Da Redação
Em discurso histórico no Fórum CELAC-África, presidente denuncia nova ofensiva colonial, critica guerras e convoca união do Sul Global pela autodeterminação.
O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Fórum CELAC-África, realizado em Bogotá neste 21 de março de 2026, marca um dos momentos mais contundentes da diplomacia brasileira recente ao recolocar a soberania, a autodeterminação dos povos e a crítica ao imperialismo no centro do debate internacional. Em um cenário global atravessado por guerras, crises energéticas e disputas geopolíticas, Lula fez uma intervenção direta contra a lógica de dominação que historicamente marcou as relações entre o Norte e o Sul Global.
“Não somos mais países colonizados. Nós conquistamos soberania com a nossa independência”, afirmou o presidente, em uma frase que sintetiza o eixo central de sua fala.
A declaração não foi isolada. Ela veio acompanhada de uma crítica frontal à prática de intervenções militares unilaterais, especialmente por parte de grandes potências. Lula questionou abertamente a legitimidade dessas ações ao perguntar, em referência direta ao cenário internacional atual, “em que documento do mundo está dito que um país pode invadir o outro”.
O contexto do discurso é decisivo para entender sua força política. O Fórum CELAC-África reúne países que, juntos, somam mais de dois bilhões de pessoas e compartilham uma história comum de colonização, exploração e subordinação econômica. Ao falar nesse espaço, Lula não se dirige apenas a governos, mas a um bloco geopolítico em formação, que busca afirmar uma agenda própria diante da fragmentação da ordem internacional.
No centro dessa agenda está a rejeição explícita a uma nova onda de colonialismo. Lula alertou que o mundo vive um momento de recrudescimento do unilateralismo e da imposição de força, no qual países ricos voltam a agir como se fossem “donos” de outras nações. A crítica não é abstrata. Ela dialoga diretamente com guerras recentes, sanções econômicas e pressões sobre recursos estratégicos, como minerais críticos e energia.
O presidente também resgatou a memória histórica do saque colonial, lembrando que América Latina, Caribe e África foram sistematicamente explorados em seus recursos naturais e humanos. Ao fazer esse resgate, Lula constrói uma linha de continuidade entre o colonialismo clássico e as formas contemporâneas de dominação, que passam pela economia, pela tecnologia e pela geopolítica.
Essa leitura se conecta diretamente com a atual guerra envolvendo o Irã. Ainda que sem citar apenas um país como alvo exclusivo, Lula deixou claro que intervenções militares sem base legal internacional representam uma ameaça direta à soberania global. Ao afirmar que não se pode permitir que “alguém se intrometa e fira a integridade territorial de cada país”, o presidente estabelece uma posição inequívoca em defesa do direito internacional.
Outro ponto central do discurso foi a crítica à lógica de prioridades do sistema internacional. Lula destacou que, enquanto trilhões de dólares são gastos em guerras, centenas de milhões de pessoas seguem vivendo na fome e na pobreza. Essa comparação não é apenas retórica. Ela revela uma denúncia estrutural sobre como recursos globais são direcionados para conflitos, em detrimento de políticas sociais e de desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, o presidente apresentou uma proposta concreta de reorganização da agenda global a partir do Sul. Ele defendeu que a verdadeira “guerra” a ser travada é contra a fome, o analfabetismo, a falta de energia e a desigualdade. Essa inversão de prioridades é um dos pilares da política externa brasileira atual, que busca reposicionar o país como articulador de uma agenda alternativa no sistema internacional.
Essa agenda passa também por um elemento estratégico: o controle dos recursos naturais. Lula alertou para o risco de uma nova corrida global por minerais críticos e terras raras, fundamentais para a transição energética e a economia digital. Segundo ele, países do Sul Global não podem aceitar novamente o papel de meros exportadores de matéria-prima, devendo buscar industrialização e agregação de valor em seus próprios territórios.
O discurso, portanto, vai além da denúncia. Ele aponta caminhos. Entre eles, o fortalecimento da cooperação Sul-Sul, o aprofundamento do multilateralismo e a construção de alianças estratégicas entre América Latina e África. A proposta inclui integração econômica, cooperação tecnológica, desenvolvimento sustentável e ação conjunta em organismos internacionais.
Essa dimensão geopolítica é fundamental. Ao defender maior representação de países do Sul Global em espaços como o Conselho de Segurança da ONU, Lula questiona diretamente a estrutura atual de poder internacional, que permanece concentrada nas mãos de poucas nações.
No plano simbólico, o discurso também carrega um elemento de reposicionamento histórico. Ao afirmar que os países do Sul já conquistaram sua independência, Lula não fala apenas de passado. Ele aponta para um projeto de futuro em que essa independência precisa ser defendida continuamente, diante de novas formas de dominação.
Esse posicionamento ganha ainda mais relevância em um momento de crescente instabilidade global. A combinação de guerras, crises energéticas, disputas tecnológicas e fragmentação política cria um ambiente em que a soberania se torna novamente um campo central de disputa.
No limite, o discurso de Lula na CELAC-África não é apenas uma intervenção diplomática. É a formulação de uma narrativa estratégica para o século XXI: a de que o Sul Global precisa deixar de ser objeto da história e passar a atuar como sujeito ativo na construção da ordem internacional.
E, nesse sentido, a mensagem central é clara: a soberania não é apenas um dado histórico. É uma conquista permanente, que precisa ser defendida — política, econômica e militarmente — diante de um mundo que ainda tenta, por diferentes meios, recolonizar aqueles que já lutaram para ser livres.


