Da Redação
Em ato de campanha em Natal, Presidente afirma que disputa de 2026 colocará frente a frente dois projetos de país, defende universidade, saúde, salário e oportunidades para os mais pobres e transforma desigualdade social em eixo central do confronto eleitoral
O Presidente Lula elevou o combate à pobreza ao centro da disputa presidencial de 2026 ao afirmar, durante ato político em Natal, no Rio Grande do Norte, que o Brasil não pode voltar a ser comandado por forças políticas que tratem os pobres como cidadãos de segunda categoria. Ao lado do candidato ao governo potiguar Cadu de Lula, o presidente apresentou a eleição de outubro como um confronto entre dois projetos distintos de país: um baseado, segundo ele, na ampliação de direitos, oportunidades e participação social; outro associado à exclusão e à redução do papel do Estado na promoção da igualdade.
“Esse país não pode voltar a ser governado por gente que não gosta de pobre”, declarou Lula. Na sequência, vinculou diretamente essa afirmação ao acesso ao ensino superior, criticando aqueles que, em sua avaliação, se incomodam com a presença dos filhos das famílias trabalhadoras nas universidades.
A declaração não aparece isoladamente. Ela sintetiza uma escolha estratégica para a campanha: recolocar a questão de classe no centro da eleição. Em vez de apresentar outubro exclusivamente como uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, o presidente procura transformar a votação numa escolha sobre quem deve participar materialmente do desenvolvimento brasileiro, quem deve ter acesso às oportunidades produzidas pelo país e qual deve ser a função do Estado diante de uma sociedade historicamente marcada por enorme desigualdade.
Essa estratégia possui uma base eleitoral concreta. O Datafolha divulgado nesta semana mostra Lula especialmente forte justamente entre segmentos populares. Numa eventual disputa de segundo turno contra Flávio Bolsonaro, Lula registra 55% entre os eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, contra 35% de Flávio. O presidente também lidera entre mulheres, com 51% a 38%; entre eleitores negros, com 55% a 37%; entre católicos, com 54% a 36%; e alcança sua maior vantagem regional no Nordeste, onde marca 61% contra 30%.
Os números ajudam a compreender por que o discurso de Natal não deve ser tratado simplesmente como retórica.
Lula procura consolidar exatamente os grupos sociais nos quais possui maior vantagem e, ao mesmo tempo, reconstruir uma narrativa histórica que acompanhou sua trajetória política: a ideia de que crescimento econômico somente possui sentido político quando altera concretamente a vida das camadas populares.
Essa concepção apareceu novamente quando o presidente falou sobre educação. Lula lembrou a expansão das universidades e das oportunidades de ingresso no ensino superior promovida durante os governos petistas e defendeu que o filho do trabalhador tenha o mesmo direito de disputar uma formação universitária que os integrantes das famílias mais ricas. A mensagem procura atingir um ponto profundo da estrutura social brasileira: durante grande parte da história nacional, universidade, profissões de maior remuneração e determinadas formas de mobilidade social permaneceram concentradas nas parcelas superiores da pirâmide de renda.
É nesse sentido que educação se transforma em disputa política.
Quando um jovem pobre entra numa universidade federal, quando um trabalhador conquista aumento real do salário mínimo ou quando uma família deixa uma situação de insegurança alimentar, não existe apenas uma mudança estatística. Existe redistribuição de oportunidades e, consequentemente, redistribuição de poder social.
Lula procura transformar essa ideia em linguagem eleitoral simples: o pobre não quer permanecer pobre; quer oportunidade para mudar de vida.
A campanha também tenta estabelecer uma memória comparativa entre diferentes períodos de governo. Lula associa sua trajetória ao Bolsa Família, à valorização do salário mínimo, à expansão do ensino técnico e universitário, às políticas de habitação e ao aumento da participação dos trabalhadores no mercado de consumo. A oposição, por sua vez, contesta a eficiência econômica de diferentes políticas petistas e procura deslocar a eleição para temas como segurança pública, corrupção, responsabilidade fiscal e rejeição ao próprio PT.
Esse conflito de prioridades deverá atravessar toda a campanha.
Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula, adotou neste sábado um discurso particularmente duro sobre segurança pública. Em ato no Rio de Janeiro, afirmou que criminosos seriam retirados de circulação “em pé ou deitados” e voltou a defender a classificação de facções criminosas como organizações terroristas, além do endurecimento das penas.
A contraposição começa, portanto, a adquirir contornos muito claros.
De um lado, Lula tenta organizar sua campanha em torno de trabalho, renda, educação, saúde, soberania e redução da desigualdade. Do outro, Flávio procura colocar segurança, criminalidade, conservadorismo e oposição ao PT no centro da mobilização eleitoral.
Isso não significa que os temas estejam separados. Segurança pública também preocupa profundamente as periferias e as famílias trabalhadoras, enquanto questões econômicas atravessam o eleitorado conservador. A eleição será decidida justamente pela capacidade de cada candidatura de ampliar sua narrativa para além do próprio núcleo eleitoral.
Para Lula, esse é um desafio importante porque os dados mais recentes apresentam uma situação contraditória. O presidente continua liderando a eleição e aparece numericamente à frente de Flávio Bolsonaro no segundo turno, mas sua avaliação de governo enfrenta dificuldades. Segundo o Datafolha, 41% classificam atualmente seu governo como ruim ou péssimo, 33% como ótimo ou bom e 25% como regular. A variação em relação à pesquisa anterior está dentro da margem de erro, mas mostra que a campanha não poderá depender apenas da memória positiva dos governos anteriores.
Lula precisa convencer o eleitor de que um quarto mandato possui uma função histórica própria.
É aí que o discurso sobre os pobres adquire importância estratégica.
O presidente tenta dizer que sua candidatura não representa simplesmente a continuidade administrativa do governo atual. Procura apresentá-la como instrumento para aprofundar um projeto de desenvolvimento no qual crescimento econômico, industrialização, tecnologia e soberania nacional estejam vinculados à inclusão social.
Essa formulação ganha importância num momento em que o Brasil enfrenta uma transformação tecnológica acelerada. Inteligência artificial, automação, plataformas digitais e novas formas de trabalho podem aumentar dramaticamente a produtividade, mas também podem aprofundar desigualdades caso os ganhos econômicos permaneçam concentrados.
A velha questão colocada por Lula — quem participa da riqueza produzida pelo país? — adquire, portanto, uma dimensão contemporânea.
O trabalhador do século XXI não disputa apenas salário. Disputa acesso à educação tecnológica, infraestrutura digital, crédito, moradia, serviços públicos e condições para não ser transformado numa peça descartável de uma economia automatizada.
Também existe uma dimensão regional particularmente importante no discurso de Natal.
O Nordeste permanece sendo o principal território eleitoral de Lula. No Datafolha mais recente, sua vantagem sobre Flávio na região chega a 31 pontos percentuais no segundo turno. Mas isso não significa que a região possa ser considerada politicamente garantida. Partidos de centro e direita vêm ampliando presença em disputas estaduais e municipais, inclusive procurando construir candidaturas locais capazes de dialogar com eleitores lulistas sem confrontar diretamente o presidente.
Por isso, Lula precisa preservar uma conexão política que ultrapasse a identificação partidária.
Sua força histórica no Nordeste está relacionada também à memória de transformações materiais ocorridas durante seus governos: expansão de universidades e institutos federais, programas de transferência de renda, aumento do salário mínimo, eletrificação, cisternas, crédito e ampliação do consumo popular. É essa memória que o presidente tenta conectar aos desafios de 2026.
Mas há uma diferença importante em relação às eleições anteriores.
Lula está no governo.
Não basta prometer. Precisa prestar contas.
A oposição tentará responsabilizá-lo por todos os problemas existentes, especialmente criminalidade, dificuldades fiscais, preços e controvérsias políticas envolvendo o governo. Lula, por sua vez, procurará perguntar ao eleitor qual projeto oferece maior possibilidade de melhoria concreta das condições de vida.
A eleição começa, assim, a ganhar uma dimensão muito mais profunda que a disputa pessoal entre duas famílias políticas.
Ela toca numa pergunta histórica brasileira: para quem o país deve funcionar?
Para uma economia profundamente desigual como a brasileira, essa pergunta está longe de ser abstrata. Ela aparece no salário, no preço da comida, na universidade que o filho consegue frequentar, no posto de saúde, na aposentadoria, no financiamento da casa, no transporte público e na possibilidade de um trabalhador imaginar que seus filhos viverão melhor do que ele.
É justamente nesse terreno que Lula pretende disputar outubro.
Ao dizer que o Brasil não pode voltar a ser governado por quem “não gosta de pobre”, o presidente emprega uma formulação deliberadamente provocadora. Seus adversários poderão rejeitá-la como simplificação eleitoral. Mas a frase cumpre uma função política evidente: obrigar a campanha a discutir qual é o lugar dos pobres dentro do projeto nacional.
E esse debate pode ser decisivo.
A pesquisa mais recente mostra que Lula continua liderando entre os brasileiros de menor renda, enquanto Flávio Bolsonaro apresenta desempenho superior nas faixas mais altas: no segundo turno, Flávio registra 51% contra 37% de Lula entre quem recebe de dois a cinco salários mínimos e 54% contra 39% entre os eleitores acima de cinco salários.
Existe, portanto, uma clivagem socioeconômica perceptível dentro da própria disputa.
Isso não permite reduzir a eleição mecanicamente a ricos contra pobres — religião, gênero, região, segurança, valores e rejeições partidárias também possuem enorme peso. Mas demonstra que classe e renda continuam sendo variáveis poderosas na política brasileira.
Lula parece ter decidido falar diretamente sobre isso.
No início de uma campanha que deverá ser extremamente disputada, o presidente retorna a uma das ideias mais antigas de sua trajetória política: desenvolvimento não pode ser medido somente pelo crescimento da riqueza nacional, mas por quem consegue participar dela.
Em Natal, essa ideia ganhou sua formulação eleitoral mais direta.
O Brasil decidirá em outubro quem governará o país. Lula quer convencer os brasileiros de que, por trás dos nomes apresentados na urna, existe uma decisão ainda maior: se o Estado brasileiro continuará sendo utilizado para abrir portas aos que historicamente permaneceram do lado de fora ou se o país retornará a uma estrutura na qual oportunidades, renda e poder permanecem concentrados no topo.
Essa é a batalha política que o presidente pretende travar.
E Lula escolheu começar chamando pelo nome aqueles que considera o centro dela: os pobres do Brasil.


