Da Redação
Presidente afirma que venda da BR Distribuidora retirou capacidade do Estado de regular preços e acusa distorções que penalizam o consumidor.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom das críticas à política de privatizações no setor de combustíveis ao afirmar que a venda da BR Distribuidora comprometeu a capacidade do Estado brasileiro de garantir preços justos ao consumidor. Em declaração feita nesta sexta-feira, 20 de março de 2026, Lula foi direto ao apontar o impacto da ausência de uma empresa pública forte no segmento de distribuição: sem esse instrumento, segundo ele, o consumidor fica “chupando o dedo” diante das distorções do mercado.
A crítica foi apresentada durante evento na Refinaria Gabriel Passos, em Minas Gerais, ao lado da atual direção da Petrobras. No centro do argumento está a perda de capacidade de coordenação sobre a formação de preços ao longo da cadeia. Lula destacou que, mesmo quando a Petrobras reduz ou mantém valores nas refinarias, isso não se traduz automaticamente em preços mais baixos na bomba, justamente porque o elo da distribuição passou a ser dominado por agentes privados com maior autonomia para definir margens.
O presidente resgatou o papel histórico da BR Distribuidora como instrumento de regulação indireta do mercado. Segundo ele, a presença de uma estatal nesse segmento permitia que os preços praticados pela Petrobras servissem como referência, limitando abusos e garantindo maior previsibilidade ao consumidor. Com a privatização, essa capacidade foi reduzida, alterando a dinâmica concorrencial e abrindo espaço para distorções na cadeia de comercialização.
Ao exemplificar o problema, Lula citou a diferença entre o preço de saída do gás de cozinha nas refinarias e o valor pago pela população. Segundo ele, não é razoável que um botijão que sai por cerca de R$ 37 chegue ao consumidor final por valores próximos a R$ 150, evidenciando um descolamento entre custo e preço ao longo da cadeia.
A crítica também tem um componente político mais amplo. Lula associou a venda da BR Distribuidora a um processo maior de desmonte da Petrobras, que incluiu a venda de ativos estratégicos e a redução da presença estatal em segmentos-chave do setor energético. Para o presidente, esse movimento fragilizou a capacidade do país de atuar de forma soberana em um mercado altamente sensível a crises internacionais, como a atual escalada de preços provocada pela guerra no Oriente Médio.
Nesse contexto, a fala do presidente dialoga diretamente com o cenário atual de pressão sobre os combustíveis. O governo tem enfrentado dificuldades para garantir que reduções de impostos e subsídios sejam repassados ao consumidor final, justamente por conta da estrutura fragmentada do mercado de distribuição. Esse problema tem levado o Executivo a intensificar a fiscalização e discutir alternativas para retomar algum grau de coordenação sobre o setor.
A possibilidade de reentrada da Petrobras no segmento de distribuição, inclusive, já passou a ser debatida dentro do governo, embora enfrente obstáculos jurídicos. Cláusulas contratuais estabelecidas no processo de privatização impedem a estatal de voltar a atuar diretamente nesse mercado antes de 2029, o que limita as opções de intervenção no curto prazo.
Do ponto de vista estrutural, o episódio revela uma disputa central sobre o papel do Estado na economia. De um lado, a lógica de mercado, que defende maior liberdade para agentes privados definirem preços. De outro, a visão de que setores estratégicos, como energia, exigem mecanismos de regulação mais fortes para evitar abusos e garantir acesso da população a bens essenciais.
Sob uma perspectiva mais ampla, especialmente do Sul Global, essa discussão ganha contornos ainda mais relevantes. Países periféricos, altamente dependentes de commodities energéticas e sujeitos a choques externos, tendem a sofrer mais intensamente os efeitos de mercados desregulados. Nesse cenário, a capacidade de intervenção estatal se torna um elemento central de soberania econômica e proteção social.
A crítica de Lula à privatização da BR Distribuidora, portanto, não é apenas uma avaliação sobre uma decisão passada. Ela se insere em um debate estratégico sobre o futuro do setor energético brasileiro e sobre o modelo de desenvolvimento adotado pelo país. Ao afirmar que o consumidor perdeu proteção com a saída da estatal, o presidente aponta para uma disputa que vai além dos combustíveis: trata-se de definir quem controla preços, quem captura os ganhos do setor e quem, no final, paga a conta das crises globais.
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