o poder das plataformas, estabeleça limites e construa alternativas soberanas.

Mas isso exige coerência.

Fortalecer financeiramente essas mesmas estruturas, sem um plano robusto de construção de infraestrutura digital própria, comunicação pública forte e plataformas nacionais, pode comprometer essa liderança.

O debate, portanto, não é apenas sobre publicidade. É sobre projeto de país.

Se o objetivo é enfrentar o poder das big techs, proteger a democracia e construir soberania informacional, é necessário ir além de medidas pontuais. É preciso investir em alternativas, fortalecer ecossistemas nacionais, apoiar mídia independente e desenvolver infraestrutura tecnológica própria.

Caso contrário, o risco é claro. O Brasil pode continuar sendo, ao mesmo tempo, um laboratório de resistência e um território de exploração.

E essa contradição, no longo prazo, tende a cobrar seu preço.